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Jangada Brasil - a cara e a alma brasileiras

palhoça

ANO VI - EDIÇÃO 67
Junho 2004

Palhoça
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As saias no folclore, por Nestor de Holanda

O lendário ritual de iniciação da moça-nova na tribo tukuna

O casamento por captura, por Luis da Câmara Cascudo
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Capa
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Festança
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Cancioneiro
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Imaginário
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Oficina
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Colher de Pau
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Panacéia
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Catavento
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Almanaque
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PALHOÇA - Nesta seção, textos sobre a casa em diferentes regiões; utensílios; materiais; móveis, indumentárias; usos e costumes; tipos populares...


O casamento por captura

Luis da Câmara Cascudo

R. Westernmarck, na Historia del matrimonio (Ed. Americana, Buenos Aires, 1946) estudou longamente o casamento por meio do rapto da noiva. O professor de sociologia da Universidade de Helsinki era, no assunto, o mais bem informado dos pesquisadores. O costume não era universal mas espalhadíssimo e milenar. Resistiu, séculos e séculos, na Europa. Primeiro na forma primária e literal do roubo à força. Depois vivo nos elementos de fingida resistência feminina. Assim Grécia e Roma usaram tantíssimo tempo da fórmula que os povos germânicos defendiam sua conservação.

Certo é índice de exogamia embora endogâmicos tivesse o furto da noiva como tradição tribal. Pelo continente americano missionários e viajantes registraram centenas de exemplos até meados do século XIX.

Na África era um costume normal em áreas enormes. A compra da esposa veio posteriormente como dulcificação da conquista de outrora, fraudando ao pai da noiva que pela filha receberia compensações materiais.

Em Portugal vivem ainda elementos recordadores do noivado por captura. J. Leite de Vasconcelos (Tradições populares de Portugal, p.220, 222 etc., Porto, 1882) registra que em Jarmelo "vai o noivo com os seus parentes e convidados buscar a noiva a casa, onde os parentes e amigos desta mostram resistência em a deixar sair". Na Beira Alta, a noiva é defendida pelas patrulhas do noivo e a sua do assalto dos vizinhos que a pretendem roubar, lembrança das tentativas de recuperamento da donzela arrebatada.

É uma lembrança nítida da quam-fang, a conquista da mulher, como a chamavam os velhos noruegueses.

Entre os povos cavaleiros o rapto da moça determinava a perseguição para a retomada e represália. Era uma galopada furiosa através da noite em busca do valente atrevido e sua presa feminina.

Esta brát-loufti, "la course aprés la fiancée", ainda tem no Brasil do Nordeste seus elementos característicos, vivos e teimosos depois de séculos e modificações nos usos e costumes.

No Ceará denominara a Corrida do Chapéu. Voltando da igreja, depois do casamento religioso, os noivos adiantam os cavalos e disparam correndo, perseguidos pelos convidados que tudo fazem para arrebatar os chapéus aos nubentes.

Juvenal Galeno (Scene populares, p.156, Ceará, 1902) alude a esse costume; "Eu e a Fransciquinha, a pedido do Menezes, saímos a campo para nos tirarem o chapéu; e então, os camaradas viram-se doidos, meninos. Eu no russo, e ela num castanho corredor, empurramo-nos na vargem velozes como o pensamento; e a outra gente atrás pega-não-pega, e sem poderem pegar-nos. Depois quando estavámos cansados da brincadeira deixamos-nos agarrar...

— Quem tirou o chapéu da noiva?

— Foi o Menezes; e o meu , o João da Baixa d'Areia. Nunca me ri tanto em dias da vida".

Na Paraíba, nas ribeiras do rio do Peixe e Piancó, informava-me o saudoso Simplício Cascudo, o chapéu da noiva é substituido por um lenço que ela leva na mão, agitando-o enquanto o cavalo voa no tabuleiro seguido pelos cavaleiros entusiasmados.

No Rio Grande do Norte, praias do Norte, municípios do Ceará-Mirim e Macaíba especialmente, há a Corrida do Anel.

Kerginaldo Cavalcanti (Contos do Agreste, p.87-89, Natal 1914) registrou a Corrida do Anel, entre a cidade de Macaíba e a povoação de Poço Limpo, assistida por ele que tomou parte da folguedo velho.

"Deixamos a Macaíba com a alegria n'alma, desejosos de ver surgir a ampla "estrada do fio" para darmos lugar à tradicional Corrida do Anel.

Ajustados os cavaleiros, eles emparelharam-se na estrada e o Targino, designado para correr com o anel, encaminhou-se para a noiva fazendo caracolar o belo animal.

Chegando, apeou-se e tomando a aliança da noiva, abraçou-a, e dum salto montou-se e meteu as esporas no seu ardego cavalo que se lançou numa carreira desenfreada. Ao tomar-nos umas vinte e cinco braças de dianteira, nós partimos no encalço em toda disparada; as esporas riscavam sem cessar os cavalos e os gritos de estímulo para ainda mais os fazerem correr eram incessantes.

Era uma corrida brutal!... O Simeão em cima do russo, fora quem levara vantagem e o seu cavalo esguio e forte devorava o espaço com a velocidade de seta. Dos dois corredores, era breve, uma distância de duas braças os separava; o Targino esporeava e chicoteava o cavalo sem piedade e o Simeão descarregava com violência a grossa chibata que empunhava.

Cinco minutos mais e os dois cavaleiros se acharam lado a lado; o Simeão estirou o braço para receber o anel, o targino quis passá-lo para a outra mão, não o fez com a precisa habilidade, perdeu o equilíbrio e precipitou-se no espaço.

Targino levantando-se vermelho, indignado, entregou o anel ao Simeão que prosseguiu vitorioso a carreira infernal. Corremos assim sem descanso até as várzeas do Potengi, onde o Simeão, sem competidor, pode-se dizer, fez moderar o cavalo e dirigiu-se à casa do Nequinho a pedir água. Ali paramos todos e de tão penosa jornada descansamos.

Depois de um quarto de hora, tornamos a montar e o Targino foi substituído pelo Cabecinha que ocupava um cavalo alazão, gordo e bem feito.

E de novo a carreira começou com os mesmos transportes e emoções. O cavalo do Simeão era inconteste o melhor, não houve quem dele se aproximasse e a oitenta braças dos demais cavaleiros ele ufano gritava com entusiasmo. Assim passamos a Sauna, avistamos a Boa Vista e as casas do Poço Limpo nos apareceram com os matutos à porta, esperando ver a nossa passagem e o campeão vitorioso".

A noiva que leva o chapéu no Ceará é o lenço na Paraíba é aqui substituída pelo anel da aliança, melhor símbolo do novo estado, representação típica de sua pessoa.

É, legitimamente, la course aprés la fiancée, nas praias e sertões do Norte brasileiro.

Será, visível, um elemento contemporâneo sobrevivente da tradição milenar do casamento por captura.

(Cascudo, Luís da Câmara. "O casamento por captura". O Estado de São Paulo. São Paulo, 19 de janeiro de 1958)