Jangada Brasil a cara e a alma brasileiras
Nesta seção, textos sobre festas populares, religiosas e profanas; folguedos; danças; datas comemorativas; instrumentos musicais...

São Pedro no Boqueirão

Daniel Bicudo

Antigamente, as praias de Santos eram conhecidas apenas por duas denominações: uma — a praia do José Menino, que começando à direita da embocadura do córrego Dois Rios aonde agora se acha o canal nº 3 até a ilha de Urubuquessaba, nas divisas de São Vicente; outra — a da praia da Barra Grande, ou Boqueirão, que se contava da margem esquerda do mesmo córrego, e ia até a curva que acompanha a entrada do porto, onde terminavam as areias do mar e começava o mangue do canal. Era esse ponto extremo designado pelo nome de Ponta da Praia, isto é, final ou ponta da praia do Boqueirão.

Entende-se, pois, que, naqueles remotos tempos, a linha divisória das duas únicas praias santistas, José Menino e Boqueirão — ambas ponteadas pitorescamente, de esbeltas palmeiras a dentro de grandes chácaras de moradia — estava firmada naquele curso de água aluviais, que as formava com a junção de dois riachos, um maior, outro menor, pouco antes de sair para o areião e fundir-se no mar.

Não existia, praticamente, comunicação entre as duas praias, a não ser a que se fazia por meio de carruagens e de troles, que rodavam espadanando água na orla em que se espraiava a última onde. E, por essa circunstância, as relações familiares entre os habitantes das duas zonas santistas eram espaçadas e raras. A desagradável travessia do famoso Dois Rios, nas vizinhanças do casarão habitado por ingleses do Cabo submarino, era coisa para desanimar disposições, principalmente nas noites de estrelas geladas na profundidade dos céus de junho.

Pois foi exatamente numa dessas noites que a praia do Boqueirão fez o milagre de atrair várias famílias moradoras do José Menino, a despeito do obstáculo fluvial interposto entre os dois pontos. Os veículos que partiram do José Menino cortaram, em silencioso medo, as águas misturadas dos Dois Rios, e, à medida que chegavam, iam parando no areião que ficava a frente de uma casa isolada, repleta de luzes. Ali já estavam outras carruagens e duas grandes fogueiras davam sinais de que iam quebrar o negrume da noite com o rubro clarão de suas próximas labaredas.

Todavia, cumpre dizer o que foi que decidiu as famílias do José Menino a se arriscarem, naquela noite, a vir até a casa festiva, na praia do Boqueirão. É que ali se realizavam todos os anos festejos em louvor a São Pedro, a 28 de junho, e, naquele ano de 1903, os convites tiveram cunho terminante: a ninguém se dava o direito de recusar!

"Noblesse oblige", era forçoso obedecer.

Mas, quem é que se impunha daquele modo, perante amigos e relações a via, deslumbrado, o seu lar em ridente reboliço? Ah, esse alguém era um bem-quisto comerciante de café e sacaria, na praça de Santos, e morava numa das primeiras casas além do Miramar. Esse cidadão era Pedro Alcover, foram, no ano citado, como tanto se disse depois -— de arromba. Já nas vésperas, a atenção dos que de longe olhavam para os lados do Boqueirão era solicitada, pelo movimento desusado que se fazia em certo trecho. O mato alto, coalhado de goiabeiras, que vicejava entre o mar e as construções, era cortado a eito. Na clareira aberta, grandes paus roliços eram cruzados e sobre postos, formando dois vastos quadrados, que se erguiam como pirâmides em arcabouço. Os portões escancarados eram como goelas que absorviam e expeliam, num deglutir incessante e insaciável. Os limites lindeiros estendiam-se até as areias úmidas, de onde vinham, com bandeirolas multicores, arames enfileirados e esticados sobre as estacas. E, ao centro de todos esses preparativos, o grande mastro de aroeira, cortada no sítio de Geraldo Leite, erguia-se altaneiro e ostentava aos ventos do céu o caixilho forrado por dois panos estampados, com a efígie de São Pedro segurando nas mãos um livro e as chaves do Paraíso.

Ao crepúsculo, um estampido ecoou pelas planuras circunjacentes. O primeiro rojão queimado anunciava o começo da festa. Longe, outro foguete subiu; era de outra festa? Não: era o sinal convencionado entre os convidados que se aprestavam. E, assim, os ares se encheram de foguetes e, em proporção maior, a casa de Pedro Alcover, de amigos e de mocidade. Horas antes, fora ter ao Clube XV um recado de renovação de convite, partido do escritório do prestante tocaio e festeiro de São Pedro, e a essa ordem de "marchel", comandada pelo pianista amador Luís Carlos, moveu-se o velho grêmio da rua de Amador Bueno.

A sala da secretaria esvazia-se do Oscar Couto, do Emílio Adamczyk, do Reinaldo da Rocha Leite; do salão de bilhares desertam Quim-quim Brandão, Antenor da Rocha Leite, Redondo Malueiros, Tomas Moretz-Sohn, Afonsinho Veridiano, Quintino e Alcides Ferreira, Deodato Assis de Oliveira, Américo Ferreira, José Pinto Novais e João Coaves; das salas do voltarete e do ximbica, lá ao fundo, da do pôquer e do sete-e-meio, mais próximo, vem Augusto e Paulo Figueiras, Pio Coelho, Hermenegildo da Cunha Pinto, João Moreira Sampaio, Laércio e Lúcio Forcabides, Gracílio Silveira e Alcino Prost. Todos se aprontam, despindo cabides e bengaleiras e os mais velhos aboletam-se no carro de Gustavo Goetee, à porta; até na boléia subiram. Outros veículos passam, e deles se ouvem apelos femininos: "Redondo, um lugarzinho para você. Augustinho, sobe!" O restante do magote vai até a esquina da rua do Conselheiro Nebias, onde se detém, à espera do bonde. E, no bonde com a tabuleta Boqueirão, que logo aparece, parte para o fim da linha. Esta ficava no extremo da avenida, a esquina do caminho da Barra, hoje rua com placas de Epitácio Pessoa. O bonde penetrava numa estação mista com cocheira (era ainda do tempo do bondinho de burros) e deixava os passageiros numa plataforma cimentada, da qual se descia por degraus até o passeio. Este estendia-se até o Miramar. Por ali se encaminhou o bando farejador de uma noitada agradável, na festa da residência de Pedro Alcover. Ao avistar da praia, entra pela esquerda, deixando à direita o grande muro da chácara de Júlio Conceição. E pouco adiante, lá estavam as fogueiras começando a crepitar e vultos que se achegavam, para lançar batata-doce e cana-de-açúcar a assar, balões de papel, de várias formas e cores, enfunavam-se para subir, ao abanar de peneiras empunhadas por moças e rapazes. Lá foi um para o alto, e atrás dele um rojão de lágrimas — Viva São Pedro!

Estralejavam bombinhas, busca-pés, esfuziavam no jardim, entre a criançada. E, no interior da casa, gente em penca, vozes, exclamações e risadas cristalinas. O anfitrião não tinha mãos a medir. Aqui, num grupo em que Martim Francisco satirizava a política, ali noutro em que Almeida Moraes sentenciava em latim, acolá entre senhoras que preparavam um jogo de prendas, e, além, com rapazes que abriam o piano para as valsas, desdobrava o seu pequeno vulto simpático. Batia palmas, bandeja de queijadinha e broinhas circulavam; o quentão viria mais tarde. Divirtam-se, divirtam-se! — aconselhava. Mas o jogo de prendas já ia adiantado. O Carlos Marques Guimarães, trepado num mocho, careteava para outro, e este dizia, muito sério: "Meu senhor São Roque, aqui estou..." Não podia continuar, porque o Nene Maneiros deu-lhe um beliscão. Houve breve barafunda, Carlinhos deixou o poleiro e foi buscar uma mocinha para tocar violão e cantar. Alguns minutos depois, o violão gemia rotundo no silêncio da sala e a voz feminina fazia-se ouvir com aplausos. Diversas cantigas, foram ouvidas e risadas, agradando numa delas, particularmente a seguinte quadrinha:

Mandei fazer um barquinho
da casca do camarão
para levar o meu bem
de Santos a Cubatão.

Num grupo de senhores, em que estavam os juízes Luís Porto Moretz-Sohn de Castro e Primitivo Sene, Vicente de Carvalho conversavam calmamente, depois de ouvido o número de violão. Demoram-se algumas moças de pedir ao poeta que recitasse. Vicente, modestamente, excusa-se. Mas o doutor Luís observa que um pedido de moças, e moças bonitas, não se pode recusar. E Vicente concorda. Não posso deixar de dizer que foi este para mim, o melhor momento da festa.

E foi com um íntimo encanto que vi Vicente adiantar-se para o meio da sala e anunciar que ia dizer uns versos seus, recente composição. Mas — continuou — se as moças não concordassem com as conclusões do tema poético que iam ouvir, não culpassem a ele que fora obrigado a recitar, e sim a si mesmas, que o levaram a fazê-lo. E o grande Vicente de Carvalho põe-se a narrar-nos as primícias da sua poesia A invenção do diabo, que todos ouviram religiosamente:

Deus, entregando ao diabo a metade do mundo
Deu-lhe a parte pior, como era de razão;
E, para arrecadar seu patrimônio, o imundo
Foi forçado a varrer todo cisco do chão.

Os setenta e dois alexandrinos maravilhados, repartido em treze estrofes, foram declamados com perfeição e graça. E ao dizer o final, o fecho de ouro:

Lábios feitos de mel, de rosas ao sereno
De céu do amanhecer, franjando em rosicler...
Entreabriu-os satã; e, enchendo-os de veneno,
Sorriu. Tinha inventado o beijo da mulher!

Uma girândola de aplausos explodiu. Os velhos e as velhas presentes sorriam embevecidos com a idéia de haverem muitas vezes, na mocidade, saboreado o delicioso veneno da invenção do tinhoso.

E Luís Carlos, sentando-se ao piano, e, depois, Quim-quim Brandão e Antenor, tocaram sem parar seu repertório de valsas, mazurcas e polcas, para as moças e os rapazes dançarem até o amanhecer. Fora, de momento a momento, os foguetes e os balões continuavam riscando e ponteando a escuridão da noite. E as fogueiras, na praia, no auge da combustão, deitavam uma luz tamanha no céu, que dariam a impressão de um grande incêndio na terra, naquela noite de São Pedro!

(Bicudo, Daniel. "São Pedro no Boqueirão". A Tribuna. Santos, 29 de junho de 1955)
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