Jangada Brasil, a cara e a alma brasileiras
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Junho 2005 - nº 79 - Ano VII


Sumário

Festança

Danças populares do Vale do Paraíba
Ruth Guimarães

São Pedro no Boqueirão
Daniel Bicudo

O São João da minha terra
Jorge Ramos

Cancioneiro

A revolta do Arari — União da Liberdade

Fragmentos do ABC de Ana Freire de Brito

Ligeira de Severino Perigo

Imaginário

História de um pintinho
Figueiredo Pimentel

Aventuras de um jabuti
Figueiredo Pimentel

Histórias de onças
Gustavo Barroso

Colher de Pau

O velho mercado, no Rio de Janeiro
João do Rio

Jantar e debulha de milho
Robert Walsh

Alguns quitutes e bebidas das festas juninas
Jamile Japur

Oficina

Índios inspiram baianos nas cerâmicas de Maragojipinho

Dona Sebastiana é caiçara de muita arte

Aparece nova indústria artesanal em São Paulo: a de bonecas artísticas

Palhoça

Formalidades
Júlia Lopes de Almeida

Tamancos que não mais se vêem...
Flávio Guerra

Folclore das profissões
João Chiarini

Panacéia

Ladainha de São João no Guaçuí
Renato Pacheco

Amor e sonho no São João
Veríssimo de Melo

Pão dos pobres e lírios de Santo Antônio

Veja o que foi publicado em cancioneiro
Apoio Cultural
Simplicitate Design

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Cancioneiro
Textos sobre música regional; literatura de cordel; cantos de trabalho; poesia popular; desafios; romances; cantos religiosos; quadras, pasquins...

Fragmentos do ABC de Ana Freire de Brito

Vila do Príncipe, Rio Grande do Norte

A minha sina me deu
Para no mundo não ter sorte
Pois aflita acabei
De uma tirana morte

Bem cuidosa e pensativa
Vivia sem alegria
Não tinha gosto comigo
Nem de noite, nem de dia

Casei-me de terna idade
Como vivia não sei
Um dia alegre, outro triste
Assim passava e findei

Deixo perdão a todos
Para poder alcançar
Perdão de um Deus soberano
O qual nos há de julgar

Eu conheço meu Jesus
Por ser reto executor
Mas peço que perdoeis
Ao meu cruel agressor

Fiquei de exemplo no mundo
Deus queira que se encerre em mim
Reinará sempre a paz
Até que o mundo dê fim

Grandes tormentos passei
Sufocada, sem abrigo
Com uma toalha no pescoço
Mandada por meu marido

Hum vexame como o meu
Deus livre a todos de ter
De se ver tão atormentada
Sem ter de quem se valer

I...

Já queria que no mundo
Deus me desse uma boa hora
Para poder alcançar
No outro a plena glória

K...

Longe de mim habitavam
Os meus amados paizinhos
Os meus gemidos ouviram
Os meus pequenos filhinhos

Minha sogra tão querida
Muito há de lastimar
De ver seu filho em trabalhos
Sem remédio poder dar

Não se há de queixar de mim
Pois que sempre o amei
Na cegueira em que ele andava
Muitos conselhos lhe dei

Ó mundo enganador!
Ó parca tirana ímpia!
Contra mim o meu marido
Com tão cruel tirania!

Pensando ele, coitado
Muito se arrependerá
Pobre como o rei Davi
Os males me fez causar

Quanto melhor seria
Ter brando o seu coração
Para agora não se ver
Oprimido na prisão

Reverendo senhor Tio
Francisco de Brito Guerra
Olhe para os meus filhinhos
Que ficam sem mãe na terra

Sejam fiéis, sejam brandos
Tenham muita piedade
Cravem em seus corações
A doutrina e caridade

Todos que forem casados
Estimem as suas mulheres
Não usem de ser tiranos
Nem para elas cruéis

U...

Vão vendo velhos e moços
O mundo que tem para dar
Não cuidem nas vaidades
Que não nos há de ajudar

Xore por sua desgraça
...

Y...

Zuou e serviu de espanto
A todo o fiel vivente
Este caso acontecido
No meio dos meus parentes

Til faz aumentação
A esta pobre criatura
Na vila do Caicó
Foi a minha sepultura

(Em Cascudo, Luís da Câmara. Flor de romances trágicos. Rio de Janeiro, Livraria Editora Cátedra / Natal, Fundação José Augusto,  1982, p.173-176)
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