|
Colhida em Ouro Preto, MG, por Otávio de Araújo Ribeiro
Pedro Malasartes sempre ouviu dizer que o diabo era a mais esperta criatura
do mundo. Desde então, uma idéia fixa dominou-o por completo: enganar o diabo.
Dia e noite castigava o bestunto, moendo e remoendo mil e um planos. Certa
ocasião, passando por um bairro da cidade, viu numa casa, estirado sobre uma
mesa, o corpo de uma velha recém-falecida. Como um raio, surgiu-lhe na mente a
luminosa idéia, que ele andava buscando há tanto tempo.
Aproveitando um momento em que não havia ninguém de guarda à defunta,
apoderou-se dela e carregou-a para longe. Arranjou dois cavalos arreados,
escarranchou num deles a velha morta, amarrando-a solidamente, dando-lhe uma
atitude de amazona, cobrindo-a com vistoso xale e pondo-lhe à boca um fumegante
cachimbo. Feitos estes preparativos, montou no outro animal e tomou rumo do
inferno.
Este era situado lá no fundo de uns grotões da serra, e Malasartes correu mil
perigos para conseguir descer até lá com os animais. Mas era hábil cavaleiro e
chegou são e salvo. O inferno era um casarão extremamente longo e muito baixo,
cujo telhado era todo de folhas de zinco. Aí chegado, Pedro apeou-se, bateu à
porta uma, duas, três vezes e ninguém acudiu. Tornou a bater com mais força e
nenhuma resposta. Furioso com o silêncio, vendo que o telhado era de zinco,
começou a arremessar-lhe pedras, fazendo um barulho medonho.
Foi então que a sombria porta rangeu nos gonzos, surgindo um diabinho que
perguntou a Pedro o que desejava. "Falar ao diabo", respondeu. O diabinho
desapareceu e daí a momentos apresentou-se Satanás em pessoa. Malasartes,
mostrando-lhe a velha, que continuava montada a cavalo e que à frouxa luz
daqueles lugares parecia viva, contou ao tinhoso que se achava reduzido a
extrema miséria, com a família curtindo fome etc. Sabendo que o diabo comprava
almas, trazia ali a sua mãe, cuja alma estava decidido a vender, pois era o
único recurso que tinha para salvar a numerosa família dos transes em que se
achava. O diabo consultou o livro do inferno e viu que o nome da velha não
estava registrado, então pulou de contente e mostrou-se disposto a fechar o
negócio. (Conforme a tradição, o diabo é mais do que arquimilionário, e com toda
a sua inesgotável fortuna está sempre empenhado em perder o mundo)
Depois de discutir bem todos os termos da transação, o diabo entregou a Pedro
500 contos e, conforme ficara combinado, Pedro regressou para a cidade
acompanhado por um diabinho, que tinha por missão carregar a alma da velha logo
que esta morresse. "E bem que era uma velha!" — exclamava o diabo, esfregando as
mãos: "Não custará a vir cá para baixo!"
Para maior fortuna de Pedro, o diabinho que o acompanhava era bobo. Chegaram
os viajantes a uma campina e então Malasartes, pretextando que a cidade ficava
muito longe e que a velha não podia apanhar vento, mandou o diabinho abrir um
buraco muito fundo e aí colocou-a.
— Se ela morrer nesta cova, — dizia ao emissário das profundas, — não faz
mal; irá mais depressa lá para o braseiro. — O diabinho achou que era verdade e
riu-se com gosto.
Como a noite vinha caindo, ali mesmo acamparam, e logo que raiou o dia, Pedro
explicou ao diabrete que a velha não tinha agüentado, morrendo dentro do buraco,
e pediu-lhe que fosse avisar o diabo. Este logo viu que tinha sido ludibriado,
pois a alma comprada não havia chegado ao inferno, sendo que não podia estar no
céu nem no purgatório. Rubro de raiva, partiu à procura de Pedro e encontrou-o;
mas este sem lhe dar tempo para o menor movimento, mostrou-lhe uma cruz que
trazia consigo. No mesmo instante ouviu-se medonho estrondo, e o diabo
desapareceu numa negra nuvem, tresandando a enxofre.
Malasartes conseguira enganar o próprio diabo. Todo o mundo soube do caso e o
nome de Pedro correu de boca em boca entre mostras de admiração e respeito.
|