Jangada Brasil a cara e a alma brasileiras
Nesta seção, textos sobre receitas tradicionais; bebidas típicas; alimentos brasileiros; costumes à mesa; horta, pomar e criação; crenças, costumes e tabus relacionados à alimentação e alimentos...

Jantar e debulha de milho

(...)

Depois de romper aos trancos e barrancos através do lanacento vale, parei diante da casa a escorrer água como uma cachoeira. A própria dona apareceu na sacada e quis saber o que eu pretendia. Recorri apressadamente a todas as palavras em português que eu sabia e lhe fiz um discurso do alto do meu cavalo. Falei na tempestade, na chuva, na escuridão, no rancho em ruínas, e por fim pedi-lhe abrigo em sua casa. Ela olhou sucessivamente para o céu, para mim, para os morros e para o rancho, e percebi que tudo isso constituiu um poderoso auxílio à minha gaguejante eloqüência. Ela se apiedou do meu lastimável estado, inclinou a cabeça e fez sinal para que eu entrasse. Subi alguns degraus de pedra mas quando cheguei à sacada a dona tinha desaparecido e em seu lugar estava um negro, que me levou até um confortável quarto com uma confortável cama. Imediatamente, vários escravos vieram servir-me. Um tirou-me as roupas molhadas, outro trouxe toalhas e um terceiro uma grande gamela com água quente e cachaça, para o banho. Depois de ter mudado de roupa, fui agradecer à minha bondosa hospedeira. Ela recebeu meus agradecimentos com polidez e simplicidade e me perguntou que é que eu gostaria de comer e se queria comer logo ou mais tarde. Deixei a decisão ao seu critério, e ela se retirou.

Fiquei sabendo então que ela era viúva de um fazendeiro, dono de todas as terras ao redor. Ele havia morrido alguns anos antes, deixando-a com duas filhas pequenas e vinte e quatro escravos, sendo quatorze homens e dez mulheres. Os homens ficavam alojados em casebres, nas encostas dos morros, e as mulheres com ela, na casa. Com essa numerosa família de escravos, ela vivia sozinha nas montanhas com as filhas, sem a presença de uma única pessoa de sua raça por léguas ao redor. Não obstante, tal era a sua força moral que sua propriedade inteira funcionava com perfeita regularidade, sendo cultivados vários quilômetros quadrados de suas terras. Era uma senhora de pouco mais de trinta anos, bastante corpulenta, como a maioria das brasileiras nessa idade, com um rosto de traços aquilinos e nobres. Suas filhas eram criaturinhas encantadoras. Peguei as duas, uma em cada braço, e me pus a passear com elas na varanda enquanto esperava o jantar. Com seus rostos morenos encostados no meu ombro, elas mantinham fixos em mim os seus enormes olhos negros, sob a espessa cobertura de cabelos também negros; por muito tempo permaneceram assim, sem emitir um som, a não ser fundos suspiros. A dona da casa passava por nós de vez em quando e parecia agradecida pelo fato de um estranho estar dando atenção às suas filhas.

O jantar foi servido na varanda, e eu, como um personagem das mil e uma noites, fui servido por seis jovens escravas, todas vestidas de branco. Eu sentia frio, devido à inclemência do tempo, e desejei preparar um ponche para tomar; para isso pedi um pouco de água quente e cachaça. Num dos jarros que me trouxeram havia uma inscrição, e fiquei curioso para saber a que fantasias os brasileiros se deixavam levar nesse particular. Qual não foi a minha surpresa, porém, quando li em inglês: To all good fellows (A todos os bons sujeitos). O jarro era de cerâmica de Staffordshire, a qual, como várias outras manufaturas inglesas, podia ser encontrada em qualquer parte do país. Para a dona da casa, a inscrição era ininteligível. Percebi, entretanto, que as criadas me rodeavam esforçando-se por prender o riso. Em vista disso, imaginei que elas tivessem entendido o seu significado, mas o riso abafado tinha outro motivo e dizia respeito à cachaça contida no jarro. Deixei-as à vontade, e todas elas encheram uma tigela com a bebida e tomaram como se fosse água, embora ela fosse quase tãoforte e ardente como a aquafortis. A mais velha delas ainda não tinha quinze anos. O pendor dos negros pela aguardente é quase incontrolável. Eles começam a bebê-la tão logo tenham acesso a ela. Sempre que um deles me pedia um vintém, era para comprar cachaça. Aparentemente, o seu efeito sobre eles é muito menor do que sobre os brancos.

Ao lado da varanda havia um imenso celeiro. Por volta das nove da noite o seu interior se iluminou com uma enorme fogueira e vi que havia gente trabalhando ali. Curioso para saber o que faziam, fui lá ver. Estavam debulhando milho. Cortavam a cabeça das espigas e as colocavam sobre uma plataforma de taquara trançada, onde oito homens munidos de varas batiam nelas compassadamente. O milho saltava para o ar, batia numa parede forrada de esteira, tornava a cair e passava pelos interstícios da taquara, formando um monte embaixo. As espigas eram então atiradas nas chamas, alimentando a fogueira que tinha chamado minha atenção. Quando já havia sido debulhada uma quantidade de milho suficiente para toda a semana, eles acenderam uma grande fogueira defronte da porta do celeiro e, dando uma volta ao redor dela, em procissão, cada um recolheu uma brasa da fogueira e se retirou para o seu casebre. Não fiquei sabendo se isso era apenas um costume particular da fazenda ou se se tratava de algum ritual.

 

(Walsh, Robert. Notícias do Brasil; 1828-1829. Belo Horizonte, Editora Itatiaia; São Paulo, Editora da Universidade de São Paulo, 1985, v.2, p.126-128)
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