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Nestor de Holanda
Vejo as mocinhas de saias curtas, calças compridas, saiotes, maiôs, e me lembro
de que as saias sertanejas sobretudo as nordestinas, ainda serão capítulos de
mestres com Edison Carneiro, Renato Almeida, Câmara Cascudo, porque pertencem ao
folclore, figuram como página importante de nossos costumes e muito ajudaram à
produtividade da mulher brasileira.
No interior nordestino, as anáguas têm bolsos com a boca presa por alfinete de
fralda. É onde as mulheres carregam o dinheiro, o retrato do santo favorito, os
bentinhos, as rezas para espinhela caída e mau olhado. E, quase sempre, o
alfinete vai carregado de medalhinhas, com os protetores.
Lembro-me da dona Fortunata, de Vitória de Santo Antão. Era senhora de saia que
valia milhões. Sua anágua se tornou famosa por excesso de bolsos. Quando dona
Fortunata levantava a beira da saia, aparecia tanto dinheiro que dava para
comprar a cidade. Na feira dos cavalos, em agosto, cada vez que ela suspendia os
babados e puxava uma maçaroca de cédulas, os capangas só tinham o trabalho de
pegar no cabresto do puro-sangue e levar o animal para a fazenda.
De uma feita, dona Fortunata entrou, na farmácia de meu avô, o coronel Hipio.
Nem conversou: levantou a saia e mostrou o bolso da anágua:
— Dou isso aqui pelas terras do riacho.
O coronel, que ia cheirando o rapé, nem chegou o cheirar. Respondeu,
incontinenti:
— Baixe a saia, dona Fortunata. As terras do riacho não têm preço.
Mas o filho do coronel era mais prudente. Aproximou-se:
— Levante a saia, dona Fortunata. As terras do riacho são minhas e as vendo
agora mesmo.
Foram ao cartório. O filho do coronel voltou com seiscentos contos amarrados no
lenço. Fez o melhor negócio de sua vida.
As saias das lavadeiras de beira do rio, compondo a posição incômoda que elas
trabalham, completam as paisagens ribeirinhas. À beira-d'água, è na barra da
saia que as lavadeiras acomodam o sabão.
Saia de mulher sertaneja serve para limpar nariz de filho, para enxugar mão,
para cobrir a cabeça do menino quando o sol está quente demais, serve para
aparar casca de vagem, de batata, de cebola, ou os caroços de milho, quando ela
prepara a comida. Serve para colher frutos.
A mulher rendeira não conta com a saia, somente, para compor-se. Acocora-se
junto à almofada, movimenta os bilros, muitas vezes prende a ponta da linha na
barra da saia.
Conheci uma infinidade delas, nas feiras nordestinas, comprando na barra da
saia:
— Bota aqui duas dúzias de tomates, freguês.
São famosas as saias espanholas ou russas, nas danças regionais. Mas as
brasileiras também participam muito dos ritmos, dos cocos, dos xotes, dos
xaxados. Não há forró sem as saias que enchem o terreiro e dão outra vista
às gaúchas, as que completam os pares de dançarinos, unindo-se às bombachas e
esporas.
Enfim, aqui fica a idéia de um estudo, de um capítulo de nosso folclore, de
nossos costumes.
E — não me levem a mal — as jovens de hoje estão abolindo a saia, porque não
trabalham tanto — pelo menos, não trabalham como as mulheres braçais do interior
do Brasil. Por isso, não sabem quantas utilidades as saias têm...
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