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Jangada Brasil - a cara e a alma brasileiras

cancioneiro

ANO VI - EDIÇÃO 67
Junho 2004

Cancioneiro
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O boi moleque

Jesus, São Pedro e o ferreiro da maldição, cordel de Franscico Sales Arêda

Na praia da Itatinga
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Capa
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Festança
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Imaginário
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Oficina
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Palhoça
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Colher de Pau
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Panacéia
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Catavento
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Almanaque
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CANCIONEIRO: Nesta seção, textos sobre música regional; literatura de cordel; cantos de trabalho; poesia popular; desafios; romances; cantos religiosos; quadras, pasquins...


O boi moleque

Na fazenda da Boa Água
No termo do Quixadá
Na catinga do Espinheiro
Nas águas do Sitiá
Havia um boi afamado
Que não podiam pegar

Uma vaca Piauí
Do nome de Coração
Deu cria a este bezerro
O qual ficou barbatão
Nunca viu relho ao pescoço
Nem porteira, nem mourão

Nasceu em noventa e quatro
Este cujo mocambeiro
Que não saía à bebida
Nem fora, no tabuleiro
Só com medo do Justino
Que foi seu senhor primeiro

O Justino encomendava
A quem ali campeasse
Se visse o garrote preto
Que o não esperdiçasse
Lhe fizesse o benefício
E, depois, então soltasse

Até ficar boi de um ano
Só vivia amocambado
Não saía ao tabuleiro
Nem mesmo comoutro gado
Só procurava bebida
Sendo da sede obrigado

O poemeto acha-se incompleto, não tendo sido possível apanhar as estrofes que faltam entre esta e a que a seguir se publica. Mocambeiro é o boi velhaco que vive escondido nos matos, sempre solitário, amocambado. Campear diz-se do vaqueiro que percorre campos e selvas em busca de rezes tresmalhadas ou necessitadas de benefício, isto é, de serem castradas. Esperdiçar por desperdiçar, espantar a rez e perdê-la no mato.

Apresentou-se Cazuzinha
Pra pegar o mocambeiro
E na casa no Justino
Disse ainda no terreiro:
— O nome de seus vaqueiros
Por favor, diga primeiro?

— Estes são José Tomé
Um velhote espertalhão
Aquele Antônio Cambraia
Aquele Hermoge Girão
Qualquer um de todos três
É corda de barbatão!

No outro dia, bem cedo
Toca vaqueiro a chegar
Chegou José Serafim
Com dois filhos, pra ajudar
Chegou mais Luiz Ferreira
Que era o fama do lugar

Seu Hermoge, disse, então:
— Na várzea da Jitirana
Se a verdade não me mente
E o espírito não me engana
O boi levantou-se agora
Da sombra duma umburana

E, logo, sem dizer nada
Pegou pernas ao Picaço
Saiu, quebrando mofumbo
Na forma do seu disfarço
Abrindo a forquilha em banda
Deixando tudo em bagaço!

O resto da vaqueirada
Sai, acamando o cipó
Derreando o marmeleiro
Faxiando o mororó
Quebrando pau pelo meio
Da rama tirando o nó!

Nova interrupção por não haver sido possível colher as estrofes que se deviam seguir a esta. Todas as que aí estão formam precioso documentário da vida sertaneja. A reunião dos vaqueiros, estimulados pela chegada dum de fora para pegar o bicho amontado, é típica. Como é hábito campear encourado, isto é, vestido de couro dentro das catingas, vemos a perfeita descrição da corrida dos vaqueiros mato adentro, em busca do boi, quebrando o mofunco, abrindo as forquilhas, lançando os cipós ao chão, derrubando os marmeleiros silvestres e fasquiando ou faxiando os galhos de mororó. Tudo isso na forma do desfarço, o que quer dizer do seu modo de desacatar. Picaço é o nome do cavalo do vaqueiro Hermógenes ou Hermoge, naturalmente corruptela de Pigarço.

Agora, a estrofe final:

O restante desta história
Não foi possível tirar
Pois muito vaqueiro velho
Depois de bem se enrascar
Se empenhou com o poeta
Pr'ele não continuar...

Como sempre, a ironia matuta sem perder vasa. Esse é um característico para o qual chamo a atenção do leitor em todas ou quase todas as produções folclóricas nordestinas.

(BARROSO, Gustavo. Ao som da viola (folclore); nova edição correta e aumentada. Rio de Janeiro, 1949, p.267-269)