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Margarida Izar
A pesca do arrastão só está em uso, pela costa litorânea paulista, em Itanhaém,
em Iperoig, e na Praia Grande. Mas enquanto nas duas primeiras faixas do mar os
animais que, primitivamente, puxavam a rede deram lugar a homens, dez em cada
corda, no Boqueirão da Praia Grande subsiste o primarismo pitoresco da pesca do
arrastão com bois. Asseguram que é o derradeiro reduto, no sul, desse gênero de
pescaria, que relembra o amanhecer da captura do peixe pelo homem.
É a pescaria morosa, em que o pescador tem vagares para encher os olhos e a alma
no mar que é para ele algo mais do que o mero ganha-pão. Na lentidão do caminhar
dos bois pelas areias puxando as cordas da rede submersa no oceano, no ritmo
dela, o pescador fuma, divaga e vai vivendo a sua vida que se alimenta do mar.
Assim é a vida do mestre Antero Rodrigues, capitão da pesca no Boqueirão. Ele
põe o seu barco, o Netuno no dorso das ondas brancas, e se faz ao largo quando
o dia amanhece. Faz isso há vinte e cinco anos, desde menino, porque é filho de
pescador. Seu pai pescava de canoa, e ele é o mestre da pesca do arrastão.
Quando o barco está longe, a dois quilometros da praia, mestre Antero e mais
três homens lançam à água a rede de 200 metros. Lançam-na em qualquer lugar, eles
dizem, mais a intuição, que é a sabedoria do sangue, os guia. Conclui-se aí a
primeira parte da tarefa pesqueira.
O barco volta à praia, com os dois extremos das cordas. Então as parelhas de
oito bois se aproximam, lentos, e junto às ondas oferecem a canga para os cabos
das cordas. Começam a puxar; por duas horas ficam puxando a rede, que vem vindo,
se arrastando, no seio do mar. Um e outro turista espia e vai andando. Sabem que
demorará antes que chegue a rede pois é lerdo e sonolento nas molhadas areias o
passo velho dos bois.
Enquanto se cumpre esta segunda parte da lida pesqueira, escutemos o mestre
Antero, o último pescador dessa modalidade de pesca primitiva. De chapéu na
cabeça, cigarro na boca, pés nus nas tábuas do barco, recolhe as cordas.
Ora é cheia, ora vazia
As malhas da sua rede (aliás do seu patrão da cidade) colhem camarão, pescada
branca, amarela, arraia, cação e corvina. Dependendo do mar, "o mar é quem
manda", ora vem cheia, ora vazia. Às vezes o mar manda que por seis ou sete dias
não joguem a rede. É quando se enfurece, e "com o mar, ouça o que lhe digo, não
se brinca".
Pelo verão e à primavera cada redada recolhe de 3.000 a 3.5000 quilos de
pescado. São três ou quatro redadas por dia — e é um mundão de peixe. As ondas
são cheias e quentes (como o outono das fartas colheitas da terra). Então o
pescador esquece o mar do inverno feio e escurecido e ama esse mar de janeiro,
que é belo e que o acaricia.
Ele se lembra que há vinte e tantos anos, quando havia poucos pescadores, as
pescarias eram boas demais. A rede transbordante enchia de cinco a seis
caminhões. Hoje... hoje há muito "fracasso" de peixe porque há muito pescador.
Mestre Antero sabe que os japoneses se assenhorearam dos nossos mares
atlânticos, pescando com o fabuloso radar. E que o governo pode até enlatar o
pescado e mandar para o Japão".
Mestre Antero não entende de ciência, e só tem o recurso dos bois, das cordas,
do seu barquinho e dos seus poucos homens contra o capricho e a inconstância do
mar. Mas... "dona, vida que não tem as suas amarguras não é vida de homem".
"Amargura" é quando o mar defendendo os seus segredos e a sua solidão, repele o
pescador. Mas se a tarefa já foi iniciada, o pescador não a larga. Esquenta o
corpo com a pinga, aperta no peito a medalha (há sempre no peito dele a medalha
de alguém) e entrega-se à pesca e ao mar, à aventura fascinante. Não deixa a
pesca "por ter amor nela; nela e no mar: o mar é como a mulher".
"Saiam todos! Arreda"
Em vésperas de domingos e feriados a apanha pesqueira costuma ser à meia-noite
para que às seis da manhã esteja finda, Mestre Antero resguarda-se na madrugada
para fugir aos veranistas que assaltam a rede e querem pegar o peixe de graça.
"Tem vez que eu preciso com perdão da palavra, ser..." (censurado).
Agora os turista vão se aproximando, os bois vão apertando a rede. A rede já
está pertinho é verde, e vem respingando. Há lufa-lufa na água, moças e senhoras
que não vestem maiô arrebanham as saias, homens e crianças rodeiam — vem, das
profundezas do mar chegando, a colheita do pescador!
É a terceira parte da faina pesqueira. "Saiam todos! Arreda!" — os braços rudes
dos homens de Mestre Antero tentam afastar a multidão. E eles repetem, na
azáfama brusca; "Arreda!" — Ninguém arreda pé, esperando a rede que, embaraçada
em algas, de bordas gotejantes já faísca, e é um luzeiro de escamas.
Mestre Antero franze o cenho. E pensar que o pobre tem mais vergonha do que o
rico que "rouba" o peixe que salta das malhas da rede e vai catar nas águas
vivas ardentes, retiradas dos balaios, as sobras da pescaria. Tudo e todos se
molharam, como no batismo dos evangelistas. E os bois lentamente se afastam. É o
crepusculo da pesca do arrastão.
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