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Jangada Brasil - a cara e a alma brasileiras

imaginário

ANO VI - EDIÇÃO 67
Junho 2004

Imaginário
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O escrivão, o juiz e São Pedro, por Gustavo Barroso

Uma aventura de Pedro Malasartes, colhida por Otávio de Araújo Ribeiro

O serpentário, colhida por Barbosa Rodrigues
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Capa
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Festança
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Cancioneiro
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Oficina
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Palhoça
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Colher de Pau
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Panacéia
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Catavento
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Almanaque
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IMAGINÁRIO - Nesta seção, textos sobre lendas e mitos; contos; personagens; fábulas; narrativas populares; seres fantásticos...


Uma aventura de Pedro Malasartes

Colhida em Ouro Preto, MG, por Otávio de Araújo Ribeiro

Pedro Malasartes sempre ouviu dizer que o diabo era a mais esperta criatura do mundo. Desde então, uma idéia fixa dominou-o por completo: enganar o diabo. Dia e noite castigava o bestunto, moendo e remoendo mil e um planos. Certa ocasião, passando por um bairro da cidade, viu numa casa, estirado sobre uma mesa, o corpo de uma velha recém-falecida. Como um raio, surgiu-lhe na mente a luminosa idéia, que ele andava buscando há tanto tempo.

Aproveitando um momento em que não havia ninguém de guarda à defunta, apoderou-se dela e carregou-a para longe. Arranjou dois cavalos arreados, escarranchou num deles a velha morta, amarrando-a solidamente, dando-lhe uma atitude de amazona, cobrindo-a com vistoso xale e pondo-lhe à boca um fumegante cachimbo. Feitos estes preparativos, montou no outro animal e tomou rumo do inferno.

Este era situado lá no fundo de uns grotões da serra, e Malasartes correu mil perigos para conseguir descer até lá com os animais. Mas era hábil cavaleiro e chegou são e salvo. O inferno era um casarão extremamente longo e muito baixo, cujo telhado era todo de folhas de zinco. Aí chegado, Pedro apeou-se, bateu à porta uma, duas, três vezes e ninguém acudiu. Tornou a bater com mais força e nenhuma resposta. Furioso com o silêncio, vendo que o telhado era de zinco, começou a arremessar-lhe pedras, fazendo um barulho medonho.

Foi então que a sombria porta rangeu nos gonzos, surgindo um diabinho que perguntou a Pedro o que desejava. "Falar ao diabo", respondeu. O diabinho desapareceu e daí a momentos apresentou-se Satanás em pessoa. Malasartes, mostrando-lhe a velha, que continuava montada a cavalo e que à frouxa luz daqueles lugares parecia viva, contou ao tinhoso que se achava reduzido a extrema miséria, com a família curtindo fome etc. Sabendo que o diabo comprava almas, trazia ali a sua mãe, cuja alma estava decidido a vender, pois era o único recurso que tinha para salvar a numerosa família dos transes em que se achava. O diabo consultou o livro do inferno e viu que o nome da velha não estava registrado, então pulou de contente e mostrou-se disposto a fechar o negócio. (Conforme a tradição, o diabo é mais do que arquimilionário, e com toda a sua inesgotável fortuna está sempre empenhado em perder o mundo)

Depois de discutir bem todos os termos da transação, o diabo entregou a Pedro 500 contos e, conforme ficara combinado, Pedro regressou para a cidade acompanhado por um diabinho, que tinha por missão carregar a alma da velha logo que esta morresse. "E bem que era uma velha!" — exclamava o diabo, esfregando as mãos: "Não custará a vir cá para baixo!"

Para maior fortuna de Pedro, o diabinho que o acompanhava era bobo. Chegaram os viajantes a uma campina e então Malasartes, pretextando que a cidade ficava muito longe e que a velha não podia apanhar vento, mandou o diabinho abrir um buraco muito fundo e aí colocou-a.

— Se ela morrer nesta cova, — dizia ao emissário das profundas, — não faz mal; irá mais depressa lá para o braseiro. — O diabinho achou que era verdade e riu-se com gosto.

Como a noite vinha caindo, ali mesmo acamparam, e logo que raiou o dia, Pedro explicou ao diabrete que a velha não tinha agüentado, morrendo dentro do buraco, e pediu-lhe que fosse avisar o diabo. Este logo viu que tinha sido ludibriado, pois a alma comprada não havia chegado ao inferno, sendo que não podia estar no céu nem no purgatório. Rubro de raiva, partiu à procura de Pedro e encontrou-o; mas este sem lhe dar tempo para o menor movimento, mostrou-lhe uma cruz que trazia consigo. No mesmo instante ouviu-se medonho estrondo, e o diabo desapareceu numa negra nuvem, tresandando a enxofre.

Malasartes conseguira enganar o próprio diabo. Todo o mundo soube do caso e o nome de Pedro correu de boca em boca entre mostras de admiração e respeito.

(AMARAL, Amadeu. Tradições populares. São Paulo, Instituto Progresso Editorial, 1948, p.318-319)