Jangada Brasil, a cara e a alma brasileiras
Edição do Mês | Edições Especiais | Edições Anteriores | Tema do Mês | Temas Anteriores | Por Autor | Por Artigo | Por Seção |
Julho 2009 - Ano XI - nº 125


Sumário

Festança
Calango está em vias de ser absorvido pela massificação

Cancioneiro
Seleção de galope beira mar
José Pedro Pontual

Imaginário
Fogo-morto
João Palma da Silva

Colher de Pau
O café no folclore capixaba
Guilherme Santos Neves

Oficina
O colhedor de coco
Laís Tostes Belo da Silva e Asena de Barros Ramos

Palhoça
Medalhões do asfalto
Salyano Cavalcanti de Paiva

Panacéia
Medicina popular em São Tomás de Aquino
Ranulfo Prata

 

Veja o que foi publicado em Panacéia
Apoio Cultural
Simplicitate Design

Veja como sua empresa pode apoiar a nossa iniciativa.

Panacéia
Textos sobre plantas medicinais; rezas; benzeduras; simpatias; crenças; superstições; amuletos; orações; devoções; magia e feitiçaria...

Medicina popular em São Tomás de Aquino

Ranulfo Prata

Marianinho era menos arrojado, mais tímido, menos atirado e mais bronco. Era o Carimbamba das garrafas e benzeduras. Tinha como especialidade curar picada de cobra. Não precisava ver a pessoa ou animal ofendido. No primeiro caso pedia que lhe levassem um chapéu, um lenço, uma camisa, ou qualquer outro objeto pertencente à vítima.

Trazido o objeto ele batia daqui e dacolá com um raminho de arruda molhado em água benta, murmurando a reza infalível. Se se tratava de um animal, era suficiente saber da cor e dos anos.

Contra a "rosa má" (erisipela) rezava também com muito êxito. Aos surdos aconselhava coçar os ouvidos todas as manhãs com rabo de tatupeva. A cura era demorada, mas certa, contanto que o doente persistisse no tratamento durante muitos dias e até meses. Curava radicalmente a "dureza" ou "tábua" (hipertrofia do baço ou fígado), aplicando na região um couro de sapo, fresco recentemente tirado. As dores da "mãe do corpo" (útero) passavam como por encanto se ele emborcasse, em cruz, os sapatos da doente em baixo da cama. Ninguém na redondeza sofria de "quebradura" (hérnia). Saravam todos com a aplicação feita pelo Marianinho, de um morcego morto e estripado no momento, e que ali ficava, grudado por muitos dias.

Cura infalível da "passageira" (epilepsia) Marianinho obtinha, retirando a camisa do doente na ocasião do ataque, queimando-a e dando-lhe as cinzas de mistura com chá de erva doce ou fedegoso. Necessário se fazia, porém, que o doente não soubesse nunca que usou tal terapêutica.

– Pra quebranto, todos diziam, seu Marianinho está só...

Para os casos de "estabelecido" (asma) colhia bom resultado com pele de lobo; para dor de cabeça, chocalho de cascavel. Nos casos banais, de menos importância, empregava o purgante dos adjuntos e chá de panacéia. Onde existia coisa-feita agia, também o Marianinho com proveito e êxito. Matava sapo na barriga dos doentes e com passes e rezas fazia-nos vomitar o feitiço engolido.

Quando se tratava de hemorragias nasais, usava uma prática muito útil; vinha nas pontas dos pés, silencioso, e sem ser notado aproximava da nuca do doente, duas folhinhas de capim em forma de cruz. Instantes depois estava o sangue estancado. Hemorragias por mais rebeldes que fosse não resistiam a essa terapêutica. Só havia uma possibilidade de negação se o doente fosse pagão, coisa rara, aliás, e pouquíssímas vezes observado. Cura rápida e certa era também a das "bicheiras", com uma folha tenra de capim fazia um laço frouxo, olhava demoradamente com o olho esquerdo o pequeno círculo e murmurava em voz baixa, de corpo vergado para diante: "Esses bichos hão de aumentar como o serviço de domingo e dia santo". Fechava o laço sem mais olhar e o atava, para trás das costas. O animal não caminhava mais de cinqüenta metros com as larvas na ferida. Estas caíam, rapidamente, como sob a ação de cáustíco poderoso.

Uma das receitas que mais prezava e tinha confiança era a infusão de raspas de cascos de veado. Usava para reumatismo, era como se tirasse com a mão. Muito velho entrevado ele já havia levantado e tornado destro e maneiro do corpo, só com duas infusões adoçadas com mel de abelha jataí.

No domínio da profilaxia, Marianinho conhecia um preservativo de efeito seguro contra os ataques de congestão (apoplexia): o uso da unha de onça pendida do pescoço. Quando o ataque se aproximava a unha se partia, dividia-se ao meio, livrando o portador do mal.

(Trecho do livro Dentro da vida: narrativa de um médico de aldeia, de Ranulfo Prata, 1953)

(Prata, Ranulfo. "Medicina popular em São Tomás de Aquino". A Gazeta. São Paulo, 18 de agosto de 1962)

Home | Revista | Catavento | Almanaque | Realejo | Downloads | Colaborações | Mapa do Site
Assine nosso boletim | Central dos Leitores | Expediente | Apoio Cultural
Jangada Brasil © 1998-2009. Todos os direitos reservados. | Fale Conosco | Termos e condições de uso