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Jangada Brasil - a cara e a alma brasileiras

colher de pau

ANO VI - EDIÇÃO 67
Junho 2004

Colher de Pau
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O abastecimento de víveres na antiga cidade do Salvador, por Edison Carneiro

Receitas a base de peixe

Da abundância de mantimentos, e de todo o usual que hoje há nas minas, e do pouco caso que se faz dos preços extraordinariamente altos, por André João Antonil
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Capa
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Festança
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Cancioneiro
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Imaginário
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Oficina
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Palhoça
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Panacéia
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Catavento
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Almanaque
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COLHER DE PAU - Nesta seção, textos sobre receitas tradicionais; bebidas típicas; alimentos brasileiros; costumes à mesa; horta, pomar e criação; crenças, costumes e tabus relacionados à alimentação e alimentos...


Da abundância de mantimentos, e de todo o usual que hoje há nas minas, e do pouco caso que se faz dos preços extraordinariamente altos

André João Antonil

Sendo a terra que dá ouro esterilíssima de tudo o que se há mister para a vida humana, e não menos estéril a maior parte dos caminhos das minas, não se pode crer o que padeceram ao princípio os mineiros por falta de mantimentos, achando-se não poucos mortos com uma espiga de milho na mão, sem terem outro sustento. Porém, tanto que se viu a abundância do ouro que se tirava e a largueza com que se pagava tudo o que lá ia, logo se fizeram estalagens e logo começaram os mercadores a mandar às minas o melhor que se chega nos navios do Reino e de outras partes, assim de mantimentos, como de regalo e de pomposo para se vestirem, além de mil bugiarias de França, que lá também foram dar. E, a este respeito, de todas as partes do Brasil, se começou a enviar tudo o que dá a terra, com lucro não somente grande, mas excessivo. E, não havendo nas minas outra moeda mais que ouro em pó, o menos que se pedia e dava por qualquer cousa eram oitavas. Daqui se seguiu mandarem-se às minas gerais as boiadas de Paranaguá, e às do rio das Velhas as boiadas dos campos da Bahia, e tudo o mais que os moradores imaginaram poderia apetecer-se de qualquer gênero de cousas naturais e industriais, adventícias e próprias. E, ainda que hoje os preços sejam mais moderados, contudo porei aqui um rol, feito sinceramente por quem assistiu nas gerais três anos, dos preços das cousas que por comum assento lá se vendiam no ano 1703, repartindo-o em três ordens, a saber: os preços que pertencem às cousas comestíveis; o do vestuário e armas; e os dos escravos e cavalgaduras, que são os seguintes:

Preços das cousas comestíveis

Por uma rês, oitenta oitavas.
Por um boi, cem oitavas.
Por uma mão de sessenta espigas de milho, trinta oitavas.
Por um alqueire de farinha de mandioca, quarenta oitavas.
Por seis bolos de farinha de milho, três oitavas.
Por um paio, três oitavas.
Por um presunto de oito libras, dezesseis oitavas.
Por um pastel pequeno, uma oitava.
Por uma libra de manteiga de vaca, duas oitavas.
Por uma galinha, três ou quatro oitavas.
Por seis libras de carne de vaca, uma oitava.
Por um queijo da terra, três ou quatro oitavas, conforme o peso.
Por um queijo flamengo, dezesseis oitavas.
Por um queijo de Alentejo, três e quatro oitavas.
Por uma boceta de marmelada, três oitavas.
Por um frasco de confeitos de quatro libras, dezasseis oitavas.
Por uma cara de açúcar de uma arroba, 32 oitavas.
Por uma libra de cidrão, três oitavas.
Por um barrilote de água ardente, carga de um escravo, cem oitavas.
Por um barrilote de vinho, carga de um escravo, duzentas oitavas.
Por um barrilote de azeite, duas libras.
Por quatro oitavas de tabaco em pó com cheiro, uma oitava.
Por seis oitavas de tabaco sem cheiro, uma oitava.
Por uma vara de tabaco em corda, três oitavas.
 

Preço das cousas que pertencem ao vestuário e armas

Por uma casaca de baeta ordinária, doze oitavas.
Por uma casaca de pano fino, vinte oitavas.
Por uma veste de seda, dezasseis oitavas.
Por uns calções de pano fino, nove oitavas.
Por uns calções de seda, doze oitavas.
Por uma camisa de linho, quatro oitavas.
Por umas ceroulas de linho, três oitavas.
Por um par de meias de seda, oito oitavas.
Por um par de sapatos de cordovão, cinco oitavas.
Por um chapéu fino de castro, doze oitavas.
Por um ordinário, seis oitavas.
Por uma carapuça de seda, quatro ou cinco oitavas.
Por uma carapuça de pano forrada de seda, cinco oitavas.
Por uma boceta de tartaruga para tabaco, seis oitavas.
Por uma boceta de prata de relevo para tabaco, se tem oito oitavas de prata, dão dez ou doze, de ouro, conforme o feitio dela.
Por uma espingarda sem prata, dezesseis oitavas.
Por uma espingarda bem feita e prateada, cento e vinte oitavas.
Por uma pistola ordinária, dez oitavas.
Por uma pistola prateada, quarenta oitavas.
Por uma faca de ponta com cabo curioso, seis oitavas.
Por um canivete, duas oitavas.
Por uma tesoura, duas oitavas.
 

E toda a bugiaria que vem de França e de outras partes, vende-se conforme o desejo que mostram ter dela os compradores.
 

Preços dos escravos e das cavalgaduras

Por um negro bem feito, valente e ladino, trezentas oitavas.
Por um molecão, duzentas e cinqüenta oitavas.
Por um moleque, cento e vinte oitavas.
Por um crioulo bom oficial, quinhentas oitavas.
Por um mulato de partes, ou oficial, quinhentas oitavas.
Por um bom trombeteiro, quinhentas oitavas.
Por uma mulata de partes, seiscentas e mais oitavas.
Por uma negra ladina cozinheira, trezentas e cinqüenta oitavas.
Por um cavalo sendeiro, cem oitavas.
Por um cavalo andador, duas libras de ouro.
 

E estes preços, tão altos e tão correntes nas minas, foram causa de subirem os preços de todas as cousas, como se experimenta nos portos das cidades e vilas do Brasil, e de ficarem desfornecidos muitos engenhos de açúcar das peças necessárias e de padecerem os moradores grande carestia de mantimentos, por se levarem quase todos aonde vendidos hão de dar maior lucro.

 

[1711]

(ANTONIL, André João. Cultura e opulência do Brasil. 3ª ed.. Belo Horizonte; São Paulo, Editora Itatiaia; Editora da Universidade de São Paulo, 1982. Reconquista do Brasil (nova série), 70, parte 3, cap.7, p.169-171)