Jangada Brasil a cara e a alma brasileiras
Nesta seção, textos sobre receitas tradicionais; bebidas típicas; alimentos brasileiros; costumes à mesa; horta, pomar e criação; crenças, costumes e tabus relacionados à alimentação e alimentos...

O velho mercado, no Rio de Janeiro

João do Rio

Acabou de mudar-se ontem a praça do Mercado. Naquele abafado e sombrio dia de ontem era um correr de carregadores, carroças e carrinhos de mão pelos squares rentes ao Pharoux levando as mercadorias da velha praça abandonada para a nova instalação catita do largo do Moura e, ao passo que aí uma vida ainda desnorteada estridulava e enchia de ruído o silêncio do sinistro largo, na alegre e bonacheirona praça ia uma desolação de abandono, com as casas fechadas e o arrastar de utensílios para o meio das ruas sujas.

A mudança! Nada mais inquietante do que a mudança! — porque leva a gente amarrada essa esperança, essa tortura vaga que é a saudade. Aquela mudança era, entretanto, maior do que todas, era uma operação de cirugia urbana, era para modificar inteiramente o Rio de outrora, a mobilização do próprio estômago da cidade para outro local. Que nos resta mais do velho Rio antigo, tão curioso e tão característico? Uma cidade moderna é como todas as cidades modernas. O progresso, a higiene, o confortável nivelam almas, gostos, costumes, a civilização é a igualdade num certo poste, que de comum acordo se julga admirável e, assim como as damas ocidentais usam os mesmos chapéus, os mesmos tecidos, o mesmo andar, assim como dois homens bem vestidos hão de fatalmente ter o mesmo feitio da gola do casaco e do chapéu, todas as cidades modernas têm avenidas largas, squares, mercados e palácios de ferro, vidro e cerâmica. As cidades que não são civilizadas são exóticas, mas quão mais agradáveis. Não há avenidas, há outras coisas e quem vinha ao Rio gozava o interesse de uma cidade diferente das outras e tão curiosa no seu novo feitio, como é Toledo na sua maneira, como é o Porto, como o são algumas das cidades da Itália, onde ainda não entrou o progresso, que estende logo um cais, destrói vinte ruas e solta sobre as ruínas um automóvel.

O Rio, cidade nova — a única talvez no mundo — cheia de tradições, foi-se delas despojando com indiferença. De súbito, da noite para o dia, compreendeu que era preciso ser tal qual Buenos Aires, que é o esforço despedaçante de ser Paris, e ruíram casas e estalaram igrejas, e desapareceram ruas e até ao mar se puseram barreiras. Desses escombros surgiu a urbe conforme a civilização, como ao carioca bem carioca, surgiu da cabeça aos pés, o reflexo cinematográfico do homem das outras cidades. Foi como nas mágicas, quando há mutação para a apoteose. Vamos tomar café? Oh! filho, não é civilizado! Vamos antes ao chá! E tal qual o homem, a cidade desdobrou avenidas, adaptou nomes estrangeiros, comeu à francesa, viveu à francesa.

Só a praça do Mercado ainda resistia. A praça! Essa velha bonacheirona que era o ventre do Rio, levara a escolher o seu local muitos séculos. Em mil seiscentos e sessenta e tantos, a rua da Quitanda era da Quitanda Velha, porque lá se instalara a praça. Pouco depois, a rua da Alfândega era Quitanda do Marisco, porque lá a praça tentara o Mercado. E nos tempos do Brasil colônia, a praça, já se aproximando do seu lugar, ficava por trás da Câmara e incomodava nos seus palácios os vice-reis, porque desprendia muito mau-cheiro.

Só em 1836 é que ela se abeirou do cais Pharoux e lá fixou as primeiras estacas das primitivas cabanas. Não há um século ainda. Alguns homens que a viram começar ainda vivem. Mas esses setenta anos bastaram para fazê-la um símbolo, na sua força, na sua originalidade, no espírito de coesão, e na vida própria dos seus habitantes. O local fora durante muito tempo motivo de discussão de propriedade, mas a gente de lá sempre viveu como numa praça sua, no forte do estômago, organizando festas, batendo-se contra a polícia, incendiando-se, continuando.

Quem não sentiu a influência da praça, quem não palpou aquela pletora de vida? Na praça havia a abundância, a riqueza, a miséria e a vagabundagem. Ao lado de rapazolas que mourejavam desde pela madrugada entre montanhas de vegetais e ruínas sangrentas de carne, rastejando por entre as fortunas feitas às braçadas no desencaixotar das cebolas e dos alhos, viviam e morriam com fome garotos esquálidos, vagabundos estranhos, toda a vasa do crime, do horror e da prostituição, bem idêntica à vasa cheia de detritos da velha doca e da rampa. Noite e dia aquela gente, tinha um calão próprio e vivia separada da cidade, labutava e era uma sensação esquisita sentir-lhe os vários aspectos.

Oh! os aspectos da praça! Seria preciso pertencer a todas as classes sociais para apreendê-los e enfeixá-los. Às primeiras horas da noite, quando ainda há no céu alguma luz deixada pelo sol, as casas de pasto com a crua iluminação do gás, os botequins baratos, as casas de louças, as barracas de frutas e de aves, as bancas de peixe, suando, getsiculando, gritando. Na rampa desciam por pranchas tipos hercúleos carregando caixões, os caixões passavam para outras cabeças e havia, initerrupta, uma corrente viva de trabalho exaustivo, enquanto pelas bodegas comiam outros em mangas de camisa, mais calmos e já prósperos, ou de camisa de meia, suando e saudáveis, entre o farisaísmo dos ciganos à cata de coisas grátis e o bando de malandros parasitas, desde o garoto do recado ao mendigo falso.

Depois tudo era sombra, escuridão, obscuridade complacente e uma atmosfera feita de relentos de cozinha, do cheiro das aves, da maresia da vasa, dos animais, das couves em montanhas, toda uma orquestração impalpável de cheiros afrodisíacos, espalhando uma vaga, indizível luxúria. Homens que nunca sentiram o mal de viver, nem o mal moral da dúvida, nem a dor física, dormiam quase nus nos paralelepípedos, sobre as soleiras das portas, e não havia canto escuso em que não se encontrasse uma criatura a roncar — ou gente de labuta, ou gente parasita. Na sombra, indecisamente sombras delineavam-se e na atmosfera pesada de tantos cheiros um rumor sutil, feito de mil rumores de suspiros, de roncos, de pios, de grunhidos, excitava ainda mais.

À meia-noite, porém, começavam a chegar os vendedores, as carroças de verduras das hortas distantes e as faluas pesadas do outro lado da baía. Os proprietários, os compradores caminhavam sempre com um pauzinho na mão, à guisa de bengala; os outros, carroceiros, deixavam a carroça e recostavam a dormir mais um pouco. E o trabalho começava da descarga da quitanda, ligava-se das faluas para a rampa outra corrente humana, na alegria dos homens — Eh, José, eu já carreguei três! A apostar como eu levo mais! — Duvido! E em cada uma, enquanto o chefe dirigia a colocação por ordem, os cestos de tomates com os cestos de tomates, os molhos de salsas com os molhos de salsas, sempre havia o "espirituoso" encarregado de dizer graça, ou o pequeno vagabundo que às vezes trabalha mais que os outros para matar o tempo.

Ia a madrugada em fora, e à luz das estrelas ou sob a chuva a cena se repetia. A um certo momento, os vendedores de peixe e de ostras aquartelavam com as latas enferrujadas e os cestos, acendendo cotos de vela a iluminar em derredor. Defronte sempre abria uma casa de pasto. Era a hora em que bordejavam bêbados, à espera do bote, as blusas vermelhas dos fuzileiros navais, era a hora em que apareciam os seresteiros para tomar vinho branco e comer ostras, era a hora em que, à saída dos bailes carnavalescos, paravam tipóias transbordantes de mulheres alegres e de rapazes divertidos para o fim da orgia.

— Vamos comer ostras no Mercado?

Quem não teve esta pergunta lamentável uma vez na sua vida?

Quando, porém, os retardatários davam por si, já no céu se fizera a transfusão da luz e era a aurora que abria sobre o mar e sobre as coisas como uma grande casa, a renovação da vida. E tudo parecia acordar, fervilhar, brilhar; aves, animais, escamas de peixes, latas, pratos, homens, pássaros, numa grita infrene, que tinha da Arca de Noé e de uma aluvião de leilões. Apagando os mendigos, apagando os garotos, apagando o sono misterioso, entrava  agrande massa dos compradores, saíam as levas dos vendedores ambulantes, todos na grande agitação que dá a compra da vida, enquanto homens saudáveis brandiam machados em cepos sangrentos, montes de verduras desapareciam em cabazes, peixes rolavam, cães ladravam, aves cacarejavam e, doirando tudo, alindando tudo, o sol cobria a ruína sórdida das barracas, envolvia as faluas e a sujeira da doca, arrastava pelo mar a rede de lhama de oiro de sua luz.

E era assim até ao meio-dia em que sempre havia tempo para uma palestra e um descanso em todos os múltiplos ramos dessa babel do estômago.

Quantas vidas se passaram ali, sem outro desejo, naquela apoteose de abundância que fechava o apetite e devia dar saúde? Quantas lutas, quantas intriguinhas, quantas discussões, quantos combates, porque a gente da praça sempre foi valente? Quantos limitaram as festas aos coretos da Lapa, com ornamentações, leilões de prendas e outros brincos primitivos? Quantos tiveram aqueles quatro portões como os portões de uma cidadela que não se sentia?...

Com essas tristes reflexões deixei o novo Mercado pela velha e amada praça. Havia, como eu, muito cavalheiro a armazenar na retina pela última vez a topografia do Mercado. E o Mercado era desolador. O quadrilátero onde paravam as carroças de verdura estava deserto. A parte central, onde havia bancas de peixe, frutas, casas de cebolas e de louças também deserta e junto ao chafariz seco um soldado de ar triste. Pelas ruas estreitas, uma ou outra casa ainda aberta a carregar os utensílios para o novo edifício, onde ninguém dorme e às dez horas fecha. No mais, portas batidas, portões de grade mostrando a ruína vasta das paredes e o anseio interminável de mudança. Paramos enfim na rampa. Alguns homens conversavam em mangas de camisa. Para eles era impossível deixar de aproveitar a rampa. Mas a doca estava quase vazia. Só, amarrada a um dos grossos e gastos argolões de ferro, uma falua balouçava. Era a última. Dali a minutos ela partiria, deixando abandonada a velha bonacheirona antiga, cuja história já tinha de legenda. Era a derradeira. A atmosfera estava carregada. E, além da falua tão cansada e triste, arabescando o horizonte de treva, um bando de corvos em círculos concêntricos alastrava um pedaço do céu.

 

(Cinematógrafo; crônicas cariocas. Porto, Editores Livraria Chardron, Lello e Irmão, 1909)

 

(Em Cascudo, Luís da Câmara (org.). Antologia da alimentação no Brasil. Rio de Janeiro, Livros Científicos Técnicos, 1977, p.227-230)
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