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Jangada Brasil - a cara e a alma brasileiras

festança

ANO VI - EDIÇÃO 67
Junho 2004

Festança
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Festa de São Pedro no Barro Branco , por Teotônio Brandão Vilela

O Bumba-meu-boi, por Eurico Nogueira França

O enterro da cabeça do boi, por Abelardo Duarte
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Capa
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Cancioneiro
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Imaginário
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Oficina
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Palhoça
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Colher de Pau
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Panacéia
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FESTANÇA - Nesta seção, textos sobre festas populares, religiosas e profanas; folguedos; danças; datas comemorativas; instrumentos musicais...


Festa de São Pedro no Barro Branco

Teotônio Brandão Vilela
(Andanças pela crônica. Maceió, Departamento de Divulgação de Cultura, 1963, p.11)

 

Nesse dia de São Pedro eu só me lembro da igrejinha do engenho do Barro Branco. Às seis horas da tarde, o velho Constantino — sempre velho e conselheiro desde quando o conheci e agregado à casa-grande há não sei que anos — subia a escadinha e puxava a corda do sino. Que coisa bonita e pungente um sino sozinho a chamar no descampado! Os meninos cessavam a correria e o caboclo distante tirava o chapéu e o transeuunte se benzia de olhos pregados na serenidade mística do sacristão. Seis badaladas!

Perto, Zé-Firmino acabava de bater o último pau da porteira dos bezerros e a vaca recém-parida não se conforma com a reclusão violenta do filho. O vaqueiro olha para cima, para a igrejinha, e com o mesmo de couro na mão, tirado em respeito às ave-marias, castiga com brandura o animal teimoso. — Tá maluca, Craúna, olhe o toque do sino!

Zé Guida, mais em baixo, destaca a verdadeira brocha da boiada e ainda descoberto do vistoso chapelão de vaqueta, em atenção ao sagrado sinal, descansa o braço numgesto carinhoso na garupa gorda do boi-de-coice Marinheiro.

Aquele da boca-da-noite era supremo! Até a dona da casa, de braços arregaçados enchendo pamonha na cozinha, suspende o trabalho atrasado, fita as telhas encardidas e através delas as badaladas suaves do fim do dia. Capitão Gé encerra as ordens sobre a limpeza do armazém do pagode e rápido chama a atenção dos trabalhadores: — Olhem o sino!

O primeiro grupo de cavalheiros vinha desembestado espadanando lama na várzea do Palmeiral. Parecia a fúria de um castigo. Os animais eram de uma cor só. Na Mata do sebo todo bicho foi abaixo; não houve quem se agüentasse na ladeira. Nem burro, nem cavalo. A passarinha dolorida de tanto chapinhar na lama dos rigorosos dias de inverno estava de não suportar mais a coragem e a decisão do animal mais destemido. Por isso os joelhos trêmulos dobravam-se e os grossos aros das brides chafurdavam "camaliões" intermináveis. Gemendo e gritando o pedaço pior foi vencido. Restava que no riacho os cavaleiros limpassem os arreios, a própria cara e as botas. Não ficava bem chegar naquelas condições!

E quando em disparada aprontaram na porteira do cercado, o silêncio grande e apostólico que a capelinha pregava fê-los calmos, serenos e mudos. Apenas as cavalgaduras resfolegavam, de pescoço espichado.

Constantino desce, sizudo e majestoso, e vai acomodar as montarias. Tinha que marcar bem na vista os arreios e em seguida evitar aproximações desagradáveis entre os cavalos. Aqueles diabos vinham cansados mas quemquiser ia ver mais tarde como se viravam numas cobras! Precisava ter cuidado nas cordas e no amarradio.

Feito isso, já estava na hora a primeira chamada para o terço. A igrejinha toda iluminada, parecia mesmo um brinquedo de Nossa Senhora. A festa de fora era São Pedro, aquela era da santa. Não tinha importância que de uma se passasse à outra; tanto assim que as pessoas que respondiam à ladainha eram as mesmas que iriam responder o coro do pagode. Entre o armazém e a capela não havia problemas; a natureza humana se sentia plena e nobremente contentada. O mesmo Constantino que dominava as almas na corda do sino, estendia também a sua autoridade sobre os efeitos do ganzá do cantador nos corações que se agitavam na poeira do trupé.

Na terceira chamada todo mundo estava de joelhos. A fogueira acesa queimava tranqüilamente sem ninguém. De lá só se ouvia o estalo da madeira ardendo. E ao redor, pelo terreiro imenso, as dálias brancas e as boa-noite — coradas da luz vermelha das achas de pininga — recebiam o sopro manso e gracioso de um velho bom e descuidado. No primeiro degrau do alpendre da casa, alguémmais curioso teria visto um casal de "louva-a-deus", bem sério e bem espigado, a fitar labaredas sem gesto e sem vontade.

Um curioso trouxe da rua uma instalação de bateria e o altar, além das flores, dos castiçais, da perfeição mesma da imagem de Nossa Senhora — era um deslumbramento com as lâmpadas acesas, que ressaltavam a rica coroa da padroeira. Até hoje já correram mais de cem anos do tempo que Pedro José da Cruz satisfez a caprichosa pretensão de levar para o Barro Branco essa raridade provinciana.

Depois do terço cantado, a ladainha cantada. O joelho arde e queima como fogo, no tijolo duro. Mas ninguém se mexe. Uns sentem cãimbras na batata das pernas; outros dores no espinhaço e no pescoço. Quem calçou uma botina reiúna está desgraçado: se não tirar logo, adeus pagode! Mas a reza vai terminando: as última sorações recebem num crescendo a colaboração unânime de todas as vozes. Há uma gravidade imponente nesse fim! Depois, ouve-se um estalar contínuo de juntas e suspiros e sopros repetidos. Constantino dá um psiu enérgico e longo! Restava ainda beijar as imagens do senhor São Pedro e da Sagrada Família.

Enquanto da calçada o menino fitava admirado aquele mundo mágico de belezas, já do armazém lhe chegava a voz nítida e estridente do cantador:

É hoje que a palha da cana voa
Ô menina
É hoje que a palha da cana vai avoá...

E voava mesmo. Mas de certo no rastro das ladainhas que já haviam subido.

(Em CONDÉ, José. A cana-de-açúcar na vida brasileira; textos coligidos. Rio de Janeiro, Instituto do Açúcar e do Álcool, 1971/1972. Coleção canavieira, 7, p.255-257)