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Jangada Brasil - a cara e a alma brasileiras

festança

ANO VI - EDIÇÃO 67
Junho 2004

Festança
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Festa de São Pedro no Barro Branco , por Teotônio Brandão Vilela

O Bumba-meu-boi, por Eurico Nogueira França

O enterro da cabeça do boi, por Abelardo Duarte
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Capa
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Cancioneiro
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Imaginário
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Oficina
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Palhoça
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Colher de Pau
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Panacéia
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Catavento
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Almanaque
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FESTANÇA - Nesta seção, textos sobre festas populares, religiosas e profanas; folguedos; danças; datas comemorativas; instrumentos musicais...


O bumba-meu-boi

Eurico Nogueira França

Certo que ninguém terá ido à festa de São João promovida pelo SAPS — e a concorrência foi grande — no parque do seu restaurante popular do Leblon, sem sentir ao vivo o encanto dos nossos brinquedos folclóricos, sem amá-los como expressão característica de brasilidade. E sem compreender também a missão do folclorista, o relevante e amoroso sentido de que se revestem a pesquisa, a coleta, o estudo e a interpretação dos nossos documentos tradicionais. As danças dramáticas, sabe-se de norte a sul do país, tendem, a pouco e pouco, a extinguir-se. As capitais e cidade do norte estão mais preservadas, resguardam melhor essa espécie de tesouro nativo. As veleidades de "progresso", porém, a ambição de parecer "civilizadas", fazem com que até autoridades locais, prefeitos que, como diz Mário de Andrade, "viajaram na av. Rio Branco", combatam essas práticas de interesse tão vivo. Causa admiração e louvor, por isso, que ressurja um bumba-meu-boi de dentro de uma noite de São João no Rio de Janeiro, na capital cosmopolita, sem divertimento, e distante do Brasil antigo, genuíno e íntimo. Menos surpresa nos causa que essa festa tenha sido organizada pelo SAPS, porque também dar o do espírito... E não se trata mesmo da primeira iniciativa do SAPS em pró do que chamarei, genericamente, de cultura musical do povo. O SAPS, que busca solucionar um dos principais problemas populares, fornecendo aos trabalhadores alimento economicamente acessível, e que se norteia por princípios de ciência da nutrição — tem em funcionamento uma discoteca e formou, há pouco, um conjunto orfeônico.

Entre seus funcionários graduados, houve alguém que cantara e dançara o bumba-meu-boi na cidade do norte, creio que do Pará, onde nascera ou vivia, e se propôs a restaurá-lo para o nosso público. Já assisti a esse auto em uma cidadezinha perdida no interior do Ceará, mas em janeiro, fora da época própria, e reduzido a seus elementos mais simples. Trata-se mesmo de um brinquedo de São João, de uma suíte cuja extensão e riqueza variam, girando em torno dos episódios da morte e ressurreição do grande animal que nos dá primeiro a força, a resistência dos músculos, a fidelidade e a paciência bovinas, e depois a própria carne.

A reconstituição do bumba-meu-boi que o SAPS promoveu teve saboroso colorido e expressiva diversidade musical. Numeroso grupo de homens e mulheres, com trajes típicos, discretamente estilizados, no amplo terreno da rua Dias Ferreira, dispôs-se para suas evoluções em largo circuito, no centro do qual estavam o boi, os dois cavalinhos, e onde iriam atuar as personagens humanas do brinquedo. Aquele coro misto, a uma voz, fazendo cada um de seus componentes o singelo acompanhamento rítmico com duas pequenas peças de madeira, entoou linhas melódicas de significação vária e constratante — ora vivazes, de índole coreográfico, ora fundamente lamentosas, ora, ainda, dentro do espírito das nossas cirandas. De entremeio às cantorias do boi, a representação, propriamente, despertou intensa curiosidade, não escondendo o que tinha de humorística. Do ciclo dos nossos bailados populares, sempre de raízes primitivas, místicas, o bumba-meu-boi não há muito ainda se encontrava espalhado por todo o Brasil. Ao estudar As danças dramáticas do Brasil, um magistral ensaio que abre o tomo 6 do Boletim latino americano de música, Mário de Andrade faz ao bumba-meu-boi seguidas alusões, conforme se vê da seguinte passagem: "É curiosíssimo constatar que em grande número das nossas danças dramáticas se dá morte e ressurreição da entidade principal do bailado. No bumba-meu-boi, nos caboclinhos, nos cordões de bichos amazônicos, ainda nos congos e cucumbis e nos reisados isso acontece. Se trata duma noção mística primitiva, encontrável nos ritmos do culto vegetal e animal das estações do ano, e que culmina sublimementente espiritualizado na morte e ressurreição do deus cristão, Nas danças dramáticas de origem proximamente e diretamente ibérica, nos pastoris e cheganças, há somente o elemento fundamental de qualquer drama (aliás assimilável a noção primária de morte e ressureição...), isto é, a luta dum bem contra um mal, que os bailados coletivos, e por isto infensos aos sentimentos individualistas (principalmente amorosos), caracterizavam na noção de perigo e salvação. Assim é que nas cheganças, surgem os episódios da tempestade, do piloto ferido, o capitão sorteado pra morrer na nau Catarineta, o guarda-marinha preso como contrabandista. Nos pastoris, algumas vezes nem isso. O complexo de morte e ressurreição não aparece nestas danças dramáticas oriundas de civilizações mais tecnicamente avançada. É justo nos bailados mais próximos das criaturas primitivas, nos congos de origem negra, nos caboclinhos de inspiração amerindia, e nos reisados e cordões de bichos de sobrevivência do culto animal, que se dá a morte e ressurreição. A importância do boi na vida brasileira, do chefe do organismo tribal, da mourama na conquista das terras, deu ao boi, ao chefe, ao mouro, um valor místico, um valor religioso, esotérico às vezes, e sempre simbólico, que foi o convite à criação das danças dramáticas. Foi a finalidade religiosa que deu aos bailados a sua origem primeira e interessada, a sua razão de ser psicológica e a sua tradicionalização.

Sobre esse núcleo religioso, o elemento cômico, em uma espécie de deformação legítima ou de evolução do brinquedo, tende a preponderar. Foi por isso que ainda anteontem vimos assumir maior destaque, no bumba-meu-boi, os episódios do médico, que estudou nas "Oropas", impotente para chamar à vida o "boi de fama", e o do pagé, que opera a ressurreição do bicho. Também como não é raro ocorrer em nossos autos, alusões a temas da atualidade se infiltram no entrecho. Foi o que se verificou quando o boi acabara de ser morto, e de dentro do brinquedo alguém disse que sua carne seria oferecida pelo major Umberto Peregrino, diretor dos SAPS, em um churrasco aos trabalhadores do Brasil.

Belo aquele canto que, depois da morte do boi, se elevaria na noite tranqüila de junho! Não menos, o "canto de guerra" de bois, quase ao fim do bailado, é singularmente atrativo. Essa reconstituição da nossa magnífica dança dramática representa, sem dúvida, um exemplo a ser carinhosamente seguido por instituições culturais brasileiras.

(França, Eurico Nogueira. "O bumba-meu-boi". Correio do Manhã. Rio de Janeiro, 25 de junho de 1948)