O artesão e o fabrico
Os fogos de artifício são feitos basicamente de
salitre, carvão vegetal e enxofre, ao que se costuma acrescentar, para obtenção de
efeitos luminosos nitrato de chumbo, bário (para obter o verde), sódio (amarelo),
cobre (azul) e limalhas de ferro para o efeito de chispas. Olímpio Bonald Neto, em seu
livro Bacamarte, pólvora e povo, registra uma composição de pólvora doméstica:
salitre-do-chile, enxofre e carvão vegetal, que deve ser pilado junto com uma garrafa de
cachaça, para dar liga.
Os fogueteiros compram salitre e outros ingredientes no Recife, em Caruaru ou outro centro
comercial importante. O carvão é de fabricação local. Muitos fogueteiros têm seus
próprios fornos para preparar o carvão, tanto por segurança como para baratear o
produto. O carvão deve ser de maniva de mandioca ou macaxeira, aveloz, umburana, piranha
ou outra madeira fofa, a fim de que o mesmo possa tornar-se pó com facilidade.
Os outros materiais usados são a taboca, cortada em diversos tamanhos, e enrolada
em cordão para não rachar, que consituirá o canudo (cápsula) onde se coloca a massa; o
cordão que, ensebado, passado no breu ou encerado, é usado para enrolar a taboca;
papel grosso em geral de material que serviu para embalagem (saco) de cimento ou adubo;
papel comum, mesmo usado; papel colorido de diversas qualidades e tipos, para
embalagem e acabamento final.
Da qualidade da matéria-prima depende não apenas a qualidade do produto, mas a
segurança do próprio trabalho. A presença de corpos estranhos no salitre ou no carvão
pode provocar atritos e explosões, no momento de colocar a massa no funil. É por isso
também que todos os ingredientes são sempre peneirados antes de fazer a mistura para a
massa.
Para o trabalho de fogueteiro são necessárias diversas ferramentas manuais, como o
pilão (grande, de madeira) usado para preparar a massa; o engenho, para enrolar as
tabocas; o badoque, para furar a massa, já depositada na taboca, permitindo inserir o
ingrediente que faz subir os fogos; o ferrinho, para socar a massa, etc.
São também, indispensáveis, peneiras de vários tipos e balaios de tamanhos variados.
Antigamente as tendas eram instaladas nas próprias casas de morada do fogueteiro. Hoje as
autoridades, que também controlam a aquisição de matéria-prima e exigem registro do
artesão, determinam que as oficinas sejam estabelecidas em prédios isolados, pelo menos
a 500 metros das casas de moradia e destinados exclusivamente a estas finalidades. esta
determinação praticamente confinou a atividade do fogueteiro às zonas rurais ou às
pontas-de-rua de vilarejos e arruados, onde ainda não chegou a especulação
imobiliária. Tal medida visa reduzir os acidentes e evitar que atividades paralelas, como
as da cozinha, se tornem fontes de perigo para atividades pirotécnicas.
A tenda de fogueteiro é uma oficina basicamente artesanal, com poucos equipamentos e
trabalhadores. Em geral é dirigida por um fogueteiro que goza de prestígio na comunidade
e redondezas e uns poucos auxiliares, recrutados, de preferência, na família ou pessoa
de muita confiança.
As rotinas de trabalho exigem cuidados e precauções, quase sempre cumpridos, mas que nem
sempre são suficientes para evitar acidentes.
Incêndios e explosões em tendas de fogueteiro usualmente representam perdas totais e uma
vez iniciados não é possível extingüi-los antes do consumo de todo o material,
equipamento e prédio. A localização das tendas em lugares ermos impede o socorro
imediato. Nos acidentes, há sempre perdas de vida ou redução à incapacidade para o
trabalho.
A profissão de fogueteiro, como a maioria das atividades de fogo e ferro, com ferreiros e
forjadores, é atividade reservada a homem. No agreste de Pernambuco, porém, encontram-se
algumas mulheres desenvolvendo aticidades no fabrico de fogos. São auxiliares das
atividades dos maridos, ocupando-se da preparação das caixas, dos embrulhos de papel ou
são viúvas, herdeiras das tradições do marido, quase sempre falecidos em acidentes. É
curioso registrar que as mulheres em atividade no ramo dos fogos de artifício não se
consideram fogueteiras e em geral fazem apenas fogos-de-chão. Alegam que no processo de
elaboração dos fogos-de-subida (e de vista) é necessário operar ferramentas pesadas
demais para a capacidade física feminina.
Fora os auxiliares que se encarregam das tarefas menores e preparatórias, há três
categorias de fogueteiros: os que fazem fogos-de-chão, que não são considerados
propriamente fogueteiros; os que fazem fogos-de-subida, que são os verdadeiros
fogueteiros; e os que além dos fogos-de-subida fazem peças de fogos-de-vista, e
alcançam uma posição de respeito e admiração entre os companheiros.
A alegria, sonho e esperança de todo fogueteiro é poder preparar para a próxima festa
um espetáculo de beleza e vida, luz e som, que surpreenda e extasie, por momentos efêmeros
seus expectadores, antes que a morte o atraiçoe e faça da explosão de sua tenda e de
sua vida, o último e lúgubre espetáculo de fogueteiro que não fugiu da sina.
Pequeno glossário
Badoque: Ferramenta usada para furar a taboca,
depois de preparada, a fim de colocar o último dos ingredientes, dos fogos-de-subida. Tem
a forma de um arco indígena.
Bomba: Fogos de chão, de estouro.
Bombinha: Fogos de chão, de estouro, com menor quantidade de massa que a bomba.
Busca-pé: Pequeno fogo de artifício que corre em ziguezague, como se procurasse
os pés das pessoas que se encontram próximas.
Capricho: Peça.
Caradura: Pereira da Costa registra no Vocabulário pernambucano: "fogo
de salão, espécie de fósforo, que riscando na própria caixa desprende,
respectivamente, uma luz de cores diferentes".
Chafariz: Peça.
Chuveirinho: Fogo de chão, luminoso, destinado ao uso pelas crianças.
Diabinho: Fogo de chão, misto, destinado ao uso pelas crianças.
Engenho: Máquina manual de enrolar o cordão na taboca.
Engenho de espigão: É o engenho de enrolar cordão na taboca, em forma de
espigão. Parece ser o modelo mais antigo ainda em uso no Agreste de Permambuco.
Engenho de rodas: Engenho com rodas (engrenagens de ferro) para enrolar o cordão
na taboca.
Espanta-coió: Fogo do tipo busca-pé. Registra Câmara Cascudo em Locuções
tradicionais do Brasil "na volta de 1908 apareceu um traque de São João que se
acendia pela fricção e ficava queimando e estalando nas calçadas. Era o espanta-coió,
atirados aos pés dos namorados na conversa janeleira, atrapalhando o idílio, porque
atraía atenção da família.
Estrelinha: Fogo de chão, luminoso, destinado à crianças. Ao ser querimado emite
luminosidade intermitente, simulando a luz das estrelas.
Ferrinho: Ferro, nem sempre tão pequeno que justificasse o diminutivo, usado para
socar a massa na taboca.
Fogos de chão: Todos aqueles que são queimados ao nível do brincante, sejam
luminosos ou de estouro.
Fogos de lágrima: Tipo de fogos de subida, que tem efeitos luminosos em forma de
lágrimas, ao queimar-se no céu.
Fogos de tiro: São os fogos de subida que dão estouro, como os rojões, salvas,
meia-salvas, etc.
Fogos de vista: São fogos de efeitos visuais preparados especialmente para
determinados eventos e queimados pelo próprio mestre fogueteiro que o fabricou. São
armados nas peças. A fabricação e queima dos fogos de vista exige imaginação e
perícia. Embora não se conheça fogueteiro que viva só da fabricação de fogos de
vista, esta modalidade consagra o artesão que a trabalha, por ser considerada a mais
difícil, elevando-o à mais alta posição entre os companheiros de profissão. Ver peça.
Foguetão: Fogos de subida, de estouro, de grande potência.
Foguete: O mesmo que fogo de subida.
Fogueteiro: Denominação para o artesão que fabrica fogos. Somente é considerado
verdadeiro fogueteiro o artesão que fabrica fogos-de-subida.
Foguetório: Grande queima de fogos. Ruído de festa.
Funil: O funil do fogueteiro é sempre de zinco e é usado para inserir a pólvora
nas tabocas.
Girândola: Segundo Silveira Bueno a palavra tem origem italiana, significando roda
de foguetes, que se lança no ar, em movimento circulares. Para os fogueteiros do agreste
de Pernambuco é uma tábua de 2 a 6 metros de comprimento por 15 a 20 cm de largura,
furada a intervalos regulares, onde se colocam foguetes que são atirados, um por um; a
tábua funciona em posição horizontal, sendo sustentada por cavaletes; alguns
fogueteiros usam tábuas duplas.
Massa: Preparado ligeiramente pastoso, composto de carvão vegetal pilado, enxofre
e outros ingredientes variáveis; pólvora preparada pelo fogueteiro.
Peça: São armações com figuras, onde são dispostos fogos para o efeito de
fogos de vista. As mais conhecidas são leque, tesoura, escada, roda grande, roda pequena,
chafariz, capricho, e um famoso pavão que abre a cauda e fecha, durante a queima. Há
peças especiais com figuras de padroeiros como Nossa Senhora da Conceição, São José,
São Sebastião, São João com o carneirinho e Padre Cícero, e outras com cenas
populares; Lampião e Maria Bonita; A onça correndo atrás do negro, e Vaqueiro
derrubando boi.
Peido-de-velha: Fogo de chão, de estouro, tem a forma triangular e o pavio curto.
Pilão: Ferramenta usada para preparar a massa em madeira de boa qualidade e de
grande porte.
Rifa: Espécie de vitrine, imitando uma casinha, em madeira, enfeitada em papel
colorido cortado franjado, onde os meninos vendem fogos a retalho. É colocada em geral em
frente às suas casas.
Rodinha: Girândola de uso infantil. Tem a forma de uma circunferência e queima-se
prendendo-a com um prego ou alfinete à uma vara ou cabo de vassoura. "Queimar
rodinha" é expressão chula entre adolescentes de Recife, registrada por Mário
Souto Maior, no seu Dicionário do palavrão e termos afins.
Rojão: Fogos de subida, com carga para vários estouros.
Salva: Fogos de subida, de estouro, atrelado a uma pequena vara. Sobe o fogo e
desce a taboca. Contam-se milhares de casos de pessoas que se feriram com a queda
da taboca, em meio à multidão. Muito usado em festejos religiosos para anunciar o
Glória, Elevação e término das missas, chegada e saída de procissões católicas,
saída de quarto de iaô e comemorações de Xangô e Iansã nos terreiros
afro-brasileiros do Recife; utilizado ainda para anunciar a chegada de chefes políticos e
início dos seus discursos em comícios; em partidas de futebol, para comemorar gols e
vitórias; há também a meia-salva, com a metade da carga de pólvora, usada para os
mesmos fins.
Surpresa: O mesmo que peido-de-velha.
Taboca: Espécie de bambu ou taquadra. Segundo Teodoro Sampaio, vem do tupi ta-boc,
haste furada, tronco oco. É usado pelo fogueteiro como cápsula.
Telegrama: É um arranjo de fogos de subida em arame. Prepara-se uma armação de
arame horizontal. Coloca-se os fogos em sentido inverso. Ao acender o primeiro, ele corre
até o fim do fio e acende o outro, no choque, voltando ao ponto original.
Tenda: Local onde os fogueteiros fazem os fogos. Oficina dos fogueteiros.
Atualmente, por determinação das autoridades, a tenda deve ficar afastada no mínimo 500
metros das casas de moradia.
Vulcão: Fogos de chão em forma de cone de papelão envolvido em papel laminado
colorido. Ao se acender, jorra lavas coloridas.
[1987]
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