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Jangada Brasil - a cara e a alma brasileiras

imaginário

ANO VI - EDIÇÃO 67
Junho 2004

Imaginário
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O escrivão, o juiz e São Pedro, por Gustavo Barroso

Uma aventura de Pedro Malasartes, colhida por Otávio de Araújo Ribeiro

O serpentário, colhida por Barbosa Rodrigues
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Capa
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Festança
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Cancioneiro
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Oficina
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Palhoça
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Colher de Pau
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Panacéia
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Catavento
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Almanaque
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IMAGINÁRIO - Nesta seção, textos sobre lendas e mitos; contos; personagens; fábulas; narrativas populares; seres fantásticos...


O escrivão, o juiz e São Pedro

Gustavo Barroso

Não há gente que sofra mais terríveis molejos por parte do nordestino do que a do fisco e do foro, visto como está convencido de ser por ela esfolado por todas as formas.

A propósito de tabeliães e escrivães, conta que um destes, depois de morto, foi bater à porta do céu. São Pedro negou-se a deixá-lo entrar; mas tantas lamúrias fez e misérias contou que o santo, penalizado e, ao mesmo tempo, sem querer voltar atrás do que dissera, lhe impôs uma condição:

— Só te deixo entrar se vieres montado a cavalo.

O escrivão, muito atrapalhado, desceu a imensa ladeira que levava do céu ao inferno, matutando onde encontraria um cavalo por aqueles ermos. De repente, quando já desesperava de achar um, avistou o juiz com quem servira no mundo e sob cuja alçada e vara  roubara a valer a clientela, o qual era por ele, no íntimo, considerado uma cavalgadura. Perguntou-lhe aonde se dirigia, depois de se admirar que também tivesse morrido. O outro respondeu com ênfase que subia para o céu.

— Não perca seu tempo, — aconselhou-lhe o ex-serventuário público. — Se eu não entrei, que fui somente escrivão, como há de entrar o senhor, que foi o juiz? Estou voltando do portão lá de cima e São Pedro me declarou que só nos deixa entrar, se formos juntos e eu montado no senhor. É uma simples questão de prática de humildade, para dar exemplo ao pessoal do foro.

O juiz acreditou na lábia do subordinado e permitiu que o cavalgasse. Quando chegaram à porta do céu, São Pedro ordenou, ríspido:

— Aqui só entra o escrivão. O cavalo dele fica do lado de fora.

Vingativa ironia popular, mostrando que, se o escrivão é capaz de montar no juiz no outro mundo, que não será neste!...

(BARROSO, Gustavo. Ao som da viola (folclore); nova edição correta e aumentada. Rio de Janeiro, 1949, p.515-516)