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Há um velho ditado que assevera, que casa quem tem de casar. Apesar disto
raríssimos os jovens que já não tiveram a curiosidade de saber com quem casarão
ou se ficarão rezando para os defuntos, à falta de melhor distração. As sortes e
adivinhações de São João por exemplo, ainda resistem aos avanços da civilização
porque são alimentados pela ansiedade de quantos indagar o futuro. Cartomantes,
quiromantes, astrólogos, cigana, feiticeira, magia, tudo gira em torno da
necessidade de satisfazer aos eternos inquietos quanto ao porvir.
Uma velha amiga confessa, sem temor da opinião que se forme ao seu respeito, ter
sido uma grande namoradeira. Namoradeira à antiga, diga-se de passagem. Daqueles
tempos em que moça não saía sozinha, e que pais e irmão davam carreira no
namorado, quando casar não dependia apenas do gosto dos noivos.
Esta preciosa senhora narra com certa ênfase a utilidade da linguagem das
flores, talvez a mais explorada e a mais fácil de ser praticada, existindo
inclusive um dicionário-chave para bom entendimento entre as partes
interessadas. Pelo que diz o cravo é a flor eleita dos namorados. Lembra,
brejeira, quadrinhas incorporadas ao folclore, que bem demonstrem a importância
da flor no assunto.
Cravo branco na janela
É sinal de casamento
Menina guarde o seu cravo
Qu'inda não chegou seu tempo
Cravo branco é flor cheirosa
Branquinha como marfim
Meu amor já foi s'imbora
Mas não se esquece de mim
As flores, como afirma a nossa informante são colaboradoras eficientes na
ciência do namoro. Mesmo, agora quando há facilidade de comunicação entre
namorados e o namora é coisa rotineira. Mas antigamente prestava inestimáveis
serviços, transmitindo mensagens mais ou menos secretas. Vejamos assim, alguns
exemplos:
Cravo branco: amo-te
Cravo vermelho: esperança
Rosa branca: vou viajar
Rosa vermelha: por que não me respondeste
Dália: tudo acabado
Angélica: compromisso
Angélica e cravo junto: vou pedir-se
Duas rosas: considere-se minha noiva.
A maneira de usar a flor preferida também tinha especial significação:
Flor no peito com talo para cima: amor ausente
Flor no peito com talo para baixo: amor presente
Flor na lapela: amor compreendido
Flor na cintura: papai não quer
Flor no cabelo: ainda não me decidi
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O que muita gente não pode fazer idéia é que verduras, legumes e frutas
entrassem no dicionário dos namorados com um contigente de certo relevo. Embora
não muito românticos prestaram serviço ao seu tempo. De passagem, sempre guiados
pela sapiência da nossa prestativa informante, podemos citar alguns espécimes
provavelmente desconhecidos pela maioria dos leitores:
Quiabo: Estou queimada com você
Abóbora: Você está me enganando
Melancia: Não me apareça mais
Laranja: Está dando na vista
Limão: Fique se quiser, não me interessa
Couve: Seja mais cauteloso
Mais obsoleta é a linguagem da bengala e do guarda-sol, desconhecida de nossa
informante, mas constante de fragmento de um manual dos namorados já citado em
ocasião anterior. Em caminho para a missa, acompanhando uma procissão ou
passando pacatamente pela rua os namorados utilizavam a mais estranha telegrafia
sem fio:
Bengala ou guarda-sol com biqueira para cima: aguarde carta
Bengala ou guarda-sol com biqueira para baixo: aguarde resposta
Bengala no ombro: vou viajar
Bengala paralela aos quadris: recebi a resposta
Apoiar-se na bengala: vou pedi-la
Deixar cair a bengala no chão: não há muita esperança
Sombrinha ou guarda-sol aberto: houve contratempo
Sombrinha fechada: Já desconfiaram
Sombrinha aberta rodando sobre a cabeça: amo-te
Apoiar-se na sombrinha: trate de me pedir
Abrir e fechar rápido a sombrinha: some-te
Aliás tanto expediente só podia mesmo ser aplicado na época em que namorar era
coisa difícil, em que moças eram deportadas, encerradas em conventos,
emparedadas vivas e o que mais desse. Entretanto casamentos esperados não
tornavam menos atraente a arte de namorar. O namoro com todos os seus perigos
não perdia o seu encanto. Suspiros e olhares dispensavam os mais esclarecedores
discursos. Já o nosso tabaréu canta desde há muito o que pensa do caso.
Toda moça que não dança, não é Zé?
Qui só vive pra namorá, não é Zé?
Namora tanto que chega os oio a revirá
No outro dia quando olha um pro outro
Namorá é coisa boa, não é Zé?
Que coisa boa é namorá,
Não é Zé?
Se namorar não fosse coisa boa não teríamos agora para comentar os recursos
diligentes dos nossos maiores quando apaixonados.
(Viana, Hildegardes. "Linguagem muda do namoro". Jornal da Tarde. Salvador, 26 de maio de 1967)
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