A lenda do fogo-morto, outrora muito popular em todo o Rio Grande, já foi divulgada por Roque Calage, Fernando Osório e outros.
O gaúcho dá o nome de "fogo-morto", a qualquer resto de fogo, aceso ou apagado, antigo ou recente, deixando no chão num pouso de beira de estrada ou noutro lugar onde alguém fez sesta ou pousada. E é fato sabido que, mesmo nos dias atuais, o carreteiro, em chegando a um pouso para cozer seu arroz com charque e esquentar a água para o chimarrão, nunca faz fogo sobre restos de fogão alheio. Hoje, na maioria dos casos, não o faz por ignota superstição. "Inquirido" acerca de tal proceder, responderá apenas: "Não presta... traz azar".
Pois essa superstição teve sua origem na velha lenda do "fogo-morto".
Era uma vez, num tempo mui remoto, um rico carreteiro com mais de oitenta juntas de bois mansos, afora léguas e léguas de sesmarias e mais haveres. Foi de uma feita em que ele viajava por outros e distantes pagos, cortando coxilhas e coxilhas que... numa tarde...
Naquela hora o sol recém-posto, ensangüentava as nuvens paradas no arco imenso do poente. No amplo silêncio do campo, e na fina transparência do ar perfumado de mansenilha e trevo, parecia pairar o mistério imponderável da natureza. E o segredo do Criador...
Com seu Oôô... Oôô... Oôô... o carreteiro afastou a carreta da estrada, aproximando-a de secular e majestoso umbu, sob o qual iria pernoitar. O pouso era bom. Desajoujados os bois, soltou-os ao pasto e foi logo arranjar um fogo. Vinha "seco" pelo sabor de um mate; e o piá que o acompanhava devia de estar faminto depois de tão larga jornada.
E... ou fosse devido a pressa, ou por preguiça de preparar lenha, o homem bateu os tições dum fogão recente que encontrou no local, e ateou fogo. Foi o início da desgraça. Logo uma coruja piou na restinga e um dorminhoco, num vôo rasante, cruzou perto com seu grito que "lembra o ruído de um pano que se rasga em sucessivos e rápidos tirões..." Inexplicável e instantaneamente terríveis e violentas labaredas, erguendo-se daquela meia dúzia de paus atingiram a carreta, ao lado, queimando-a de modo irremediável com a rica carga de mercadorias que transportava. Inúteis foram os esforços do carreteiro e seu peão. De olhos esbugalhados de assombro e terror, em corridas furiosas tudo fizeram por aplacar a voragem das chamas com a água da sanga, que quase secou...
Aquietada, enfim a pulsação anímica do estranho fato, repontando os bois, lá foi o carreteiro rumo à estância levando no cérebro a semente da demência e, à própria sombra o espectro de maiores desgraças. Pouco depois a mulher o abandonou; o gado pesteou de carrapato, e morreu; vendido o campo, roubaram-lhe o dinheiro. Ao cabo, na casa já quase tapera, morreu o desgraçado, por entre delírios, com pavorosas visões de chamas a queimar-lhe a roupa, a lamber-lhe a carne...
E tudo aconteceu por haver se servido do alheio... Por causa do "fogo-morto"...