A Bahia detém cerca de vinte por cento do emprego total dos pontos de concentração de produção artesanal no Nordeste. O número de pessoas que trabalham nos pontos de concentração de atividades desse tipo no estado é de 17.500. Quanto ao volume de emprego verifica-se que as atividades mais importantes são manufaturas, cestaria, trançados e tecelagem manual, que juntas participam com oitenta e seis por cento do total. Com alguma importância notam-se ainda bordados e congêneres (8,5 por cento, seguindo-se, à grande distância, com participação individual inferior a 2 por cento, artefatos de couro, joalheria e ourivesaria, cerâmica e artefatos de metal, os que proporcionam maiores rendas aos artesãos baianos.
O Instituto de Pesquisa e Treinamento do Artesanato, foi criado pelo governo do estado para desenvolver as atividades artesanais, mantendo vários técnicos no interior da Bahia.
Os estudos realizados revelaram a existência de apenas um ponto de produção de cerâmica de barro, de proporções e qualidades dignas de nota. Trata-se de Maragojipinho, distrito de Aratuipe. O município de Aratuipe consta apenas da sede e de um distrito tendo a população de cerca de 6.500 habitantes e está situado às margens do Rio Jaguaribe, na região do Recôncavo.
Maragojipinho fica à margem de um braço de rio, que desagua no Jaguaribe, e tem uma população de 1.500 habitantes. Está ligado à sede por uma estrada carroçavel, praticamente intransitável na época chuvosa e a Nazaré por canoa, num percurso que leva de uma a duas horas, dependendo das condições do rio.
Parte considerável da população de Maragojipinho está ligada direta ou indiretamente à economia da cerâmica compreendendo-se aqui fases que vão desde o corte e transporte de lenha para combustível, extração e transporte de barro, fabricação e acabamento de diversas peças. Calcula-se em 50 o número de olarias e em duzentas o de pessoas ocupadas nas diversas etapas do progresso produtivo.
Acredita-se que a produção de cerâmica, em Maragojipinho, vem de longa data, pois alguns documentos a ela se referem como já existindo na segunda metade do século XIX, e parece ter origem no trabalho dos indígenas que haviam na região. Os artigos produzidos incluem-se em duas classificações: louça grossa, constituída de peças maiores formando o grosso da produção e miuçama, constituída de miniaturas.
Brinquedos e decorações
Os principais artigos de louça grossa são: talha e porrão, em forma de ânfora. Talhas são providas de alças na parte superior, idênticas aos potes de barro, para o armazenamento de água para beber, moringa, refriador, vaso para plantas, panela, alguidar, papeiro e objetos de adorno. As miuçalhas destinam-se aos brinquedos de crianças, prestando-se também para decoração de residência. Sua produção está ligada ao processo de treinamento de aprendizes, não tendo, portanto maior significação.
O principal mercado para Maragojipinho é Salvador, concentrando-se as vendas na feira de Água de Menino. Além de Salvador, há outros municípios do Recôncavo, como Nazaré e Santo Amaro. São atingidas localidades mais distantes como Feira de Santana e Jequié e, na costa, Ilhéus, Belmonte, Canavieira, Caravelas. Como se vê distâncias de vinte, cinqüenta e até cem léguas são vencidas para a colocação do produto. A louça é vendida pelos oleiros, a prazo e à vista. Há oleiros que também comerciam o produto nas feiras, onde são estabelecidos. As vendas, em Maragojipinho, totalizam mais de sete milhões de cruzeiros por ano.
A louça de Maragojipinho não enfrenta concorrência da parte de similares produzidos na região nordestina. Registra-se nas feiras da Bahia, o aparecimento de algumas peças provenientes de certos municípios de Sergipe, como Propriá, Neópolis, Lagarto e Itabaianinha. São geralmente, tigelas de menor espessura que as comuns, feitas de um barro claro, fino e consistente, decoradas com ralas de tinta vermelho-escuro, que lhes dão aspecto peculiar e atraente.
Os principais instrumentos de produção usado nas fábricas de louças de Maragojipinho são o torno e o forno. O torno é constituído de duas esferas giratórias, uma grande, na parte inferior, para acionamento com o pé, ligada por um eixo a um menor, que serve para apoiar o barro que o oleiro molda a mão. O forno é o tipo "capela": alto, abobadado, com a fornalha no plano inferior, separada da câmara de cozimento.
Apesar de empírico, muitas vezes não favorecendo igual concentração de calor em toda a área da câmara, é um tipo de forno bem mais avançado do que aqueles encontrados no sertão. Esses conjuntos ficam abrigados em olarias, que são espécies de alpendres cobertos de telha ou palha, com os lados parcialmente protegidos por grades de bambu recobertas de folhas de coqueiro, à guisa de paredes. O amassamento do barro é feito de forma rudimentar e cansativa. Blocos de barro são colocados sobre bancos no recinto da olaria, e rapazes o amassam à mão. Depois de preparado, o barro é levado ao torno, onde em blocos chamados "pelãs" é moldado à mão pelo oleiro, à proporção que vai girando sobre o prato superior do torno. Nessa operação, é utilizada também uma espátula de bambu para acabamento e um cordão para separar a peça do barro que sobrar e permitir retirá-lo do torno.
Tinta esmalte
Os materiais usados na fabricação de louças são: barro branco ou de queimação clara, ou barro de queimação vermelha e chumbo. É na pintura com tinta esmalte que as decorações de Maragojipinho se esmeram em transmitir a sua arte. São as moringas as peças principais deste tipo de pintura. O floral é motivo mais freqüente, ressaltando-se a tricomia verde, vermelho e amarelo. Comentando os processos de decorações em Maragojipinho, o diretor do IPA diz o seguinte:
— Dos motivos ornamentais pintados com tauá, os mais característicos são os que aparecem nos potes, nos porrotes, nos alguidares e em alguns cacos (jarros de plantas) composições baseadas em arabesco que deixam quase expressa a sua origem nos motivos sepentiformes da arte indígena, abás peculiares às tribos que habitaram os sertões baianos. Não raro também "abrem uma rosa" (como dizem) motivo baseado em flor, parecendo apresentar evidente inspiração européia.
Extração do barro
O barro é extraído em jazidas ou barreiros que distam de três a seis quilômetros das olarias. É comprado em blocos denominados "pelouros" de seis a oito quilos cada um e ao preço de Cr$ 3,50. O transporte para o centro de consumo é feito em canoas. No processo de vidramento, que dá brilho à peça e lhe aumenta a beleza e durabilidade, utiliza-se chumbo em mistura com argila para banhar a louça. Compram-se chumbos de sucata na base de 40 cruzeiros o quilo.
Embora seja o maior centro de produção de louça de barro no Nordeste. Maragojipinho ainda apresenta várias possibilidades de desenvolvimento, aprimorando os artigos tradicionais, lançando novos, adotando processos que reduzirão custos de produção. Terá um papel a cumprir na substituição de importações, especialmente de filtros, moringas esterilizantes e finos objetos de decoração, vidrados ou esmaltados. As vendas não se limitarão às feiras, mas se realizarão, também nos melhores estabelecimentos comerciais com possibilidade de exportação para outros estados nordestinos.