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Jangada Brasil - a cara e a alma brasileiras

colher de pau

ANO VI - EDIÇÃO 67
Junho 2004

Colher de Pau
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O abastecimento de víveres na antiga cidade do Salvador, por Edison Carneiro

Receitas a base de peixe

Da abundância de mantimentos, e de todo o usual que hoje há nas minas, e do pouco caso que se faz dos preços extraordinariamente altos, por André João Antonil
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Festança
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Cancioneiro
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COLHER DE PAU - Nesta seção, textos sobre receitas tradicionais; bebidas típicas; alimentos brasileiros; costumes à mesa; horta, pomar e criação; crenças, costumes e tabus relacionados à alimentação e alimentos...


O abastecimento de víveres na antiga cidade do Salvador

Edison Carneiro

O abastecimento de víveres estava assegurado aos moradores da cidade, pela bondade da natureza, tanto no trecho escolhido para sede do governo geral como na região em volta.

Nóbrega, deslumbrado, escrevia (1549): "Tem muitos frutos de diversas qualidades e mui saborosos; no mar igualmente muito peixe e bom. Semelham os montes grandes jardins e pomares, que não me lembra ter visto pano de raz tão belo. Nos ditos montes há animais de muitas e diversas feituras, quais nunca conheceu Plínio, nem deles deu notícia, e ervas de diferentes cheiros, muitas e diversas de Espanha..."

Os habitantes seguiam à risca os costumes dos índios.

O alimento básico era a farinha de mandioca ou de pau, assim chamada para se diferençar da farinha de trigo ou do Reino. Havia a farinha fresca, de duração limitada, e a farinha de guerra, mais resistente, embora mais áspera e menos substancial. Da mandioca faziam-se beijus, mais saborosos e digeríveis do que a farinha, tapioca e mingaus. Com o aipim, frabricavam-se bolos semelhantes, no gosto, a pão fresco. A pacova, a banana brasileira, — o figo de Adão, — era muito procurada, segundo Gandavo (1570), "porque assadas verdes passam por mantimento, e quase têm sustância de pão". Havia "muitas castas" de milho, dizia, Fernão Cardim (1601), "e dele fazem pão, vinho e se come assado". A terra abundava em feijões, abóboras e melões e uma enorme variedade de frutos podia matar, ocasionalmente, a fome e a sede dos colonizadores, — umbus, jenipapos, jaboticabas, araçás, mangabas, cajus, maracujás, abacates, mangas, cajás... O brejo, que circundava a cidade pela banda da terra, era terreno excelente para hortaliças.

A armada trouxera alguns pescadores, como Gonçalo Aires, João Fernandes e Francisco Lourenço, mas certamente eram os índios que forneciam a maior parte do peixe aos moradores, conhecedores, como eram, das águas piscosas da baía. Os peixes mais comuns eram o xaréu, a tainha, a pescada, o beijupirá, a alvacora... O mar dava ainda baleias, caramurus ("assados sabem a leitão", notava Fernão Cardim), tartarugas, ostras e uçás, uma espécie de caranguejo, muito consumidos pelos habitantes.

Eram igualmente numerosos e variados os animais de caça — antas, suaçus, cotias, taiaçus, pacas, tatus, capivaras... Os índios, que caçavam esses animais, vinham vendê-los, abatidos ou vivos, na feira, abaixo da porta de Santa Luzia. Os nativos traziam também pássaros de estimação — papagaios, araras, sabiás, tucanos, arapongas, — para escambar com os moradores.

Fazia-se vinho de aipim, de milho, de ananás, de caju.

(Carneiro, Edison. A cidade do Salvador 1549; uma reconstituição histórica. Rio de Janeiro, Organização Simões, 1954, p.100-102)