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André João Antonil
Antes de marcar as caixas, é necessário falar de várias castas de açúcar, que separadamente se
encaixam, porque também nesta droga há sua nobreza, há casta vil, há mistura.
Há, primeiramente, açúcar branco e mascavado; o branco toma este nome da cor que
tem, e muito se louva e estima no açúcar mais admirável, porquanto se lhe
comunica do barro. O mascavado de cor parda é o que se tira do fundo das formas,
a que chamam pés ou cabuchos. Do branco há fino, há redondo e há baixo; e todos
estes são açúcares machos. O fino é mais alvo, mais fechado e de maior peso, e
tal é ordinariamente a primeira parte, que chamam cara da forma. O redondo é
algum tanto menos alvo, e menos fechado; e tal é comumente o da segunda parte da
forma; e digo comumente porque não é esta regra infalível, podendo acontecer que
a cara de algumas formas seja menos alva e menos fechada que a segunda parte de
outra forma. O baixo é ainda menos alvo e quase trigueiro na cor; e ainda que
seja fechado e forte, contudo, por ter menos alvura, chama-se baixo ou inferior.
Além destas três
castas de branco, há outro, que chamam branco batido, feito do mel que escorreu
das formas do macho na casa de purgar, cozido e batido outra vez; e sai às vezes
tão alvo e forte como o macho. E, assim como há mascavado macho, que é o pé das
formas do branco macho, assim há o mascavado batido, que é o pé das formas do
branco batido. O que pinga das formas do macho, quando se purga, chama-se mel; e
o que escorre do batido branco chama-se remel. Do mel, uns fazem água ardente,
estilando-o, outros, o tornam a cozer, para fazerem batidos, e outros o vendem a
panelas aos que o estilam ou cozem; e o mesmo digo do remel.
Vista a
diversidade dos açúcares, segue-se falar das marcas que se hão de pôr com a
mesma distinção nas caixas. Marcam-se as caixas com ferro ardente ou com tinta;
três são as marcas que há de levar cada caixa, a saber: a das arrobas, a do
engenho e a do senhor ou mercador por cuja conta se embarca. A marca de fogo do
número das arrobas se põe em cima, na cabeça da caixa, junto ao tampo, começando
do canto da banda direita, de tal sorte que abarque juntamente a cabeça da caixa
e o tampo. E isto se faz para que, se depois se abrisse a caixa, se conheça mais
facilmente, pelas partes da marca, que estão na cabeça, e não correspondem às
outras partes, que estão na borda do tampo.
A marca do
engenho, também de fogo, se põe na mesma testa da caixa, junto ao fundo, no
canto da banda direita, para que se possam averiguar as faltas que poderiam
haver no encaixamento do açúcar. Porque, assim como às vezes nas pipas de breu
que vêm de Portugal se acham pedras breadas, e nas peças de linho fino por fora,
no meio se acha pano de estopa, ou menor número de varas que as que se apontam
na face da peça, assim se poderiam mandar nas caixas de açúcar menos arrobas das
que se apontam nas marcas, e no meio da caixa açúcar mascavado por branco, como
já tem acontecido, por culpa de algum caixeiro infiel.
A marca do
senhor do açúcar ou do mercador, por cuja conta se embarca, se for de fogo, se
põe no meio da dita testa da caixa; e, se não for de fogo, põe-se no mesmo lugar
com tinta o seu nome, o qual se poderá tirar com uma enxó, quando se vendesse a
caixa a outro mercador, pondo na dita parte o nome de quem a comprou.
Leva a marca do branco macho um só “B”; o branco batido, dous “BB”. O mascavado
macho um “M”; o mascavado batido um “M” e um “B”. A marca, v. g., do engenho de
Sergipe do Conde leva um “S”, da Pitanga um “P”. E a marca, v. g., do colégio da
Companhia de Jesus, leva uma cruz dentro de um círculo.
Nos engenhos à
beira-mar, levam-se as caixas ao porto desta sorte. Com rolos e espeques passam
uma atrás de outra da casa da caixaria para uma carreta, feita para isso mesmo
mais baixa, e sobre esta se leva cada caixa até o porto, puxando pelas cordas os
negros de quem a manda embarcar por sua conta.
Dos engenhos,
pela terra dentro, vem cada caixa sobre um carro, com três ou quatro juntas de
bois, conforme as lamas que hão de vencer; e nisto custa caro o descuido,
porque, por não as trazerem no tempo do verão, depois do inverno, estazam-se e
matam-se os bois.
Do porto
passam sobre tábuas grossas a pique para o barco; e, ao entrar, hão de ter mão
nela com socairo, para que não caia de pancada e padeça algum detrimento. No
barco se hão de arrumar as caixas muito bem, para que vão seguras nem se metam
mais, antes menos das que o barco pode receber e levar; e seja forte e bem
velejado, e com arrais prático das coroas e pedras e com marinheiros não
atordoados da água ardente, saindo com bom tempo e maré.
Do engenho até
o trapiche, ou até a nau em que se embarca, paga cada caixa que vem por mar uma
pataca de frete. Ao entrar e sair do trapiche, meia pataca. No primeiro mês,
quer começado só, quer acabado, ainda que não fossem mais que dois dias, paga
dois vinténs; nos outros meses seguintes, um vintém cada mês. E, se o
trapicheiro ou o caixeiro do trapiche vender por comissão do dono algum açúcar,
ganha uma pataca por cada caixa.
E, com isso,
temos levado o açúcar do canavial, aonde nasce, até os portos do Brasil, donde
navega para Portugal, para se repartir por muitas cidades da Europa. Falta agora
dizer alguma cousa dos preços antigos e modernos por que são hoje tão
excessivos.
[1711]
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