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Eurico Nogueira França
Certo que ninguém terá ido à festa de São João promovida pelo SAPS — e a
concorrência foi grande — no parque do seu restaurante popular do Leblon, sem sentir
ao vivo o encanto dos nossos brinquedos folclóricos, sem amá-los como expressão
característica de brasilidade. E sem compreender também a missão do folclorista,
o relevante e amoroso sentido de que se revestem a pesquisa, a coleta, o estudo
e a interpretação dos nossos documentos tradicionais. As danças dramáticas,
sabe-se de norte a sul do país, tendem, a pouco e pouco, a extinguir-se. As
capitais e cidade do norte estão mais preservadas, resguardam melhor essa
espécie de tesouro nativo. As veleidades de "progresso", porém, a ambição de
parecer "civilizadas", fazem com que até autoridades locais, prefeitos que, como
diz Mário de Andrade, "viajaram na av. Rio Branco", combatam essas práticas de
interesse tão vivo. Causa admiração e louvor, por isso, que ressurja um
bumba-meu-boi de dentro de uma noite de São João no Rio de Janeiro, na capital
cosmopolita, sem divertimento, e distante do Brasil antigo, genuíno e íntimo.
Menos surpresa nos causa que essa festa tenha sido organizada pelo SAPS, porque
também dar o do espírito... E não se trata mesmo da primeira iniciativa do SAPS
em pró do que chamarei, genericamente, de cultura musical do povo. O SAPS, que
busca solucionar um dos principais problemas populares, fornecendo aos
trabalhadores alimento economicamente acessível, e que se norteia por
princípios de ciência da nutrição — tem em funcionamento uma discoteca e formou,
há pouco, um conjunto orfeônico.
Entre seus funcionários graduados, houve alguém que cantara e dançara o
bumba-meu-boi na cidade do norte, creio que do Pará, onde nascera ou vivia, e
se propôs a restaurá-lo para o nosso público. Já assisti a esse auto em uma
cidadezinha perdida no interior do Ceará, mas em janeiro, fora da época própria,
e reduzido a seus elementos mais simples. Trata-se mesmo de um brinquedo de São
João, de uma suíte cuja extensão e riqueza variam, girando em torno dos
episódios da morte e ressurreição do grande animal que nos dá primeiro a força,
a resistência dos músculos, a fidelidade e a paciência bovinas, e depois a
própria carne.
A reconstituição do bumba-meu-boi que o SAPS promoveu teve saboroso colorido e
expressiva diversidade musical. Numeroso grupo de homens e mulheres, com trajes
típicos, discretamente estilizados, no amplo terreno da rua Dias Ferreira,
dispôs-se para suas evoluções em largo circuito, no centro do qual estavam o
boi, os dois cavalinhos, e onde iriam atuar as personagens humanas do brinquedo.
Aquele coro misto, a uma voz, fazendo cada um de seus componentes o singelo
acompanhamento rítmico com duas pequenas peças de madeira, entoou linhas
melódicas de significação vária e constratante — ora vivazes, de índole
coreográfico, ora fundamente lamentosas, ora, ainda, dentro do espírito das
nossas cirandas. De entremeio às cantorias do boi, a representação,
propriamente, despertou intensa curiosidade, não escondendo o que tinha de
humorística. Do ciclo dos nossos bailados populares, sempre de raízes
primitivas, místicas, o bumba-meu-boi não há muito ainda se encontrava
espalhado por todo o Brasil. Ao estudar As danças dramáticas do Brasil, um
magistral ensaio que abre o tomo 6 do Boletim latino americano de música,
Mário de Andrade faz ao bumba-meu-boi seguidas alusões, conforme se vê da
seguinte passagem: "É curiosíssimo constatar que em grande número das nossas
danças dramáticas se dá morte e ressurreição da entidade principal do bailado.
No bumba-meu-boi, nos caboclinhos, nos cordões de bichos amazônicos, ainda nos
congos e cucumbis e nos reisados isso acontece. Se trata duma noção mística
primitiva, encontrável nos ritmos do culto vegetal e animal das estações do ano,
e que culmina sublimementente espiritualizado na morte e ressurreição do deus
cristão, Nas danças dramáticas de origem proximamente e diretamente ibérica, nos
pastoris e cheganças, há somente o elemento fundamental de qualquer drama (aliás
assimilável a noção primária de morte e ressureição...), isto é, a luta dum bem
contra um mal, que os bailados coletivos, e por isto infensos aos sentimentos
individualistas (principalmente amorosos), caracterizavam na noção de perigo e
salvação. Assim é que nas cheganças, surgem os episódios da tempestade, do
piloto ferido, o capitão sorteado pra morrer na nau Catarineta, o guarda-marinha
preso como contrabandista. Nos pastoris, algumas vezes nem isso. O complexo de
morte e ressurreição não aparece nestas danças dramáticas oriundas de
civilizações mais tecnicamente avançada. É justo nos bailados mais próximos das
criaturas primitivas, nos congos de origem negra, nos caboclinhos de inspiração
amerindia, e nos reisados e cordões de bichos de sobrevivência do culto animal,
que se dá a morte e ressurreição. A importância do boi na vida brasileira, do
chefe do organismo tribal, da mourama na conquista das terras, deu ao boi, ao
chefe, ao mouro, um valor místico, um valor religioso, esotérico às vezes, e
sempre simbólico, que foi o convite à criação das danças dramáticas. Foi a
finalidade religiosa que deu aos bailados a sua origem primeira e interessada, a
sua razão de ser psicológica e a sua tradicionalização.
Sobre esse núcleo religioso, o elemento cômico, em uma espécie de deformação
legítima ou de evolução do brinquedo, tende a preponderar. Foi por isso que
ainda anteontem vimos assumir maior destaque, no bumba-meu-boi, os episódios
do médico, que estudou nas "Oropas", impotente para chamar à vida o "boi de
fama", e o do pagé, que opera a ressurreição do bicho. Também como não é raro
ocorrer em nossos autos, alusões a temas da atualidade se infiltram no
entrecho. Foi o que se verificou quando o boi acabara de ser morto, e de dentro
do brinquedo alguém disse que sua carne seria oferecida pelo major Umberto
Peregrino, diretor dos SAPS, em um churrasco aos trabalhadores do Brasil.
Belo aquele canto que, depois da morte do boi, se elevaria na noite tranqüila de
junho! Não menos, o "canto de guerra" de bois, quase ao fim do bailado, é
singularmente atrativo. Essa reconstituição da nossa magnífica dança dramática
representa, sem dúvida, um exemplo a ser carinhosamente seguido por instituições
culturais brasileiras.
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