Jangada Brasil a cara e a alma brasileiras
Ano VII - Edição 79
Junho de 2005
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História de um pintinho

Figueiredo Pimentel

Qui-qui-ri-qui. Có-có-rócó!

Num terreno de grande chácara, pertencente a opulento senhor, viviam em profusão, galos, galinhas, pintos, perus, patos, marrecos, galinholas, pavões — todas as espécies de aves domésticas, numa palavra. Vida regalada, passavam eles alimentados à farta. A única exceção era um pobre pintinho, que vivia muito triste. Por ser muito pequeno e magro, os companheiros levavam todo o dia a beliscá-lo, de modo que o infeliz pintinho andava sempre ferido, e quase sem comer, porquanto as galinhas não lhe deixavam um grãozinho de milho sequer.

Vivia o coitadinho muito triste de sua vida, pensando em fugir de perto dos outros, devido aos maus tratos que constantemente recebia, quando, uma vez, mariscando, viu um papelzinho, e disse:

— Bravo! agora estou com a minha vida ganha! Vou levar esta carta ao rei, e ele com certeza, em paga, há de mandar-me dar milho bastante para eu comer durante a minha vida inteira.

Ficou o pintinho tão satisfeito, pensando em arranjar uma casinha para morar, onde pudesse passar os dias longe do terreiro, livre das beliscadas de seus companheiros, que cantou pela primeira vez:

— Qui-qui-ri-qui.

Os outros, ouvindo aquela voz desconheida, olharam e viram-no cantar.

O galo velho, pastor do terreiro, perguntou:

— Quem é que canta aqui neste terreiro sem minha ordem?

— Sou eu, disse o pintinho, porque achei uma carta e vou levá-la a el-rei nosso senhor.

Disse e partiu em direção ao palácio real.

Depois de muito andar, parou para descansar das fadigas da viagem. Estava beliscando a terra, pensando na fortuna que o rei havia de lhe dar, quando passou uma raposa, que, avistando-o, lhe dirigiu a palavra:

— Bons dias, sr. pinto. Por aqui por estas alturas? Onde vai tão cedo?

— Qui-qui-ri-qui, retorquiu o pinto, vou levar esta carta a el-rei nosso senhor.

— Se não é abuso, sr. pinto, pedia-lhe para me levar em sua companhia. Desejava ver o palácio do rei. Dizem que é muito bonito e guardado por muitos soldados, e que a gente, só de o ver, se diverte.

— Não faço dúvida em levá-la, dona raposa. Se quiser, entre aqui no meu papinho, que a conduzirei até lá.

A raposa fez o que o pintinho mandou, e lá seguiram os dois em demanda do palácio.

Andaram muito e, depois de já bem cansados, o pintinho encontrou um riacho. Desanimou de seguir viagem, por não poder atravessar a nado um rio tão grande e com tanta correnteza.

Encarapitou-se em cima de uma pedra; e, muito triste, pensava num meio de transpor o rio, quando este lhe falou:

— Olé, sr. pinto, por que se aflige tanto? Há meia hora o estou vendo a olhar para mim, com cara tão triste. Diga-me o que sente. Talvez lhe possa ser útil.

— É o caso, senhor rio, que tenho que levar esta carta a el-rei nosso senhor, mas não posso, porque não tenho coragem de o atravessar a nado.

— Não seja essa a dúvida, sr. pinto. Pô-lo-ei na outra margem, sem risco de sua própria vida, mas com a condição de me levar também em sua companhia.

— Pois bem, entre no meu papinho, e vamos ver o rei, respondeu ele.

O rio entrou, e seguiram viagem os três: o pintinho, a raposa e o rio.

Mais adiante encontrou um espinheiro.

— Onde vai, sr. pinto, com tanta pressa? inquiriu este.

— Qui-qui-ri-qui, vou ao palácio do rei levar-lhe esta carta, e não quero me demorar, porque pretendo chegar lá antes da noite.

— Quer levar-me em sua companhia? Talvez eu lhe seja útil.

O espinheiro entrou também, seguiu com seus companheiros para o palácio do rei.

* * *

Chegados, aí, o pinto dirigiu-se à guarda do palácio, dizendo que tinha uma carta para entregar a sua majestade real. A sentinela não quis deixá-lo entrar. Ele, porém, tão alto falou, tanto cantou, que o rei, ouvindo aquele barulho todo, chegou à janela e perguntou porque razão aquele pinto fazia tamanha algazarra.

— Saberá vossa real majestade que este pinto quer por força entrar, para entregar uma mesagem, disse o soldado.

— Pois deixe-o entrar.

O rei recebeu o papelinho do bico do pinto, e vendo que era um simples pedaço de papel sujo ficou zangado com aquele atrevimento, e mandou que seus vassalos o pusessem no poleiro, em meio das galinhas e galos, que no palácio havia em grande quantidade.

Assim que ele entrou, os outros vendo um hóspede novo, começaram a beliscá-lo.

Nisso gritou a raposa:

— Sr. pinto, espere que vou defendê-lo. Ensinarei a esses tratantes que não se maltrata assim uma ave tão distinta. Saiu do papo do pintinho, e começou a comer toda a criação que existia no poleiro. Em seguida, saíram ambos a toda a pressa, fugindo do cozinheiro que havia corrido a ver o que havia de extraordinário ali para que as galinhas tanto gritassem.

Quando entrou e não viu ave alguma, alguém foi comunicar ao rei que o pintinho, que na véspera levara a carta, e que fora metido no poleiro, em castigo do seu atrevimento, fugira, tendo matado as galinhas.

O rei, exasperado, mandou que um batalhão fosse logo em procura do fugitivo e que o trouxesse vivo ou morto.

Já estava o pinto muito longe, e fugia a bom fugir, quando ouviu tropel de animais, retinir de espadas.

Compreendeu que era gente mandada pelo rei para prendê-lo.

Soltou o rio do seu papinho, que, estendendo-se pelo campo afora, impediu a marcha do batalhão.

Os soldados levaram muito tempo a arranjar canoas que os conduzissem à outra margem.

Nesse intervalo, ia o pintinho ganhando terreno.

Corria sempre, para se livrar dos seus perseguidores.

O batalhão conseguiu, finalmente, transpor o rio e correu a toda a brida atrás do pinto.

Mestre pinto, vendo-se assim quase alcançado pelos seus perseguidores, deixou sair do papo o espinheiro que formou espessa, impenetrável cerca de espinhos, impedindo, assim, os soldados de continuarem a empresa.

O galináceo, livre, finalmente de tantos perigos, voltou para o terreiro, mas teve vergonha de entrar, com medo das pancadas que viria a sofrer dos companheiros.

Começou a espreitar por trás de uma cerca e não avistando nenhum dos antigos companheiros, atreveu-se a entrar.

Ficou maravilhado, vendo o bom trato que a nova geração, assim que saía do poleiro, lhe dava.

Fizeram-lhe muitas festas, e ofereceram-lhe casa, comida e o lugar do galo velho pastor de terreiro, que havia morrido dias antes, porque nesse tempo, o pintinho era um frango bonito, preto, com penas douradas nas asas.

Assim ficou ele sendo o galo, dono do terreiro e viveu longos anos, muito feliz no meio dos seus iguais.

 

(Pimentel, Figueiredo. Histórias da avozinha. Rio de Janeiro; Belo Horizonte, Livraria Garnier, 1994, p.67-71 (Biblioteca de autores célebres da literatura infantil, 3))
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