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Teotônio Brandão Vilela
(Andanças pela crônica. Maceió, Departamento de Divulgação de Cultura,
1963, p.11)
Nesse dia de São Pedro eu só me lembro da igrejinha do engenho do Barro
Branco. Às seis horas da tarde, o velho Constantino — sempre velho e conselheiro
desde quando o conheci e agregado à casa-grande há não sei que anos — subia a
escadinha e puxava a corda do sino. Que coisa bonita e pungente um sino sozinho
a chamar no descampado! Os meninos cessavam a correria e o caboclo distante
tirava o chapéu e o transeuunte se benzia de olhos pregados na serenidade
mística do sacristão. Seis badaladas!
Perto, Zé-Firmino acabava de bater o último pau da porteira dos bezerros e a
vaca recém-parida não se conforma com a reclusão violenta do filho. O vaqueiro
olha para cima, para a igrejinha, e com o mesmo de couro na mão, tirado em
respeito às ave-marias, castiga com brandura o animal teimoso. — Tá maluca,
Craúna, olhe o toque do sino!
Zé Guida, mais em baixo, destaca a verdadeira brocha da boiada e ainda
descoberto do vistoso chapelão de vaqueta, em atenção ao sagrado sinal, descansa
o braço numgesto carinhoso na garupa gorda do boi-de-coice Marinheiro.
Aquele da boca-da-noite era supremo! Até a dona da casa, de braços
arregaçados enchendo pamonha na cozinha, suspende o trabalho atrasado, fita as
telhas encardidas e através delas as badaladas suaves do fim do dia. Capitão Gé
encerra as ordens sobre a limpeza do armazém do pagode e rápido chama a atenção
dos trabalhadores: — Olhem o sino!
O primeiro grupo de cavalheiros vinha desembestado espadanando lama na várzea
do Palmeiral. Parecia a fúria de um castigo. Os animais eram de uma cor só. Na
Mata do sebo todo bicho foi abaixo; não houve quem se agüentasse na ladeira. Nem
burro, nem cavalo. A passarinha dolorida de tanto chapinhar na lama dos
rigorosos dias de inverno estava de não suportar mais a coragem e a decisão do
animal mais destemido. Por isso os joelhos trêmulos dobravam-se e os grossos
aros das brides chafurdavam "camaliões" intermináveis. Gemendo e gritando o
pedaço pior foi vencido. Restava que no riacho os cavaleiros limpassem os
arreios, a própria cara e as botas. Não ficava bem chegar naquelas condições!
E quando em disparada aprontaram na porteira do cercado, o silêncio grande e
apostólico que a capelinha pregava fê-los calmos, serenos e mudos. Apenas as
cavalgaduras resfolegavam, de pescoço espichado.
Constantino desce, sizudo e majestoso, e vai acomodar as montarias. Tinha que
marcar bem na vista os arreios e em seguida evitar aproximações desagradáveis
entre os cavalos. Aqueles diabos vinham cansados mas quemquiser ia ver mais
tarde como se viravam numas cobras! Precisava ter cuidado nas cordas e no
amarradio.
Feito isso, já estava na hora a primeira chamada para o terço. A igrejinha
toda iluminada, parecia mesmo um brinquedo de Nossa Senhora. A festa de fora era
São Pedro, aquela era da santa. Não tinha importância que de uma se passasse à
outra; tanto assim que as pessoas que respondiam à ladainha eram as mesmas que
iriam responder o coro do pagode. Entre o armazém e a capela não havia
problemas; a natureza humana se sentia plena e nobremente contentada. O mesmo
Constantino que dominava as almas na corda do sino, estendia também a sua
autoridade sobre os efeitos do ganzá do cantador nos corações que se agitavam na
poeira do trupé.
Na terceira chamada todo mundo estava de joelhos. A fogueira acesa queimava
tranqüilamente sem ninguém. De lá só se ouvia o estalo da madeira ardendo. E ao
redor, pelo terreiro imenso, as dálias brancas e as boa-noite — coradas da luz
vermelha das achas de pininga — recebiam o sopro manso e gracioso de um velho
bom e descuidado. No primeiro degrau do alpendre da casa, alguémmais curioso
teria visto um casal de "louva-a-deus", bem sério e bem espigado, a fitar
labaredas sem gesto e sem vontade.
Um curioso trouxe da rua uma instalação de bateria e o altar, além das
flores, dos castiçais, da perfeição mesma da imagem de Nossa Senhora — era um
deslumbramento com as lâmpadas acesas, que ressaltavam a rica coroa da
padroeira. Até hoje já correram mais de cem anos do tempo que Pedro José da Cruz
satisfez a caprichosa pretensão de levar para o Barro Branco essa raridade
provinciana.
Depois do terço cantado, a ladainha cantada. O joelho arde e queima como
fogo, no tijolo duro. Mas ninguém se mexe. Uns sentem cãimbras na batata das
pernas; outros dores no espinhaço e no pescoço. Quem calçou uma botina reiúna
está desgraçado: se não tirar logo, adeus pagode! Mas a reza vai terminando: as
última sorações recebem num crescendo a colaboração unânime de todas as vozes.
Há uma gravidade imponente nesse fim! Depois, ouve-se um estalar contínuo de
juntas e suspiros e sopros repetidos. Constantino dá um psiu enérgico e longo!
Restava ainda beijar as imagens do senhor São Pedro e da Sagrada Família.
Enquanto da calçada o menino fitava admirado aquele mundo mágico de belezas,
já do armazém lhe chegava a voz nítida e estridente do cantador:
É hoje que a palha da cana voa
Ô menina
É hoje que a palha da cana vai avoá...
E voava mesmo. Mas de certo no rastro das ladainhas que já haviam subido.
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