Jangada Brasil, a cara e a alma brasileiras
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Junho 2005 - nº 79 - Ano VII


Sumário

Festança

Danças populares do Vale do Paraíba
Ruth Guimarães

São Pedro no Boqueirão
Daniel Bicudo

O São João da minha terra
Jorge Ramos

Cancioneiro

A revolta do Arari — União da Liberdade

Fragmentos do ABC de Ana Freire de Brito

Ligeira de Severino Perigo

Imaginário

História de um pintinho
Figueiredo Pimentel

Aventuras de um jabuti
Figueiredo Pimentel

Histórias de onças
Gustavo Barroso

Colher de Pau

O velho mercado, no Rio de Janeiro
João do Rio

Jantar e debulha de milho
Robert Walsh

Alguns quitutes e bebidas das festas juninas
Jamile Japur

Oficina

Índios inspiram baianos nas cerâmicas de Maragojipinho

Dona Sebastiana é caiçara de muita arte

Aparece nova indústria artesanal em São Paulo: a de bonecas artísticas

Palhoça

Formalidades
Júlia Lopes de Almeida

Tamancos que não mais se vêem...
Flávio Guerra

Folclore das profissões
João Chiarini

Panacéia

Ladainha de São João no Guaçuí
Renato Pacheco

Amor e sonho no São João
Veríssimo de Melo

Pão dos pobres e lírios de Santo Antônio

Veja o que foi publicado em Imaginário
Apoio Cultural
Simplicitate Design

Veja como sua empresa pode apoiar a nossa iniciativa.

Imaginário
Textos sobre lendas e mitos; contos; personagens; fábulas; narrativas populares; seres fantásticos...

História de um pintinho

Figueiredo Pimentel

Qui-qui-ri-qui. Có-có-rócó!

Num terreno de grande chácara, pertencente a opulento senhor, viviam em profusão, galos, galinhas, pintos, perus, patos, marrecos, galinholas, pavões — todas as espécies de aves domésticas, numa palavra. Vida regalada, passavam eles alimentados à farta. A única exceção era um pobre pintinho, que vivia muito triste. Por ser muito pequeno e magro, os companheiros levavam todo o dia a beliscá-lo, de modo que o infeliz pintinho andava sempre ferido, e quase sem comer, porquanto as galinhas não lhe deixavam um grãozinho de milho sequer.

Vivia o coitadinho muito triste de sua vida, pensando em fugir de perto dos outros, devido aos maus tratos que constantemente recebia, quando, uma vez, mariscando, viu um papelzinho, e disse:

— Bravo! agora estou com a minha vida ganha! Vou levar esta carta ao rei, e ele com certeza, em paga, há de mandar-me dar milho bastante para eu comer durante a minha vida inteira.

Ficou o pintinho tão satisfeito, pensando em arranjar uma casinha para morar, onde pudesse passar os dias longe do terreiro, livre das beliscadas de seus companheiros, que cantou pela primeira vez:

— Qui-qui-ri-qui.

Os outros, ouvindo aquela voz desconheida, olharam e viram-no cantar.

O galo velho, pastor do terreiro, perguntou:

— Quem é que canta aqui neste terreiro sem minha ordem?

— Sou eu, disse o pintinho, porque achei uma carta e vou levá-la a el-rei nosso senhor.

Disse e partiu em direção ao palácio real.

Depois de muito andar, parou para descansar das fadigas da viagem. Estava beliscando a terra, pensando na fortuna que o rei havia de lhe dar, quando passou uma raposa, que, avistando-o, lhe dirigiu a palavra:

— Bons dias, sr. pinto. Por aqui por estas alturas? Onde vai tão cedo?

— Qui-qui-ri-qui, retorquiu o pinto, vou levar esta carta a el-rei nosso senhor.

— Se não é abuso, sr. pinto, pedia-lhe para me levar em sua companhia. Desejava ver o palácio do rei. Dizem que é muito bonito e guardado por muitos soldados, e que a gente, só de o ver, se diverte.

— Não faço dúvida em levá-la, dona raposa. Se quiser, entre aqui no meu papinho, que a conduzirei até lá.

A raposa fez o que o pintinho mandou, e lá seguiram os dois em demanda do palácio.

Andaram muito e, depois de já bem cansados, o pintinho encontrou um riacho. Desanimou de seguir viagem, por não poder atravessar a nado um rio tão grande e com tanta correnteza.

Encarapitou-se em cima de uma pedra; e, muito triste, pensava num meio de transpor o rio, quando este lhe falou:

— Olé, sr. pinto, por que se aflige tanto? Há meia hora o estou vendo a olhar para mim, com cara tão triste. Diga-me o que sente. Talvez lhe possa ser útil.

— É o caso, senhor rio, que tenho que levar esta carta a el-rei nosso senhor, mas não posso, porque não tenho coragem de o atravessar a nado.

— Não seja essa a dúvida, sr. pinto. Pô-lo-ei na outra margem, sem risco de sua própria vida, mas com a condição de me levar também em sua companhia.

— Pois bem, entre no meu papinho, e vamos ver o rei, respondeu ele.

O rio entrou, e seguiram viagem os três: o pintinho, a raposa e o rio.

Mais adiante encontrou um espinheiro.

— Onde vai, sr. pinto, com tanta pressa? inquiriu este.

— Qui-qui-ri-qui, vou ao palácio do rei levar-lhe esta carta, e não quero me demorar, porque pretendo chegar lá antes da noite.

— Quer levar-me em sua companhia? Talvez eu lhe seja útil.

O espinheiro entrou também, seguiu com seus companheiros para o palácio do rei.

* * *

Chegados, aí, o pinto dirigiu-se à guarda do palácio, dizendo que tinha uma carta para entregar a sua majestade real. A sentinela não quis deixá-lo entrar. Ele, porém, tão alto falou, tanto cantou, que o rei, ouvindo aquele barulho todo, chegou à janela e perguntou porque razão aquele pinto fazia tamanha algazarra.

— Saberá vossa real majestade que este pinto quer por força entrar, para entregar uma mesagem, disse o soldado.

— Pois deixe-o entrar.

O rei recebeu o papelinho do bico do pinto, e vendo que era um simples pedaço de papel sujo ficou zangado com aquele atrevimento, e mandou que seus vassalos o pusessem no poleiro, em meio das galinhas e galos, que no palácio havia em grande quantidade.

Assim que ele entrou, os outros vendo um hóspede novo, começaram a beliscá-lo.

Nisso gritou a raposa:

— Sr. pinto, espere que vou defendê-lo. Ensinarei a esses tratantes que não se maltrata assim uma ave tão distinta. Saiu do papo do pintinho, e começou a comer toda a criação que existia no poleiro. Em seguida, saíram ambos a toda a pressa, fugindo do cozinheiro que havia corrido a ver o que havia de extraordinário ali para que as galinhas tanto gritassem.

Quando entrou e não viu ave alguma, alguém foi comunicar ao rei que o pintinho, que na véspera levara a carta, e que fora metido no poleiro, em castigo do seu atrevimento, fugira, tendo matado as galinhas.

O rei, exasperado, mandou que um batalhão fosse logo em procura do fugitivo e que o trouxesse vivo ou morto.

Já estava o pinto muito longe, e fugia a bom fugir, quando ouviu tropel de animais, retinir de espadas.

Compreendeu que era gente mandada pelo rei para prendê-lo.

Soltou o rio do seu papinho, que, estendendo-se pelo campo afora, impediu a marcha do batalhão.

Os soldados levaram muito tempo a arranjar canoas que os conduzissem à outra margem.

Nesse intervalo, ia o pintinho ganhando terreno.

Corria sempre, para se livrar dos seus perseguidores.

O batalhão conseguiu, finalmente, transpor o rio e correu a toda a brida atrás do pinto.

Mestre pinto, vendo-se assim quase alcançado pelos seus perseguidores, deixou sair do papo o espinheiro que formou espessa, impenetrável cerca de espinhos, impedindo, assim, os soldados de continuarem a empresa.

O galináceo, livre, finalmente de tantos perigos, voltou para o terreiro, mas teve vergonha de entrar, com medo das pancadas que viria a sofrer dos companheiros.

Começou a espreitar por trás de uma cerca e não avistando nenhum dos antigos companheiros, atreveu-se a entrar.

Ficou maravilhado, vendo o bom trato que a nova geração, assim que saía do poleiro, lhe dava.

Fizeram-lhe muitas festas, e ofereceram-lhe casa, comida e o lugar do galo velho pastor de terreiro, que havia morrido dias antes, porque nesse tempo, o pintinho era um frango bonito, preto, com penas douradas nas asas.

Assim ficou ele sendo o galo, dono do terreiro e viveu longos anos, muito feliz no meio dos seus iguais.

(Pimentel, Figueiredo. Histórias da avozinha. Rio de Janeiro; Belo Horizonte, Livraria Garnier, 1994, p.67-71 (Biblioteca de autores célebres da literatura infantil, 3))
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