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Luis da Câmara Cascudo
R. Westernmarck, na Historia del matrimonio (Ed. Americana, Buenos Aires, 1946)
estudou longamente o casamento por meio do rapto da noiva. O professor de
sociologia da Universidade de Helsinki era, no assunto, o mais bem informado dos
pesquisadores. O costume não era universal mas espalhadíssimo e milenar.
Resistiu, séculos e séculos, na Europa. Primeiro na forma primária e literal do
roubo à força. Depois vivo nos elementos de fingida resistência feminina. Assim
Grécia e Roma usaram tantíssimo tempo da fórmula que os povos germânicos
defendiam sua conservação.
Certo é índice de exogamia embora endogâmicos tivesse o furto da noiva como
tradição tribal. Pelo continente americano missionários e viajantes registraram
centenas de exemplos até meados do século XIX.
Na África era um costume normal em áreas enormes. A compra da esposa veio
posteriormente como dulcificação da conquista de outrora, fraudando ao pai da
noiva que pela filha receberia compensações materiais.
Em Portugal vivem ainda elementos recordadores do noivado por captura. J. Leite
de Vasconcelos (Tradições populares de Portugal, p.220, 222 etc., Porto, 1882)
registra que em Jarmelo "vai o noivo com os seus parentes e convidados buscar a
noiva a casa, onde os parentes e amigos desta mostram resistência em a deixar
sair". Na Beira Alta, a noiva é defendida pelas patrulhas do noivo e a sua do
assalto dos vizinhos que a pretendem roubar, lembrança das tentativas de
recuperamento da donzela arrebatada.
É uma lembrança nítida da quam-fang, a conquista da mulher, como a
chamavam os velhos noruegueses.
Entre os povos cavaleiros o rapto da moça determinava a perseguição para a
retomada e represália. Era uma galopada furiosa através da noite em busca do
valente atrevido e sua presa feminina.
Esta brát-loufti, "la course aprés la fiancée", ainda tem no Brasil do
Nordeste seus elementos característicos, vivos e teimosos depois de séculos e
modificações nos usos e costumes.
No Ceará denominara a Corrida do Chapéu. Voltando da igreja, depois do casamento
religioso, os noivos adiantam os cavalos e disparam correndo, perseguidos pelos
convidados que tudo fazem para arrebatar os chapéus aos nubentes.
Juvenal Galeno (Scene populares, p.156, Ceará, 1902) alude a esse costume; "Eu e a
Fransciquinha, a pedido do Menezes, saímos a campo para nos tirarem o chapéu; e
então, os camaradas viram-se doidos, meninos. Eu no russo, e ela num castanho
corredor, empurramo-nos na vargem velozes como o pensamento; e a outra gente
atrás pega-não-pega, e sem poderem pegar-nos. Depois quando estavámos cansados
da brincadeira deixamos-nos agarrar...
— Quem tirou o chapéu da noiva?
— Foi o Menezes; e o meu , o João da Baixa d'Areia. Nunca me ri tanto em dias da
vida".
Na Paraíba, nas ribeiras do rio do Peixe e Piancó, informava-me o saudoso
Simplício Cascudo, o chapéu da noiva é substituido por um lenço que ela leva na
mão, agitando-o enquanto o cavalo voa no tabuleiro seguido pelos cavaleiros
entusiasmados.
No Rio Grande do Norte, praias do Norte, municípios do Ceará-Mirim e Macaíba
especialmente, há a Corrida do Anel.
Kerginaldo Cavalcanti (Contos do Agreste, p.87-89, Natal 1914) registrou a Corrida
do Anel, entre a cidade de Macaíba e a povoação de Poço Limpo, assistida por ele
que tomou parte da folguedo velho.
"Deixamos a Macaíba com a alegria n'alma, desejosos de ver surgir a ampla
"estrada do fio" para darmos lugar à tradicional Corrida do Anel.
Ajustados os cavaleiros, eles emparelharam-se na estrada e o Targino, designado
para correr com o anel, encaminhou-se para a noiva fazendo caracolar o belo
animal.
Chegando, apeou-se e tomando a aliança da noiva, abraçou-a, e dum salto
montou-se e meteu as esporas no seu ardego cavalo que se lançou numa carreira
desenfreada. Ao tomar-nos umas vinte e cinco braças de dianteira, nós partimos
no encalço em toda disparada; as esporas riscavam sem cessar os cavalos e os
gritos de estímulo para ainda mais os fazerem correr eram incessantes.
Era uma corrida brutal!... O Simeão em cima do russo, fora quem levara vantagem
e o seu cavalo esguio e forte devorava o espaço com a velocidade de seta. Dos
dois corredores, era breve, uma distância de duas braças os separava; o Targino
esporeava e chicoteava o cavalo sem piedade e o Simeão descarregava com
violência a grossa chibata que empunhava.
Cinco minutos mais e os dois cavaleiros se acharam lado a lado; o Simeão estirou
o braço para receber o anel, o targino quis passá-lo para a outra mão, não o fez
com a precisa habilidade, perdeu o equilíbrio e precipitou-se no espaço.
Targino levantando-se vermelho, indignado, entregou o anel ao Simeão que
prosseguiu vitorioso a carreira infernal. Corremos assim sem descanso até as
várzeas do Potengi, onde o Simeão, sem competidor, pode-se dizer, fez moderar o
cavalo e dirigiu-se à casa do Nequinho a pedir água. Ali paramos todos e de tão
penosa jornada descansamos.
Depois de um quarto de hora, tornamos a montar e o Targino foi substituído pelo
Cabecinha que ocupava um cavalo alazão, gordo e bem feito.
E de novo a carreira começou com os mesmos transportes e emoções. O cavalo do
Simeão era inconteste o melhor, não houve quem dele se aproximasse e a oitenta
braças dos demais cavaleiros ele ufano gritava com entusiasmo. Assim passamos a
Sauna, avistamos a Boa Vista e as casas do Poço Limpo nos apareceram com os
matutos à porta, esperando ver a nossa passagem e o campeão vitorioso".
A noiva que leva o chapéu no Ceará é o lenço na Paraíba é aqui substituída pelo
anel da aliança, melhor símbolo do novo estado, representação típica de sua
pessoa.
É, legitimamente, la course aprés la fiancée, nas praias e sertões do
Norte brasileiro.
Será, visível, um elemento contemporâneo sobrevivente da tradição milenar do
casamento por captura.
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