Jangada Brasil
  

  Jangada Brasil  | RealejoProvérbios  |  No Estradão  |  Amigos da Jangada  | Contato  | Mapa do Site

Jangada Brasil - a cara e a alma brasileiras

oficina

ANO VI - EDIÇÃO 67
Junho 2004

Oficina
....................................
A velha pesca do arrastão com bois, por Margarida Izar

De várias castas de açúcar, por André João Antonil

Garimpeiros, por Euclides da Cunha
....................................

Capa
....................................

Festança
....................................
Cancioneiro
....................................
Imaginário
....................................
Palhoça
....................................
Colher de Pau
....................................
Panacéia
....................................
Catavento
....................................
Almanaque
....................................
 

Edições anteriores
Seleções temáticas
As cartas, opiniões e pedidos dos nossos leitores
Bibliografia utilizada
Saiba mais sobre a Jangada Brasil
Contatos
 

OFICINA - Nesta seção, textos sobre profissões; ferramentas; técnicas; agricultura, pecuária; artesanato; vendedores ambulantes; pregões...


De várias castas de açúcar, que separadamente se encaixam; marcas das caixas e sua condução ao trapiche.

André João Antonil

Antes de marcar as caixas, é necessário falar de várias castas de açúcar, que separadamente se encaixam, porque também nesta droga há sua nobreza, há casta vil, há mistura. Há, primeiramente, açúcar branco e mascavado; o branco toma este nome da cor que tem, e muito se louva e estima no açúcar mais admirável, porquanto se lhe comunica do barro. O mascavado de cor parda é o que se tira do fundo das formas, a que chamam pés ou cabuchos. Do branco há fino, há redondo e há baixo; e todos estes são açúcares machos. O fino é mais alvo, mais fechado e de maior peso, e tal é ordinariamente a primeira parte, que chamam cara da forma. O redondo é algum tanto menos alvo, e menos fechado; e tal é comumente o da segunda parte da forma; e digo comumente porque não é esta regra infalível, podendo acontecer que a cara de algumas formas seja menos alva e menos fechada que a segunda parte de outra forma. O baixo é ainda menos alvo e quase trigueiro na cor; e ainda que seja fechado e forte, contudo, por ter menos alvura, chama-se baixo ou inferior.

Além destas três castas de branco, há outro, que chamam branco batido, feito do mel que escorreu das formas do macho na casa de purgar, cozido e batido outra vez; e sai às vezes tão alvo e forte como o macho. E, assim como há mascavado macho, que é o pé das formas do branco macho, assim há o mascavado batido, que é o pé das formas do branco batido. O que pinga das formas do macho, quando se purga, chama-se mel; e o que escorre do batido branco chama-se remel. Do mel, uns fazem água ardente, estilando-o, outros, o tornam a cozer, para fazerem batidos, e outros o vendem a panelas aos que o estilam ou cozem; e o mesmo digo do remel.

Vista a diversidade dos açúcares, segue-se falar das marcas que se hão de pôr com a mesma distinção nas caixas. Marcam-se as caixas com ferro ardente ou com tinta; três são as marcas que há de levar cada caixa, a saber: a das arrobas, a do engenho e a do senhor ou mercador por cuja conta se embarca. A marca de fogo do número das arrobas se põe em cima, na cabeça da caixa, junto ao tampo, começando do canto da banda direita, de tal sorte que abarque juntamente a cabeça da caixa e o tampo. E isto se faz para que, se depois se abrisse a caixa, se conheça mais facilmente, pelas partes da marca, que estão na cabeça, e não correspondem às outras partes, que estão na borda do tampo.

A marca do engenho, também de fogo, se põe na mesma testa da caixa, junto ao fundo, no canto da banda direita, para que se possam averiguar as faltas que poderiam haver no encaixamento do açúcar. Porque, assim como às vezes nas pipas de breu que vêm de Portugal se acham pedras breadas, e nas peças de linho fino por fora, no meio se acha pano de estopa, ou menor número de varas que as que se apontam na face da peça, assim se poderiam mandar nas caixas de açúcar menos arrobas das que se apontam nas marcas, e no meio da caixa açúcar mascavado por branco, como já tem acontecido, por culpa de algum caixeiro infiel.

A marca do senhor do açúcar ou do mercador, por cuja conta se embarca, se for de fogo, se põe no meio da dita testa da caixa; e, se não for de fogo, põe-se no mesmo lugar com tinta o seu nome, o qual se poderá tirar com uma enxó, quando se vendesse a caixa a outro mercador, pondo na dita parte o nome de quem a comprou.

Leva a marca do branco macho um só “B”; o branco batido, dous “BB”. O mascavado macho um “M”; o mascavado batido um “M” e um “B”. A marca, v. g., do engenho de Sergipe do Conde leva um “S”, da Pitanga um “P”. E a marca, v. g., do colégio da Companhia de Jesus, leva uma cruz dentro de um círculo.

Nos engenhos à beira-mar, levam-se as caixas ao porto desta sorte. Com rolos e espeques passam uma atrás de outra da casa da caixaria para uma carreta, feita para isso mesmo mais baixa, e sobre esta se leva cada caixa até o porto, puxando pelas cordas os negros de quem a manda embarcar por sua conta.

Dos engenhos, pela terra dentro, vem cada caixa sobre um carro, com três ou quatro juntas de bois, conforme as lamas que hão de vencer; e nisto custa caro o descuido, porque, por não as trazerem no tempo do verão, depois do inverno, estazam-se e matam-se os bois.

Do porto passam sobre tábuas grossas a pique para o barco; e, ao entrar, hão de ter mão nela com socairo, para que não caia de pancada e padeça algum detrimento. No barco se hão de arrumar as caixas muito bem, para que vão seguras nem se metam mais, antes menos das que o barco pode receber e levar; e seja forte e bem velejado, e com arrais prático das coroas e pedras e com marinheiros não atordoados da água ardente, saindo com bom tempo e maré.

Do engenho até o trapiche, ou até a nau em que se embarca, paga cada caixa que vem por mar uma pataca de frete. Ao entrar e sair do trapiche, meia pataca. No primeiro mês, quer começado só, quer acabado, ainda que não fossem mais que dois dias, paga dois vinténs; nos outros meses seguintes, um vintém cada mês. E, se o trapicheiro ou o caixeiro do trapiche vender por comissão do dono algum açúcar, ganha uma pataca por cada caixa.

E, com isso, temos levado o açúcar do canavial, aonde nasce, até os portos do Brasil, donde navega para Portugal, para se repartir por muitas cidades da Europa. Falta agora dizer alguma cousa dos preços antigos e modernos por que são hoje tão excessivos.

[1711]

(ANTONIL, André João. Cultura e opulência do Brasil. 3ª ed.. Belo Horizonte; São Paulo, Editora Itatiaia; Editora da Universidade de São Paulo, 1982. Reconquista do Brasil (nova série), 70, parte 2, cap.8, p.136-138)