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Jangada Brasil - a cara e a alma brasileiras

oficina

ANO VI - EDIÇÃO 67
Junho 2004

Oficina
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A velha pesca do arrastão com bois, por Margarida Izar

De várias castas de açúcar, por André João Antonil

Garimpeiros, por Euclides da Cunha
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Capa
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Festança
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Cancioneiro
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Imaginário
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Palhoça
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Colher de Pau
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Panacéia
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Catavento
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Almanaque
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OFICINA - Nesta seção, textos sobre profissões; ferramentas; técnicas; agricultura, pecuária; artesanato; vendedores ambulantes; pregões...


A velha pesca do arrastão com bois

Margarida Izar

A pesca do arrastão só está em uso, pela costa litorânea paulista, em Itanhaém, em Iperoig, e na Praia Grande. Mas enquanto nas duas primeiras faixas do mar os animais que, primitivamente, puxavam a rede deram lugar a homens, dez em cada corda, no Boqueirão da Praia Grande subsiste o primarismo pitoresco da pesca do arrastão com bois. Asseguram que é o derradeiro reduto, no sul, desse gênero de pescaria, que relembra o amanhecer da captura do peixe pelo homem.

É a pescaria morosa, em que o pescador tem vagares para encher os olhos e a alma no mar que é para ele algo mais do que o mero ganha-pão. Na lentidão do caminhar dos bois pelas areias puxando as cordas da rede submersa no oceano, no ritmo dela, o pescador fuma, divaga e vai vivendo a sua vida que se alimenta do mar.

Assim é a vida do mestre Antero Rodrigues, capitão da pesca no Boqueirão. Ele põe o seu barco, o Netuno no dorso das ondas brancas, e se faz ao largo quando o dia amanhece. Faz isso há vinte e cinco anos, desde menino, porque é filho de pescador. Seu pai pescava de canoa, e ele é o mestre da pesca do arrastão.

Quando o barco está longe, a dois quilometros da praia, mestre Antero e mais três homens lançam à água a rede de 200 metros. Lançam-na em qualquer lugar, eles dizem, mais a intuição, que é a sabedoria do sangue, os guia. Conclui-se aí a primeira parte da tarefa pesqueira.

O barco volta à praia, com os dois extremos das cordas. Então as parelhas de oito bois se aproximam, lentos, e junto às ondas oferecem a canga para os cabos das cordas. Começam a puxar; por duas horas ficam puxando a rede, que vem vindo, se arrastando, no seio do mar. Um e outro turista espia e vai andando. Sabem que demorará antes que chegue a rede pois é lerdo e sonolento nas molhadas areias o passo velho dos bois.

Enquanto se cumpre esta segunda parte da lida pesqueira, escutemos o mestre Antero, o último pescador dessa modalidade de pesca primitiva. De chapéu na cabeça, cigarro na boca, pés nus nas tábuas do barco, recolhe as cordas.

Ora é cheia, ora vazia

As malhas da sua rede (aliás do seu patrão da cidade) colhem camarão, pescada branca, amarela, arraia, cação e corvina. Dependendo do mar, "o mar é quem manda", ora vem cheia, ora vazia. Às vezes o mar manda que por seis ou sete dias não joguem a rede. É quando se enfurece, e "com o mar, ouça o que lhe digo, não se brinca".

Pelo verão e à primavera cada redada recolhe de 3.000 a 3.5000 quilos de pescado. São três ou quatro redadas por dia — e é um mundão de peixe. As ondas são cheias e quentes (como o outono das fartas colheitas da terra). Então o pescador esquece o mar do inverno feio e escurecido e ama esse mar de janeiro, que é belo e que o acaricia.

Ele se lembra que há vinte e tantos anos, quando havia poucos pescadores, as pescarias eram boas demais. A rede transbordante enchia de cinco a seis caminhões. Hoje... hoje há muito "fracasso" de peixe porque há muito pescador. Mestre Antero sabe que os japoneses se assenhorearam dos nossos mares atlânticos, pescando com o fabuloso radar. E que o governo pode até enlatar o pescado e mandar para o Japão".

Mestre Antero não entende de ciência, e só tem o recurso dos bois, das cordas, do seu barquinho e dos seus poucos homens contra o capricho e a inconstância do mar. Mas... "dona, vida que não tem as suas amarguras não é vida de homem".

"Amargura" é quando o mar defendendo os seus segredos e a sua solidão, repele o pescador. Mas se a tarefa já foi iniciada, o pescador não a larga. Esquenta o corpo com a pinga, aperta no peito a medalha (há sempre no peito dele a medalha de alguém) e entrega-se à pesca e ao mar, à aventura fascinante. Não deixa a pesca "por ter amor nela; nela e no mar: o mar é como  a mulher".

"Saiam todos! Arreda"

Em vésperas de domingos e feriados a apanha pesqueira costuma ser à meia-noite para que às seis da manhã esteja finda, Mestre Antero resguarda-se na madrugada para fugir aos veranistas que assaltam a rede e querem pegar o peixe de graça. "Tem vez que eu preciso com perdão da palavra, ser..." (censurado).

Agora os turista vão se aproximando, os bois vão apertando a rede. A rede já está pertinho é verde, e vem respingando. Há lufa-lufa na água, moças e senhoras que não vestem maiô arrebanham as saias, homens e crianças rodeiam — vem, das profundezas do mar chegando, a colheita do pescador!

É a terceira parte da faina pesqueira. "Saiam todos! Arreda!" — os braços rudes dos homens de Mestre Antero tentam afastar a multidão. E eles repetem, na azáfama brusca; "Arreda!" — Ninguém arreda pé, esperando a rede que, embaraçada em algas, de bordas gotejantes já faísca, e é um luzeiro de escamas.

Mestre Antero franze o cenho. E pensar que o pobre tem mais vergonha do que o rico que "rouba" o peixe que salta das malhas da rede e vai catar nas águas vivas ardentes, retiradas dos balaios, as sobras da pescaria. Tudo e todos se molharam, como no batismo dos evangelistas. E os bois lentamente se afastam. É o crepusculo da pesca do arrastão.

(Izar, Margarida. "A velha pesca do arrastão com bois". Diário de São Paulo. São Paulo, 27 de abril de 1958)