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Jangada Brasil - a cara e a alma brasileiras

Panacéia

ANO VI - EDIÇÃO 67
Junho 2004

Panacéia
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São João reacende a velha chama, por Maria Clotilde Hasselman

Santo Antônio, por Amadeu Amaral

Noivas, noivos e sogras na crendide popular
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Capa
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Festança
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Cancioneiro
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Imaginário
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Oficina
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Palhoça
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Colher de Pau
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Catavento
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PANACÉIA - Nesta seção, textos sobre plantas medicinais; rezas; benzeduras; simpatias; crenças; superstições; amuletos; orações; devoções; magia e feitiçaria...


Santo Antônio

Amadeu Amaral

Tratando-se de tradições populares do Brasil e de Portugal, acerca de Santo Antônio, não seria de rigor entrar pelo capítulo relativo às virtudes guerreiras do taumaturgo, pois esse já não é do domínio propriamente popular, tem sido escrito por gente de esfera elevada, príncipes, eclesiásticos e militares.

Contudo, esse capítulo se liga por mais de um ponto à parte caracteristicamente folclórica. O fundo psicológico dos fatos é o mesmo, e até, justamente por se tratar de indivíduos de alta classe, oferecem alguns deles curioso exemplo de persistência de fenômenos da mentalidade primitiva em meios onde se poderia supor uma consciência religiosa mais apurada.

Salvo engano, a mais antiga manifestação do culto guerreiro a Santo Antônio, de que há memória no Brasil, foi em 1638, quando da agressão à Bahia pelos holandeses. Estes, apesar de grande superioridade em número e armas, foram rechaçados e fugiram em desordem: milagre de Deus e de Santo Antônio, disse-o e provou-o com abundância o padre Vieira em sermão pregado na igreja desse orago, na mesma Bahia.

Mas em todo este sermão, não atribui o pregador nenhuma particular virtude guerreira ao nosso santo; nem acho referência a tal coisa nos outros que ele proferiu na Europa e no Maranhão em louvor do famoso franciscano. O milagre da vitória foi operado pelo taumaturgo, não por lhe serem afetos os negócios de guerra, mas porque ele tudo podia, em qualquer gênero de prodígios.

Conhecido como é o sistema de Vieira, que nada desprezava ou esquecia, quando tratava de reunir elementos com que reforçasse as suas teses e demonstrações, ou com que esmaltasse o discurso de pitoresco e de graça, não parece crível que se a fama guerreira do santo já soasse vulgarmente por aquele tempo, ele deixasse de aproveitar e valorizar tão rico tema. De coisas menores ele se utilizou mais de uma vez, e falando a respeito do mesmo santo.

No final do sermão da Bahia, Vieira exortava o milagroso protetor a repetir em Pernambuco o milagre do seu auxílio aos portugueses e brasileiros. Seria então a melhor oportunidade para se referir à advocacia belicosa do santo; mas apenas aludiu mais uma vez à sua qualidade de deparador de coisas perdidas:

"Lembrai-vos glorioso santo, dos muitos templos e altares em que creis venerado e servido naquelas cidades, naquelas vilas e em qualquer povoação por pequena que fosse; e que nos campos e montes onde não havia casa, só vós a tínheis. Lembrai-vos dos empenhos e grandiosos feitos com que era celebrado o vosso dia, e sobretudo da devoção e confiança com que a vós recorriam todos em suas perdas particulares e do prontíssimo favor e remédio com que acudieis a todos. O mesmo sois e não menos poderoso para o muito que para o pouco. Apertai com esse Senhor que tendes nos braços e apertai-o de maneira que, assim como nos concedeu esta vitória, nos conceda a última e total dos nossos inimigos".

O silêncio de Vieira acerca do ponto parece constituir prova de que a devoção guerreira de Santo Antônio, se já então existia, não era geral, e podia ser ignorada mesmo de homens lidos e curiosos, como o grande pregador.

Entretanto, conta Jaboatão que, pouco depois, durante a campanha libertadora contra o holandês, João Fernandes Vieira recebeu positivos auxílios do santo, de que era devoto.

Parece que desde então a sua marcialidade ficou consagrada.

Em setembro de 1685, era inscrito nos assentamentos de uma das expedições contra o quilombo de Palmares (sempre o negro fugido!) como simples praça do exército, com soldo pago pelo Senado da Câmara de Olinda (Pereira da Costa, Folclore pernambucano).

A devoção deste santo estava, de fato, como disse Vieira, muito radicada em terras pernambucanas. Tinham-no mesmo por padroeiro da capitania, senão em virtude de lei, ao menos por tácito acordo da população. Houve até uma câmara, a de Iguaraçu, que o colocou entre os seus vereadores, pagando-lhe os 27$ aniaos que todos os outros percebiam. As câmaras de Olinda e Recife durante muitos anos celebraram a sua festa, oficialmente, com grande pompa.

Em 1716, o governador dom Lourenço de Almeida dirigiu uma carta ao rei, comunicando-lhe que, em revista passada à infantaria, lhe fora apresentada uma petição de Santo Antônio, que, tendo prestado grandes serviços, só percebia soldo de praça, pelo que o promovera a tenente da fortaleza de Santo Antônio dos Coqueiros, com 2$700 de soldo por mês. Este ato foi aprovado pelo Conselho Ultramarino em agosto de 1717.

Um século depois, encontramos o santo no posto de alferes, provavelmente em outra guarnição. Pediram então os franciscanos de Recife que fosse promovido a sargento-mor. O governador Luís do Rego Barros não concordou e fez acompanhar o requerimento de uma informação tipo pão-pão, queijo-queijo.

O que os franciscanos queriam (dizia Rego Barros) era uma esmola "a título de postos conferidos a Santo Antônio". Ora, este era um "oficial que nunca morre", e assim havia de chegar necessariamente ao "soldo de marechal do exército e do que mais pudessem inventar, e então seriam os frades sustentados a custa da real fazenda, — o que não me parece preciso", rematava o franco e poupado governador.

A petição foi indeferida.

Em 1710, é no Rio de Janeiro que o santo entra para a milícia. Quando Duclerc tentava apoderar-se da cidade, o governador Castro Morais apelou para o tradicional protetor da nação portuguesa, conferindo-lhe o grau de capitão.

Em Portugal, há quem atribua o início desta devoção a dom Afonso VI, outros a dom Pedro II.

É verdade que já em tempo do primeiro gozava o santo da fama de ser protetor das ações guerreiras dos portugueses, como se vê destes versos da Alfonseida de frei Jerônimo Vaia:

Fará coisas nunca ouvidas
Em favor dos lusitanos
Não sendo dos castelhanos
Com ser de coisas perdidas
Tingirá, cortando vidas
De vermelho o burel pardo
E com ímpeto galhardo
Triunfando em todo o risco
Posto que é frade franciscano
Brigará como um bernardo

Parece, porém, que o primeiro documento certo da militarização do santo data da regência do príncipe dom Pedro, que, depois de o ter feito alistar como soldado raso no regimento de infantaria de Lagos, o promoveu, em 1683, quando subiu ao trono.

Era obrigatório a cada recruta dar um fiador, e Santo Antônio "deu" como tal a "Rainha dos Anjos", a qual "se tornou responsável em como não havia de desertar". É o que consta de uma certidão passada em 1777 pelo major do citado regimento [1], dom Hércules Antônio Carlos Luís José Maria de Albuquerque e Araújo de Magalhães Homem.

Acrescenta a certidão que o santo se portou sempre muito corretamente sob as armas.

"Outrossim, certifico que em todos os papéis e registros acima mencionados não existe nota alguma acerca de Santo Antônio, nem de mau comportamento, nem de irregularidade por ele praticada, nem de ter sido em tempo algum açoitado, preso, ou de qualquer modo punido durante o tempo que serviu como soldado raso no regimento. Que durante todo o tempo em que tem sido capitão, vai quase para cem anos, constantemente cumpriu seus deveres, com o maior prazer, à frente da sua companhia, em todas as ocasiões, quer na paz, quer na guerra, e de modo tal que tem sido visto por seus soldados vezes sem número, como eles todos estão prontos para testemunharem; e em tudo o mais se tem comportado sempre como fidalgo e oficial; e por todos estes motivos acima mencionados considero-o como muito digno e merecedor do posto de major agregado ao nosso regimento, e de quaisquer outras honras, graças ou favores que aprouver a S. M. conferir-lhe".

Durante as lutas com os espanhóis dirigidos por Berwick, consta que o taumaturgo passou rapidamente por todos os postos, até o de generalíssimo, onde permaneceu. E consta ainda que, na batalha so Sabugal, tiveram os portugueses e atrás deles, os aliados, um momento de grande terror, pânico e de recuo precipitado, porque uma bala inimiga desrespeitosamente, carregara com o generalíssimo de cima do andor.

Dom João VI, quando no Rio de Janeiro, ordenou que fosse o santo promovido ao posto de tenente-coronel. Vê-se mais uma vez que a ordem das graduações não era observada com rigor quando se tratava de tão abnegado oficial. Promoviam-no com solenidade a postos inferiores aos que ele já desfrutava.

Justificou o monarca o seu ato, na carta-patente então expedida, com a eficaz intercessão do santo em favor dos exércitos do reino e com a "paz que se dignou conceder à monarquia portuguesa". Foi isto em 1814.

O mesmo rei premiou depois o celestial tenente-coronel com o grande cordão da Ordem de Cristo.

O império conservou-lhe fielmente o posto e a condecoração. Ainda em outubro de 1887, o Jornal do Commercio publicava uma pequena notícia, na qual se dizia que a caixa de pagamento das tropas da capital havia entregue ao provincial da Ordem de Santo Antônio a quantia de 240$000, de soldo correspondente ao trimestre decorrido de julho a setembro, "ao qual tem direito o tenente-coronel honorário do exército, o glorioso Santo Antônio". (Santana Néri, Folklore brésilien).

A república reformou compulsoriamente o augusto miliciano, sem lhe reconhecer direitos. Com o que o santo não se deve ter amofinado muito.

A carreira não era, sem dúvida, do seu agrado. Ele sempre gostou que gostava mais de dar e conservar a vida e de vencer a morte do que de derramar sangue e massacrar pobres criaturas de Deus. Foi con certeza contra sua vontade que tardiamente substituiu o façanhudo São Jorge, que desde o século XIV era reconhecido em Portugal como legítimo senhor de tal prebenda, ocupando o posto de marechal de campo.

Enfim, — e mais uma vez, — o que se sabe do folclore antonino, em toda a parte, é bem pouco em comparação com as grandes correntes de crenças, de superstições, de lendas, de narrativas, de cerimônias e de poesia que se vem espalhando através de diversos povos, desde a Idade Média, a carrear aqui e ali restos e despojos de tradições ainda mais antigas. Se assim é em toda a parte, em São Paulo sabe-se menos que em parte alguma, menos até do que em outras regiões do Brasil.

Entretanto, esse patrimônio de tradições aí está, bem perto de cada um, em todos os lugares e classes. Não há quase pessoa que não possa contar alguma coisa a respeito — esta, uma reminiscência de atos e práticas; aquela, uma lenda, um apólogo, uma historieta; aquela outra, uma fórmula, uns versos, ora oração, uma adivinha, um anexim.

O folclore é assim — um domínio de toda a gente. Os simples vivem-no, inconscientemente, recebendo e transmitindo com inocência a herança dos antepassados, e não raro acrescentando-a, ou deturpando-a; os outros, embora sem se preocupar, são espectadores, e como tais sempre guardam alguma lembrança do que viram ou ouviram.

Não há senão explorar comodamente esse mundo, esse desconhecido familiar, para se conseguir uma larga soma de materiais, que pode dar lugar a descobertas muito interessantes; depende apenas de um pouco de paciência e de tempo — armas indispensáveis a quem se dedica a estas indagações.

As coisas que se oferecem comumente, em redor de nós, com relação ao nosso assunto, a maior parte das vezes se afiguram — ou insignificantes e ridículas, ou demasiado fragmentárias e inaproveitáveis. Outras vezes, surgem dúvidas quanto ao seu caráter de popularidade. Mas, anotem-se apesar de tudo, e classifiquem-se os apontamentos segundo uma divisão prática qualquer, não esquecendo de assinalar os lugares, as datas e mais circunstâncias que possam interessar. Com o tempo, avolumado o arquivo de notas, pode resultar de uma fácil comparação dos materias que o fragmentário se complete, que o incerto se consolide, que o insignificante ou ridículo ponha o observador na pista das coisas menos desdenháveis, mais significativas e mais sérias. Assim, também, aquilo que a princípio não se tinha meios de averiguar se era deveras popular, ou apenas invenção individual isolada, pode ter reaparecido em lugares e épocas diversas — e nesse caso a verificação está feita, e o trabalho empregado não o foi em vão.

Outro cuidado conveniente — com razão recomendado pelos mestres — é o de limitar a região e os assuntos a explorar. Querer um observador ocupar-se de todos os ramos de folclore ao mesmo tempo, e em toda a parte, é votar o próprio trabalho a uma esterilidade inevitável.

Os aspectos e formas da sub-religião popular, já não direi no Brasil, mas em São Paulo, ou apenas em algumas das suas regiões, dariam por si sós matéria suficiente para alguns anos de laboriosa investigação, desde que se pusesse definitivamente de lado o costume de só ver tudo por alto e de fugida e se resolvesse dar a todas as observações feitas um caráter de rigoroso objetivismo e de escrupulosa fidelidade.

Não haverá quem se anime a empreender em São Paulo este modesto, lento e por vezes fatigante trabalho, capaz entretanto de chegar a alguns resultados verdadeiramente interessantes e cientificamente úteis, bemmais interessantes e mais úteis do que tantas futilidades com que se fazem gemer os prelos todos os dias, sem glória nem proveito apreciável para ninguém?

 

Nota:

1. Encontra-se transcrito em O grande taumaturgo de Portugal, por F. A. Carlos das Neves (Porto, 1895) e O padre Santo Antônio de Lisboa, por Manuel Bernardes Branco (Lisboa, 1887).

(AMARAL, Amadeu. Tradições populares. São Paulo, Instituto Progresso Editorial, 1948, p.372-375)