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Jangada Brasil - a cara e a alma brasileiras

palhoça

ANO VI - EDIÇÃO 67
Junho 2004

Palhoça
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As saias no folclore, por Nestor de Holanda

O lendário ritual de iniciação da moça-nova na tribo tukuna

O casamento por captura, por Luis da Câmara Cascudo
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Capa
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Festança
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Cancioneiro
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Imaginário
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Oficina
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Colher de Pau
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Panacéia
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Catavento
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Almanaque
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PALHOÇA - Nesta seção, textos sobre a casa em diferentes regiões; utensílios; materiais; móveis, indumentárias; usos e costumes; tipos populares...


O lendário ritual de iniciação da moça-nova na tribo tukuna

Os índios tukunas

Os índios tukunas habitam a região do Amazonas, oito ou mais luas das margens do Alto Solimões, nos igarapés da margem esquerda daquele importante rio. É uma tribo que, vivendo nas cercanias de Tabatinga, já aceitou os melhores princípios materiais da nossa civilização que lá chegaram.

Entre os seus rituais encontra-se o descoberto, em 1952, pelo cientista alemão Kurt Nimuendaju (este sobrenome, dado pelos silvícolas locais, quer dizer: "aquele que não dorme", e foi adotado pelo explorador da selva amazônica em seus próprios documentários). O cientista faleceu naquela inóspita região, em 10 de dezembro de 1952, quando fazia suas pesquisas sobre a vida dos tukunas. Seus ossos se encontram num caixote de tábua, no Museu do Ipiranga, à espera de verba a ser arrecadada entre os colegas cientistas para serem devidamente sepultos. O estudioso faleceu de doença tropical.

A lenda

Conta a lenda que, numa noite de temporal, os índios tukuna de certa taba, foram assaltados e mortos por demônios que levaram seus corpos para com eles se banquetearem. Vizinhos vieram para fazer uma visita e deparam com a aldeia deserta e destruída. Seguiram os rastros até a caverna dos demônios. Armaram fogueira à boca da caverna, puseram-lhe pimenta e dirigiram à fumaça sufocante para o interior dela.

Assim morreram os demônios comedores de gente. Os tukunas entraram na caverna e observaram, atentamente, os rostos dos malfeitores. Desde então, reproduziram-no em máscaras nos seus rituais.

O ritual

O ritual consta de diversas cerimônias, que podem ser assim resumidas:

Quando as meninas chegam mais ou menos à idade da puberdade, lá pelos seus onze ou doze anos, são guardadas em cômodos especiais dentro das ocaras e vigiadas continuamente, mais ou menos durante dois meses, por familiares. As moças-novas não podem emitir som vocal de maneira alguma, para não atrair a atenção dos demônios à procura de vítimas. Acreditam os tukunas que nessa idade púbere as moças estão sujeitas a ataques de invisíveis duendes, o que o ritual poderá afastar.

Para matar o tempo as jovens tecem fibras de tucum. Quando, por qualquer motivo, têm necessidade imprescindível de chamar a atenção ou cuidados dos parentes batem dois pedaços de madeira especialmente confeccionados para tal finalidade. Não podem ser vistas senão pelos vigilantes.

Enquanto isso, os parentes preparam a festa do ritual, na fabricação do moquem, farinha de mandioca, cauim, etc... No dia aprazado, os convidados escondem-se no mato circundante e de lá vêm encapuçados com máscaras, simbolizando os demônios tal como Oman (pai do vento) e outros diabos da fábula. Na taba, fazem uma tremenda algazarra, procurando por todos os cantos as vítimas de sua sanha carnívora. Há danças com bastões ao som de tamboré de casco de tartaruga. Depois do que, voltam à floresta, para retornarem ao banquete, agora sem as máscaras características.

Ao anoitecer, a moça-nova é adornada. Os parentes cercam-na de cuidados, dançam com ela, rompem a parede de palha. Retiram, então, a venda dos olhos. A moça-nova tornou-se invulnerável aos perigos sobrenaturais. O rito de iniciação encerra-se com a depilação da moça-nova; arrancando-lhe os cabelos.

Filosofia selvagem

O tio paterno lhe dirige, então conselhos:

— "Sê diligente, pois a preguiçosa terá marido preguiçoso. Respeita teus pais e irmãos. Obedece a tua mãe e nunca a abandones".

Depois, convidados e "demônios" bebem cauim e banqueteiam-se até nada sobrar para contar história.

("O lendário ritual de iniciação da moça-nova na tribo tukuna". A Gazeta. São Paulo, 08 de julho de 1957)