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Jangada Brasil - a cara e a alma brasileiras

imaginário

ANO VI - EDIÇÃO 67
Junho 2004

Imaginário
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O escrivão, o juiz e São Pedro, por Gustavo Barroso

Uma aventura de Pedro Malasartes, colhida por Otávio de Araújo Ribeiro

O serpentário, colhida por Barbosa Rodrigues
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Capa
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Festança
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Cancioneiro
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Oficina
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Palhoça
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Colher de Pau
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Panacéia
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Catavento
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Almanaque
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IMAGINÁRIO - Nesta seção, textos sobre lendas e mitos; contos; personagens; fábulas; narrativas populares; seres fantásticos...


O serpentário

Colhida por Barbosa Rodrigues na região do rio Negro

Contam que uma mulher foi um dia a casa de um homem casado e pediu para aí ficar. Perguntou-lhe o homem:

— Que sabes tu fazer?

— Sei fiar.

— Então, fia.

dizem que deu-lhe algodão. Depois a mulher ficou em casa dele. Deixavam-na só e nada lhe davam para comer. Então, ela ia ao ninho das galinhas e tirava os ovos para chupar, e deixava as cascas inteiras, como se não fossem quebradas. Depois disso, o homem voltou do mato com dois ovos de mutum; quebrou um e meteu dentro dele um cabelo humano. Em seguida, a mulher foi chupá-los. Cresceu-lhe tanto a bariga que ela já não podia andar, Voltando do mato, o homem disse-lhe:

— Vamos apanhar sorva que encontrei aqui perto.

Dizem que da barriga responderam-lhe:

— Eu vou contigo, minha mãe.

Disseram eles então:

— Que é isto?

Falou outra vez a barriga:

— Eu vou contigo, minha mãe.

O homem foi com ela, apesar da barriga grande. Apenas chegaram junto à sorveira, o homem disse:

— Cortamos ou subimos?

O que estava dentro da barriga da mulher respondeu:

— Eu mesmo subo.

Então o homem tirou a maior sorva; tirou dela o conteúdo e encheu-a de saliva. Da mulher que estava sentada saiu uma cobra que subiu para a sorveira. Ainda estava na barriga a metade, já a cabeça estava na ponta da árvore, engrossando ao mesmo tempo. Então disse o homem:

— Agora, quando acabar de sair, mete a ponta do rabo na casca da sorva.

A mulher meteu-a logo. Então fugiram, levando o homem a mulher às costas para casa. Logo depois a cobra gritou:

— Minha mãe! Minha mãe!

A saliva respondeu em vez da mãe:

— Uh! Uh!...

Chegaram à casa. Imediatamente o homem meteu a mulher num pote e pôs terra em cima. A cobra foi no encalço da mãe, chegou e chamou-a... chamou-a. A mãe não respondendo, saltou a filha ao rio. Procurou o fundo e não o achou. Subiu e foi para o céu.

A cobra grande chamou o homem e disse:

— Meu avô, escondeste minha mãe. Agora vou-me embora para o céu; não achei lugar no rio e quanto eu te chamar, me responderás. Quando eu aparecer, capina tua roça, porque será então o princípio do verão.

(Em SILVA, Alberto da Costa e. Antologia de lendas do índio brasileiro. Rio de Janeiro, Ministério da Educação e Cultura / Instituto Nacional do Livro, 1957, p.35-36)