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Jangada Brasil - a cara e a alma brasileiras

palhoça

ANO VI - EDIÇÃO 67
Junho 2004

Palhoça
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As saias no folclore, por Nestor de Holanda

O lendário ritual de iniciação da moça-nova na tribo tukuna

O casamento por captura, por Luis da Câmara Cascudo
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Capa
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Festança
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Cancioneiro
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Imaginário
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Oficina
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Colher de Pau
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Panacéia
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Catavento
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PALHOÇA - Nesta seção, textos sobre a casa em diferentes regiões; utensílios; materiais; móveis, indumentárias; usos e costumes; tipos populares...


As saias no folclore

Nestor de Holanda

Vejo as mocinhas de saias curtas, calças compridas, saiotes, maiôs, e me lembro de que as saias sertanejas sobretudo as nordestinas, ainda serão capítulos de mestres com Edison Carneiro, Renato Almeida, Câmara Cascudo, porque pertencem ao folclore, figuram como página importante de nossos costumes e muito ajudaram à produtividade da mulher brasileira.

No interior nordestino, as anáguas têm bolsos com a boca presa por alfinete de fralda. É onde as mulheres carregam o dinheiro, o retrato do santo favorito, os bentinhos, as rezas para espinhela caída e mau olhado. E, quase sempre, o alfinete vai carregado de medalhinhas, com os protetores.

Lembro-me da dona Fortunata, de Vitória de Santo Antão. Era senhora de saia que valia milhões. Sua anágua se tornou famosa por excesso de bolsos. Quando dona Fortunata levantava a beira da saia, aparecia tanto dinheiro que dava para comprar a cidade. Na feira dos cavalos, em agosto, cada vez que ela suspendia os babados e puxava uma maçaroca de cédulas, os capangas só tinham o trabalho de pegar no cabresto do puro-sangue e levar o animal para a fazenda.

De uma feita, dona Fortunata entrou, na farmácia de meu avô, o coronel Hipio. Nem conversou: levantou a saia e mostrou o bolso da anágua:

— Dou isso aqui pelas terras do riacho.

O coronel, que ia cheirando o rapé, nem chegou o cheirar. Respondeu, incontinenti:

— Baixe a saia, dona Fortunata. As terras do riacho não têm preço.

Mas o filho do coronel era mais prudente. Aproximou-se:

— Levante a saia, dona Fortunata. As terras do riacho são minhas e as vendo agora mesmo.

Foram ao cartório. O filho do coronel voltou com seiscentos contos amarrados no lenço. Fez o melhor negócio de sua vida.

As saias das lavadeiras de beira do rio, compondo a posição incômoda que elas trabalham, completam as paisagens ribeirinhas. À beira-d'água, è na barra da saia que as lavadeiras acomodam o sabão.

Saia de mulher sertaneja serve para limpar nariz de filho, para enxugar mão, para cobrir a cabeça do menino quando o sol está quente demais, serve para aparar casca de vagem, de batata, de cebola, ou os caroços de milho, quando ela prepara a comida. Serve para colher frutos.

A mulher rendeira não conta com a saia, somente, para compor-se. Acocora-se junto à almofada, movimenta os bilros, muitas vezes prende a ponta da linha na barra da saia.

Conheci uma infinidade delas, nas feiras nordestinas, comprando na barra da saia:

— Bota aqui duas dúzias de tomates, freguês.

São famosas as saias espanholas ou russas, nas danças regionais. Mas as brasileiras também participam muito dos ritmos, dos cocos, dos xotes, dos xaxados. Não há forró  sem as saias que enchem o terreiro e dão outra vista às gaúchas, as que completam os pares de dançarinos, unindo-se às bombachas e esporas.

Enfim, aqui fica a idéia de um estudo, de um capítulo de nosso folclore, de nossos costumes.

E — não me levem a mal — as jovens de hoje estão abolindo a saia, porque não trabalham tanto — pelo menos, não trabalham como as mulheres braçais do interior do Brasil. Por isso, não sabem quantas utilidades as saias têm...

(Holanda, Nestor de. "As saias no folclore". Diário de Notícias. Rio de Janeiro, 24 de outubro de 1964)