As onças fervilhavam outrora nos sertões nordestinos, conforme relatam as crônicas locais. Talvez mais numerosas do que os índios e duma audácia ainda maior do que a das tabas guerreiras. Daí terem ficado perpetuadas no folclore em dois ciclos diversos: no dos bandeirantes, em histórias das lutas contra elas; no dos vaqueiros, em canções sobre as devastações por elas praticadas nos rebanhos. Com o abundante material a respeito, poder-se-ia talvez sistematizar um ciclo das onças.
Pumas ou jaguares, vermelhas, pretas, pintadas, sussuaranas e maçarocas, foram dos maiores entraves encontrados pelos colonizadores nas regiões de pecuária. Diante dos mosquetes, ronqueiras e trabucos, os indígenas desapareciam nas guerras de corso e de morte, enquanto elas continuavam a desafiar a pertinácia dos caçadores, a devorar os indivíduos tresmalhados e a arruinar os estabelecimentos incipientes. Tanto assim que, em sertões onde não resta mais nem sequer a lembrança do aborígene, ainda hoje a das onças subsiste.
Da mesma forma, a memória coletiva do sertão perdeu os cantos que faltava no indígena, porém continuou a cantar o destemor e ferocidade das onças, narrando suas tropelias, quer sob a forma satírica, quer sob a de verdadeiras gestas. Até os cantadores matutos em seus desafios ainda se comparam às onças, embora hoje raros exemplares delas sobrevivam acuados pelas devezas e dobras das mais inóspitas serranias:
Sou pior que as onças pretas
Sou pior que o tigre macho
Quando urro em cima da serra
Estremece a laje embaixo!
O viajante Henry Koster, que fez a cavalo a longa travessia do Recife a Fortaleza na primeira década do século XIX, refere-se constantemente às onças e recorda as histórias que a propósito eram conservadas bem vivas na memória dos moradores daquela região, os quais, no entanto, já tinham perdido de todo a das lutas contra os índios. Essas histórias são quase todas semelhantes. Nelas, sempre após tenaz perseguição, a fera é morta pela valentia de um homem sozinho, a faca. Ainda hoje se perpetua entre os sertanejos o acentuado gosto por esse traço de heroísmo individual:
Para vencer eleição
Eu não meto chapa na urna
Para as onças do sertão
Não uso polv'ra soturna
Pulo de faca na mão
E tomo a boca da furna!
As gestas do ciclo heróico sertanejo pintam o bandido Antônio Silvino lutando braço a braço com uma onça.
Entre as várias histórias de onça do sertão, uma há que merece citada pela sua veia de caráter absolutamente satírico e original:
Era no tempo das primeiras colonizações. Querendo ver-se livre de uma onça que devastava seu gado, um fazendeiro recém-estabelecido na ribeira convidou um seu vizinho e compadre para matá-la.
Preparam-lhe uma tocaia em regra, com um carneiro amarrado ao pé de uma árvore. Um dos compadres subiu em alta aroeira ali defronte e se escanchou num galho, de arma aperrada. O outro meteu-se num buraco ali perto, cobrindo-o com palhas de carnaúba sobre travessas de mororó. Era sua intenção pôr a fera entre dois fogos.
De madrugada, naquela incômoda postura, ouviram o rugido da onça. Aterrorizaram-se! O de baixo encolheu-se. deu uma tremedeira tal no de cima que deixou cair a espingarda. O carneiro berrou três vezes, apavorado. E a onça apareceu. Era uma pintada enorme, ferocíssima. Veio lentamente, abanando a cauda, e sentou-se, sem fazer o menor ruído e o menor caso do pobre carneirinho, sobre o tapume de palhas do buraco, onde se escondia um dos caçadores. Com as redondas pupilas amarelas pôs-se a fitar o outro, que se abraçava ao tronco da aroeira para não cair nos paroxismos da tremura. Aquele olhar duro, impassível, inistente, não o deixava um instante. Então, o desgraçado, rilhando dentes, gaguejou:
— Onça, debaixo do teu rabo tem um!
Releva dizer que a expressão sertaneja é mais forte...
Ouvindo tais palavras, o de baixo tremeu com mais força e a poeira da terra, com aquela agitação, lhe entrou pelas narinas. Sentiu um formigamento na garganta e no nariz. Quis conter-se, não conseguiu e, afinal, soltou um espirro formidável... O sertanejo conta esta parte mais rudemente.
Ao ouvir aquele estampido debaixo dela, a onça se espantou e pôs-se em fuga com incrível rapidez...
Quando a gente das fazendas dos dois compadres, alarmada com sua demora, foi procurá-los, o do galho estava louco de pavor, convencido de ser macaco, e o do buraco jazia morto, coberto de formigas...