Jangada Brasil a cara e a alma brasileiras
Nesta seção, textos sobre música regional; literatura de cordel; cantos de trabalho; poesia popular; desafios; romances; cantos religiosos; quadras, pasquins...

A revolta do Arari — União da Liberdade

Relato do movimento havido no município de Maués, estado do Amazonas, em que o povo defendeu suas terras e bens com as armas na mão.

Carvalho mais o Campelo
Vieram do alto corridos
Tendo chegado em Maués
Se quedaram escondidos
O povo todo sabia
Que eram homens foragidos

O governador, cunhado
De um deles, foi protetor
Mandando-os para Maués
Onde, com o seu valor
Fez de superintendente
E do outro fez coletor

Ficaram aí esses homens
Como mandões absolutos
Levando tudo a chicote
Colhendo da terra os frutos
E sem nada recearem
Enchiam lares de lutos

Vieram para o Arari
Suas casas comerciais
Abriram, muito sortidas
Requerendo castanhais
Botando os donos no mato
E capangas de fiscais

Começaram maltratando
O povo, que os suportou
Com calma, mas foi forçado
A arcar e em armas pegou
Para repelir os homens
Que o governo lhe mandou

O Judeu, o Pachará
Foi, também, grande influente
Porque era um dos chaleiras
Desse superintendente
A quem estava empregado
De comandante, recente

Se apossaram de Maués
Com toda a sua função
Tinham juiz de direito
Cartório e tabelião
Tinham a coletoria...
Foi bem feita a arrumação

Se fosse outro que fizesse
Tinha sido processado
Mas foi Carvalho & Campelo
Nada, nada é reprovado...
Têm o apoio do governo
O jeito é ficar calado

Veio o dia três de abril
A revolta se desloca
João de Barros é atacado
Pelo Juruá e o Doca
Como era já de costume
Sem ter motivo provoca

Sendo, então, chamado o Barros
No Curuçá, afinal
Eles quiseram matá-lo
O Doca e seu pessoal
João de Barros se livrou
Juruá morreu, pra seu mal

João de Barros logo veio
Avisando aos companheiros
Reunindo os voluntários
Para fazer tiroteio...
E no outro dia seguinte
Ficou o negócio feio

A cinco, de madrugada
Foi Raimundinho agarrado
Por gente do Paraná
A Ceoca foi tomada
Tudo que lá se continha
Por eles foi respeitada

E foi nessa mesma noite
O primeiro bombardeio
No barracão Taperi
Como estava tudo alheio
E não houve resitência
Acabou-se o tiroteio

Lauleta tratou da vida
Esperando a salvação
Com todos os companheiros...
E deixou o barracão
Julgando que se salvava
Foi a sua perdição

Ele foi com intenção
De não voltar mais aqui
O mal que a si mesmo fez
Foi levar o Cariri
Sabendo que era mal visto
Do pessoal do Arari

Em abril, no dia seis
Se reuniram os valentes
Na casa de João dos Anjos
Uns cinqüenta combatentes
E expulsaram do Arari
Aqueles dois indecentes

Nessa mesmíssima data
Pelas dez horas do dia
Foi capturado o Lauleta
Que de canoa fugia...
E o célebre Cariri
Com carabina, tremia

O pessoal bem chamava
Para evitar violência
O Cariri, de perverso
Não rendia obediência
Ficaram aborrecidos
Faltando-lhes a paciência

Cariri, logo atirou
Sendo ele grande bandido
A nossa força reagiu,
Sendo Lauleta ferido
Mas tendo essa mesma bala
Ao companheiro atingido

O resto pulou em terra
Todos já espavoridos
De medo das nossas balas
E sem serem perseguidos
Andaram dias no mato
Julgando estarem perdidos

Os revoltosos desceram
Lá por dentro do Ariri
Pra meia-noite chegaram
No barracão Tapiri
Mas foi medonha essa cena
Que se passou por ali

O Palmeira entrincheirado
Atirava de folia
Querendo matar a todos
Que vinham na montaria...
Só por milagre de Deus
A bala não atingia

Cariri, após, foi preso
Sem fazer menor ação
E logo foi conduzido
Ao chefe da rebelião...
E depois foi condenado
Pelo povo da "União"

Na "União" já se contavam
Duzentos homens armados
E todos com provisões
E muito bem municiados
Prontos para resistirem
Ao avanço dos soldados

Desceram ao Bom Futuro
Pra afzerem as trincheiras
A melhor se aprecatarem
E não fazerem asneiras
Formaram o seu quartel
Organizando as fileiras

O Bom Futuro era o ponto
Onde tinham de esperar
Os soldados que o governo
Tivesse de lhes mandar
Todos já bem prevenidos
Para os poder enfrentar

Depois foram a Maués
Libertar os prisioneiros
Levaram uma missiva
Ao chefe e aos seus companheiros...
Foram todos logo soltos
E livres dos carcereiros

Campelo pediu auxílio
Ao governador cunhado
E ele mandou pra isca
Uma tropa de soldado
Sendo o negro Severino
O comandante comprado

Esse negro Severino
Negro muito audacioso
Se ofereceu voluntário
Julgando-se vitorioso
Sem ver em que se metia
Se em roda ou fuso danoso

Como é muito traiçoeiro
Perverso, poltrão, malvado
Julgou que aqui fazia
Como está acostumado...
Chegou com a pabulagem
E saiu envergonhado

Disse em Itaquatiara
Que seríamos agarrados
Pra tal trazia cipó
Para sermos amarrados...
Agarrou foi muita bala
Prejudicando aos soldados

Esse negro Severino
Não gostou de vir aqui
Veio com muita vontade
De chegar ao Tapiri
Mas encontrou resistência
Do pessoal do Arari

Campelo se viu perdido
Foi carpir a seu cunhado
Pregando grandes mentiras
Que estava saqueado
O governo incontinenti
Repeteu-lhe braço armado

Severino ofereceu-se
Pra trazer tudo amarrado
Esse plano foi bem feito
Mas ele foi enganado
Pois os caboclos d'agora
Não têm medo de soldado

Sexta-feira da Paixão
Dia de muito respeito
Hasteou bandeira de paz
Procurando desse jeito
Atraiçoar os caboclos...
Foi um serviço imperfeito

O negro se ofereceu
(O oferecido não presta)
E marchou com pabulagem
Mas foi pra servir de festa
Pois pra ele tudo foi
De conseqüência funesta

Chegou com tamanha fúria
Fazendo a corneta zoar
Acorando a prontidade
Do pessoal que ia brigar...
Todos nós entrincheirados
Deixamos ele atirar

Mas, quando foi no outro dia
E depois que amanheceu
Nem mais corneta tocou...
Não se sabe o que se deu
A corneta caiu n'água?
O corneteiro morreu?

Severino atirou muito
Carvalho também vadiava
Gastaram mais de mil balas
Na Ceoca se guardava
E com quatro horas de fogo
De raiva se lastimava

De tanta raiva que teve
Arrancou todo o cabelo
Severino já perdido
Chamava pelo Campelo
Implorou que lhe valessem
E de ninguém teve apelo

Os caboclos destrataram
Gritando e fazendo pouco
Com três descargas que deram
Ele correu como um louco
Quase abandonando a tropa
Já de susto quase mouco

Dos caboclos destemidos
Éramos um grupo esperto
Que a vencer os Asas Negras
Tinha isso como certo...
O moleque foi pra longe
Nunca mais veio de perto

Ah! Severino gabola
Fizeste fita a mentir
Gritavas lá bem de longe
Fazendo a telha cair
Descobriram toda a casa
Como um forte a resistir

Durou tanto o tiroteio
Que os fumos ao sol cobriram
Tantos, tantos tiros davam
Que as armas explodiram...
Os caboclos por caçoada
Do fosso nem se mexiam

Nós fizemos a revolta
Não foi pra matar ninguém
Foi pra depor o Campelo
E seu Carvalho também
E libertar castanhais
De onde se tira o vintém

Os caboclos da revolta
São filhos dos paranás
Do Pará e do Amazonas
Não abandonam jamais
Porque têm a honra e têm brio
Essas terras de seus pais

Lutamos c'os Asas Negras
Sem termos muito trabalho
O fugitivo Campelo
O fugitivo Carvalho
Vieram por caminhos longos
E voltaram pelo atalho

É vergonhoso dizer-se
Que os caboclos perseguidos
Fizeram recuar soldados
Que chegaram aguerridos
Nós fomos vitoriosos
E eles foram vencidos

Passaram dores atrozes
E todos envergonhados
Depois viram-se obrigados
A renunciarem os cargos
E a saírem de Maués
Sem que pusessem embargos

O Campelo mais Carvalho
São aves de arribação
Tateiam arriba e abaixo
Sem que achem habitação
São facínoras completos
São ladrões de profissão

Foram ao Baixo-Amazonas
Já todos feitos os planos
De procurar todo o jeito
De enganar italianos
Prometendo castanhais
Para trabalharem anos

Esse negro Severino
Logrou a capitania
Para querer se mostrar
Aos navios impedia
De fazer suas escalas
Dentro desta freguesia

Alfredo Castro era sempre
Também um prejudicado
Tendo deles a promessa
De então lhe ser embargado
Seu vapor de entrar aqui
Senão teria multado

Pediu canhões ao governo
Pra meter vapor ao fundo
E a ninguém pediu segredo
Propalando a todo mundo...
Alfredo Castro sabia
Das pretensões desse imundo

O gosto do Severino
Era ver-nos destroçados
E mortos; prende o Peixoto
Por trazer agasalhados
O pessoal que massacrava
Esse bando de malvados

Maltrataram e espancaram
Fizeram até carniças
Fizeram nossas famílias
Passar por mil injustiças
Escarneceram mulheres
Mantendo outras cobiças

Severino tem coragem
Só quando acha outro amarrado
Faz tudo quanto é injustiça
Mata caboclo esfolado...
Isso não é ser valente
Eu acho que é ser malvado

Ah! negro sujo, moleque
se chegas a ser pegado!
Tinhas banho de pimenta
Depois seria surrado
Com o cipó que trouxeste
Terias sido amarrado

O cipó que ele trouxe
Foi Oscar Ramos quem deu
Julgando que éramos Cristo
Que sexta-feira morreu
Ele fez a mesma parte
Como se fosse um judeu

Oscar não se persuada
De que tudo está acabado
O mal que ele nos tem feito
Há de um dia ser vingado...
Ande com o prumo na mão
Português famigerado!

Do Campelo e do Carvalho
Oscar foi um protegido
Agora ficou calado
Porque viu tudo perdido...
Três víboras peçonhentas
Nesse covil de bandido

Severino protestou
De aqui não botar os pés
Ia ver se recebia
Os seus dez contos de réis
Que Campelo prometeu
Para pagar em Maués

Esse negro sem caráter
Miserável bandoleiro
Troca sua própria vida
Por um pouco de dinheiro
Vindo fazer monopólio
Com sangue do povo ordeiro

Tínhamos como um capricho
Não ver Campelo vencer
As trincheiras bem seguras
Para a bala não romper
Só o Senhor Jesus Cristo
Como seu divino poder

Fome ninguém padecia
Muito gado pra comer
Provisões de toda parte
Que vinham oferecer
Guardávamos munição
Pra todo um mês combater

O Campelo foi mentir,
Chamando-nos saqueadores...
Foi coisa que não se deu
Dizem isso os impostores
Ao contrário, os comerciantes
Deram palmas de louvores

Soubemos de Itaquatiara
Que já vinha outra escolta
Mandamos fazer trincheiras
Da Tapaiúna na volta
Pra quem viesse daí
Jamais vencesse a revolta

Havia tantas mentiras
Tudo feito pelos Gatos
Que as suas próprias famílias
Tinham medo como ratos
Ficando de tal maneira
Que se foram pelos matos

Porém, só fizeram isso
Por ser gente do Carvalho
E se quiserem morar
Peçam-lhe o seu agasalho
Se voltarem ao Jari
Haverá outro escangalho

Raimundo Flor se prestou
Pra ser polícia espião
Mas nada vinha a saber
Do povo dessa União
Ainda que ele tivesse
Tido toda a precaução

Aqui chegou, trouxe ordem
Para vir nos espiar
Mas creio que era só fita
Para poder negociar
E quando ele ia daqui
Mentiras ia levar

Raimundo Martins, Lauleta
Trabalharam para o bispo
Escaparam de morrer
Por um milagre de Cristo
Ali perderam seu tempo
Sem pagamento ter visto

Inda foram mui felizes
Caindo na nossa mão
Pois somos humanitários
E temos bom coração
Se fosse nas mãos dos índios
Nãolhes dariam perdão

Soubemos de Itaquatiara
Que estava prendendo gente
Tudo feito pelos Gatos
Por conta e ordem dum tenente
Nós não tínhamos amigo
Que saltasse a nossa frente

Saltou o padre Pereira
Por ser homem de bênção
Indo pedir ao governo
Por nós uma intervenção
Veio, então, um emissário
Acabar com a questão

Chegou o nosso emissário
Com toda precatação
Fez todos os seus inquéritos
Ele mais seu escrivão
E depois deu liberdade
Ao povo dessa União

Veio o major Campos Júnior
Com muita prudência e calma
Homem muito delicado
Tem sentimento na alma
Trazendo anistia ao povo
E todos bateram palma

Depois foi a Parintins
Fazer comunicação
Foi saber do seu governo
Qual a sua opinião
Por fim voltou entre nós
Nos trazendo a decisão

Segunda vez que chegou
Trouxe uma proclamação
Distribuiu aos revoltosos
Para a sua salvação
Servindo de documento
Para o povo da União

Estando relacionado
Nos falou de viva voz
Nos dando toda a certeza
De nada haver contra nós
por fim abraçou a todos
Voltou, deixando-nos sós

Quando daqui despediu-se
Depois de calmo o barulho
Os dois, Campelo e Carvalho
Ele os conduziu no embrulho
E até o negro Severino
Que estava bancando entulho

Negro no meio de branco
Não deve ter distinção
Todo negro quer ser gente
Enquanto tem posição
Negro não tem cabimento
Lugar de negro é fogão

Aqui fica registrado
Em versos esta canção
Para servir de lembrança
A toda a população
Todas as vezes que lerem
O ardor da Revolução...
E quem escreveu oferece
Ao pessoal da União

Conclusão

No começo dessa luta
Do povo contra a opressão
O clamor se sentiu longe
Mas não teve eco, não
Pois os jornais de Manaus
De nada disseram então

Mas havia um jornalista
Que logo nos defendeu
E que não tendo jornal
Para Belém escreveu
E foi a Folha do Norte
Que muito bem o acolheu

Dias depois esse moço
Que é um moço de bem
Foi agredido em Manaus
E embarcou-se pra Belém
E naquela mesma Folha
Sustentou fogo também

Foi dr. Paulo Eleutério
Jornalista de valor
Quem ali nos defendeu
Com sua pena e vigor
E quanto mais combatido
Lutava, com mais ardor

Campelo já está bem longe
De Maués, graças a Deus
E têm de se ir embora
Todos os maus e os judeus
Pois o Amazonas é livre
E não dos tiranos seus

Nós todos nascemos livres
E livres queremos ser
Pois em terra de cativos
Jamais se pode viver
E se pegamos em armas
Foi para melhor vencer

Quem quiser saber melhor
A história que fica aqui
Não tem como esmiuçar
Desde o Acre ao Piauí
Da União e Liberdade
Na revolta do Arari

 

(O cordel; testemunha da história do Brasil. Rio de Janeiro, Fundação Casa de Rui Barbosa, 1987. Literatura popular em verso, antologia, nova série, 2, p.141-157)
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