Paulo Amador
No interior são os footings, palavra de origem inglesa que traduzidas quer dizer simplesmente a velha história do "bater pernas". Em algumas cidades são as "capistranas", "pontos-chic", ou simplesmente o "passeio público"; nas praias são os garotões queimados, filhinhos de papai ou mesmo filhos de muitos irmãos, de família de classe média, que passam o dia inteiro simplesmente sem fazer nada.
Em todo canto eles estão soltando piadinhas mais infames do mundo, dizendo que "esta é a garota que mamãe pediu para nora"; ou "você não disse que boneca não andava". Alguns são espirituosos; outros fazem as garotinhas tremerem de medo, e passam à categoria dos "tarados", doidos ou desabusados. Mas, todos eles têm uma coisa em comum: o problema é mulher, bonita ou feia, brotinho ou coroa. Eles não perdoam ninguém, pois são os "famigerados paqueras de muitas procedências e com um fim único: jogar piadinhas nas calçadas de movimento".
Bonitões dourados
Antigamente os "paqueras" eram chamados "súcia, malandros, caterva", e uma série de adjetivos poucos elegantes que você pode encontrar em livros de cidades, como As memórias de um sargento de milícias, crônica da cidade antiga de São Sebastião do Rio de Janeiro, escrito por Manuel Antônio de Almeida. Entre os livros de mais de um século, e os tipos atuais da literatura de um Nelson Rodrigues, a variação foi quase que só de tempo: os paqueras são os mesmos. Mudaram os adjetivos, só eles é que não mudaram.
Aliás, a história dos paqueras é mais antiga que a humanidade. Eles surgiram com o princípio do mundo, e tomaram o mundo de assalto, com suas piadinhas que continuam até hoje, resistindo a tudo. Os "paqueras" já foram chamados em colunas sociais de "jeneusse dorée", mocidade dourada. Hoje, o paquera foi consagrado com um novo adjetivo: "bicão", tipicamente "Beto Rockfeller".
Belas piadas
O mais interessante nos "paqueras" é a falta de imaginação. As piadas passam de pais para filhos, e hoje você vê em frente à Sloper, um garotão dizer para a menina que passa: "Você, boneca, entrou de sola no meu coração". "vê se olha para mim ao menos para xingar", e outras bobagens.
O pior dos "paqueras" é quando eles se metem a inteligentes, e passam a uma segunda categoria, ainda mais abominável, a dos chamados "intelectualóides". O "paquera" geralmente tem de 13 a 18 anos: a idade física nem sempre é a mesma. A idade mental não varia: são garotões crescidos, nunca mais de 13 mentalmente. Quando os "paqueras" aprendem que nem só de "viver batendo na cara de quem passa" é feita a vida, passam diante de uma porta de livraria, perguntam por um livro de "Jean Paul Sartre", decoram frase de Ezra Pound, aprendem de cor alguns versos de Baudelaire, o poeta homossexual, e formam os grupinhos onde predomina a subliteratura, e vão para os inferninhos. Os paqueras são garotões sadios, que gostam mais da luz do sol; os intelectualóides, a evolução natural dos paqueras, já preferem mais a luz das boites e dos inferninhos do Maletta.
Um paquera típico
Só andam aos grupos, até quando ouvem falar de psicólogos que afirmam: o homem que anda em grupos não é livre e não tem personalidade. Porque, aliás, o mais importante para o "paquera" em vias de mudança para categoria superior de intelectualóide é não viver mais em grupos. Um paquera geralmente se veste de calça Lee, tem os cabelos compridos, anda meio sujo de "forçado que é a ficar na onda", e usa sapatos sem meia. As calças sempre desbotadas.
Quando os paqueras já estão passando da idade, aprendem que "andar imitando os americanos é feio, o bonito é seguir a moda de Paris: os olhos têm de ser tristes, as roupas mais desalinhadas, e se possível o paquera transformado em intelectualóide já não pode mais ser o rapagão pesado, corpo de atleta, mas uma imitação do que eles julgam ser o parisiente: um sujeito fraco, nariz adunco, olhos e cabelos pretos e roupas muito grandes.
Um detalhe: o paquera joga mil piadas por semana, e não pega ninguém.