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Janelar já foi verbo muito usado, tomado no sentido de estar alguém
habitualmente à janela. Janelava quem tomava fresco, quem distraía a vista vendo
quem passava ou quem possuía ofício de janelar.
Tomava fresco ou distraía a vista uma infinidade de gente levada por razões
diversas: a moça que estava passando dias em casa amiga e se enfadava, perdida
na monotonia de um dia imenso, sem outra distração senão aquela, a dona de casa,
exausta de tanta labuta, que se dava ao luxo de pôr a cabeça para fora da janela
numa tentativa de relaxar a tensão constante; meninos e meninas que não deviam
ouvir a conversa inconveniente dos mais velhos e eram mandados para a janela em
falta de outro lugar; velhos aposentados ou inválidos, com seus bonezinhos de
pala protegendo a cabeça, sentados junto à janela sem olhar a rua, gozando a
brisa ou aragem que viesse; velhas, de rosário na mão, rezando silenciosamente
ao anoitecer pelos que já se tinham ido.
Janelavam por ofício os que davam plantão na janela, esperando que passasse
algum vendedor disto e daquilo ou alguém da família de um conhecido a quem se
queria mandar recado; a solteirona, a viúva ou casada sem filhos que matava o
tempo em companhia do gatão, que dormia no peitoril, ou do cachorro lulu, que
latia assustando os transeuntes, a gente desocupada; a moça namoradeira.
A namoradeira ficava à espera de alguém que a quissesse peruar. Podia ser um
rapaz que por acaso transitasse pela rua e olhasse para ela; o estudante da
república mais próxima ou aquele outro mais distante; o que respondia com um
adeuzinho à provocação lançada, quando o sol estava batendo e ela utilizava o
reflexo do espelho para chamar a atenção.
Namoradeiras e desocupadas criavam calos nos cotovelos apesar dos coxins adrede
preparados para evitar máculas na região tão duramente castigada. Os coxins
consistiam numas almofadinhas longilíneas, de média espessura, confeccionada em
qualquer tecido e recheadas com algodão, destinadas a proteger os cotovelos de
quem demorasse à janela. Fora das horas de expediente, ficavam sobre a cadeira
mais próxima à janela, preparadas para o uso a qualquer momento.
As almofadinhas ou coxins não eram suficientemente eficientes. Era comum o
cotovelo preto que identificavam mulher janeleira. Vários processos terapêuticos
eram empregados para remoção do calo formado: limão friccionado com açúcar
granulado, pedra pômes esfregada com bastante espuma de sabão; diluído em água
vinagrada e aplicado em compressas, além de outros menos conhecidos. É justo
acrescentar que não produziam a cura desejada por falta de repouso. Os cotovelos
não descansavam.
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A namoradeira janelava, de preferência, depois das três e meia da tarde, após o
banho e a mudança de roupa. Soltava então os papelotes das madeixas, ajeitava o
penteado, punha pó de arroz no rosto e corria para o seu devido posto. Neste
mesmo horário, das três para as quatro, mesmo as que não eram namoradeiras se
postavam à janela para as conversas com vizinhas amigas, que das janelas das
casas fronteiras ou laterais discursavam sobre vestidos, festas, planos e
possíveis frustrações. Ao entardecer a maioria sumia para o interior das
residências. Era a hora do chefe da casa voltar do trabalho, dos irmãos chegarem
das aulas. Havia uma espécie de acordo tácito de respeitar ou fazer de conta que
respeitavam os elementos masculinos da família.
As namoradeiras voltavam depois do jantar para a posição anterior. Na esquina de
pé, a poucos passos da janela, colados à parede, andando de lá para cá ou lendo
o jornal debaixo do lampião, um peru à espreita. Um peru podia levar meses e até
anos a fazer roda, defronte da janela da eleita, sem uma oportunidade para outra
coisa além de boa noite ou até amanhã. Isto quando elas faziam de difíceis e
batiam com as bandas da janela em sinal de desfeita. Mas o comum para uma
namoradeira era substituir, de imediato, o que desistisse, pois a meta era o
casamento e não podia haver perda com choros ou contemplações.
Se o peru já estava acostumado, chegava para perto, dava boa noite e apertava a
mão da amada se a janela não era muito alta. Estava iniciado o gargarejo. O peru
do lado de fora, cabeça para cima, pescoço espichado, contando vantagem ou meio
desconfiado, alerta, pronto a correr ao menor sinal de perigo, fosse passo pelo
corredor, saída ou aproximação de, ou contemporizações.
Se a janela era de andar alto o namoro tinha de ser meio de caboclo, com
bilhetes jogados, acenos e auxílios diretos de irmãos pequenos e empregadas que
serviam de cocada. Se a janela era baixa e o peru podia pegar no queixo da
namorada ou se ela era moça sem governo, pondo o namorado na porta para
conversar, havia então farta motivação para aquela outra classe de janeleira,
que morriam a bisbilhotar a vida dos que não lhe pediam licença para viver como
desejavam.
Janelar é verbo destinado a fazer companhia a seus colegas aposentados e que se
chamavam arruar, amesendar. Janeleira é substantivo e adjetivo ameaçado de virar
arcaísmo. Porque hoje janelar está fora de moda. As janelas servem apenas para
iluminar e ventilar as habitações. O namoro foi reformulado e o paquera
substituiu com vantagem o peru. Apenas tomar conta da vida alheia é que
continuou vicejando nos mesmos moldes. De uma janela quanta coisa se vê...
(Viana, Hildegardes. "O decadente janelar". A Tarde. Salvador, 23 de
abril de 1968)
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