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Jangada Brasil - a cara e a alma brasileiras

Almanaque

ANO VI - EDIÇÃO 67
Junho 2004

Almanaque
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Linguagem muda do namoro, por Hildegardes Viana

O decadente janelar, por Hildegardes Viana

Pelo correio eletrônico

Latrinália

Na parede do Boteco

Escrito em papel-moeda

No estradão

Provérbios

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Capa
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Festança
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Cancioneiro
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Imaginário
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Oficina
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Palhoça
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Colher de Pau
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Panacéia
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Catavento
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Almanaque: Nesta seção, textos sobre variedades; frases de pára-choques de caminhões; passatempos; provérbios; curiosidades; pregões de ambulantes; causos; anedotas; folclore de botequim; latrinália; escritos em papel-moeda; anedotas; charadas...


O decadente janelar

Janelar já foi verbo muito usado, tomado no sentido de estar alguém habitualmente à janela. Janelava quem tomava fresco, quem distraía a vista vendo quem passava ou quem possuía ofício de janelar.

Tomava fresco ou distraía a vista uma infinidade de gente levada por razões diversas: a moça que estava passando dias em casa amiga e se enfadava, perdida na monotonia de um dia imenso, sem outra distração senão aquela, a dona de casa, exausta de tanta labuta, que se dava ao luxo de pôr a cabeça para fora da janela numa tentativa de relaxar a tensão constante; meninos e meninas que não deviam ouvir a conversa inconveniente dos mais velhos e eram mandados para a janela em falta de outro lugar; velhos aposentados ou inválidos, com seus bonezinhos de pala protegendo a cabeça, sentados junto à janela sem olhar a rua, gozando a brisa ou aragem que viesse; velhas, de rosário na mão, rezando silenciosamente ao anoitecer pelos que já se tinham ido.

Janelavam por ofício os que davam plantão na janela, esperando que passasse algum vendedor disto e daquilo ou alguém da família de um conhecido a quem se queria mandar recado; a solteirona, a viúva ou casada sem filhos que matava o tempo em companhia do gatão, que dormia no peitoril, ou do cachorro lulu, que latia assustando os transeuntes, a gente desocupada; a moça namoradeira.

A namoradeira ficava à espera de alguém que a quissesse peruar. Podia ser um rapaz que por acaso transitasse pela rua e olhasse para ela; o estudante da república mais próxima ou aquele outro mais distante; o que respondia com um adeuzinho à provocação lançada, quando o sol estava batendo e ela utilizava o reflexo do espelho para chamar a atenção.

Namoradeiras e desocupadas criavam calos nos cotovelos apesar dos coxins adrede preparados para evitar máculas na região tão duramente castigada. Os coxins consistiam numas almofadinhas longilíneas, de média espessura, confeccionada em qualquer tecido e recheadas com algodão, destinadas a proteger os cotovelos de quem demorasse à janela. Fora das horas de expediente, ficavam sobre a cadeira mais próxima à janela, preparadas para o uso a qualquer momento.

As almofadinhas ou coxins não eram suficientemente eficientes. Era comum o cotovelo preto que identificavam mulher janeleira. Vários processos terapêuticos eram empregados para remoção do calo formado: limão friccionado com açúcar granulado, pedra pômes esfregada com bastante espuma de sabão; diluído em água vinagrada e aplicado em compressas, além de outros menos conhecidos. É justo acrescentar que não produziam a cura desejada por falta de repouso. Os cotovelos não descansavam.

A namoradeira janelava, de preferência, depois das três e meia da tarde, após o banho e a mudança de roupa. Soltava então os papelotes das madeixas, ajeitava o penteado, punha pó de arroz no rosto e corria para o seu devido posto. Neste mesmo horário, das três para as quatro, mesmo as que não eram namoradeiras se postavam à janela para as conversas com vizinhas amigas, que das janelas das casas fronteiras ou laterais discursavam sobre vestidos, festas, planos e possíveis frustrações. Ao entardecer a maioria sumia para o interior das residências. Era a hora do chefe da casa voltar do trabalho, dos irmãos chegarem das aulas. Havia uma espécie de acordo tácito de respeitar ou fazer de conta que respeitavam os elementos masculinos da família.

As namoradeiras voltavam depois do jantar para a posição anterior. Na esquina de pé, a poucos passos da janela, colados à parede, andando de lá para cá ou lendo o jornal debaixo do lampião, um peru à espreita. Um peru podia levar meses e até anos a fazer roda, defronte da janela da eleita, sem uma oportunidade para outra coisa além de boa noite ou até amanhã. Isto quando elas faziam de difíceis e batiam com as bandas da janela em sinal de desfeita. Mas o comum para uma namoradeira era substituir, de imediato, o que desistisse, pois a meta era o casamento e não podia haver perda com choros ou contemplações.

Se o peru já estava acostumado, chegava para perto, dava boa noite e apertava a mão da amada se a janela não era muito alta. Estava iniciado o gargarejo. O peru do lado de fora, cabeça para cima, pescoço espichado, contando vantagem ou meio desconfiado, alerta, pronto a correr ao menor sinal de perigo, fosse passo pelo corredor, saída ou aproximação de, ou contemporizações.

Se a janela era de andar alto o namoro tinha de ser meio de caboclo, com bilhetes jogados, acenos e auxílios diretos de irmãos pequenos e empregadas que serviam de cocada. Se a janela era baixa e o peru podia pegar no queixo da namorada ou se ela era moça sem governo, pondo o namorado na porta para conversar, havia então farta motivação para aquela outra classe de janeleira, que morriam a bisbilhotar a vida dos que não lhe pediam licença para viver como desejavam.

Janelar é verbo destinado a fazer companhia a seus colegas aposentados e que se chamavam arruar, amesendar. Janeleira é substantivo e adjetivo ameaçado de virar arcaísmo. Porque hoje janelar está fora de moda. As janelas servem apenas para iluminar e ventilar as habitações. O namoro foi reformulado e o paquera substituiu com vantagem o peru. Apenas tomar conta da vida alheia é que continuou vicejando nos mesmos moldes. De uma janela quanta coisa se vê...

 

(Viana, Hildegardes. "O decadente janelar". A Tarde. Salvador, 23 de abril de 1968)