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Fogos de São João

Paulino Santiago

"Mas o anjo lhe disse: Não temas, Zacarias, porque tua oração foi ouvida e tua mulher Isabel te parirá um filho, e chamarás seu nome João". (São Lucas, I-13)

Ao impulso do trabalho e dedicação de alguns abnegados que fazem objeto de seus estudos os fatos da cultura popular reunidos sob a denominação de folclore – generalizada e aceita, embora ainda discutida em seu conteúdo e definição, ressurgem as festas do ciclo joanino, das cinzas que pouco a pouco as sufocavam, de alguns decênios a esta parte. Será impossível restaurá-las em toda sua pureza e vivacidade de antigamente, como o comprovam passagens ocorrentes a olhos vistos. A mudança dos costumes; a falta ou a substituição de materiais, determinante de novos métodos de operação e conducente a resultados diversos; a violência da indústria sobre o artesanato; a troca na obra manual pelo produto mecânico, - tudo impõe, sem apelo nem agravo, sob o nome de Progresso, a aceitação irrecorrível do imitativo, do parecido, do ilegítimo, do sucedâneo. Não é para discutir, num sentido geral, se há nisso um bem ou um mal, se o conforto material de que hoje nos cercamos não equivale ao dano de que padecem a passo igual, na sua pureza, nossas faculdades anímicas de amar sem egoísmo, de emocionar-nos sem cálculo, de preferir o natural ao fictício. Indubitavelmente, porém, o amor às coisas simples e cordiais se adultera, a sentimentalidade se empedernece, a tradição se corrompe.

Pagão de ascendência vetusta, remontando ao homem primitivo, estarrecido ou prostrado diante de toda manifestação ígnea, o culto do fogo, universal e empolgante, entrou suavizado e místico na lenda cristã, irresistivelmente eivada da tradição helênica e da hindu, essa diretamente colhida em suas fontes originais ou através da assimilação fecunda e da adaptação a que a submeteu a velha cultura grega. Na realidade, o imenso Prometeu, que vivifica um dos mais belos recantos da Hélade e cujo nome se traduz por previdente ou aquele que reflete antes do acontecimento, talvez seja apenas, prosaicamente, decepcionantemente, um antiqüíssimo e primitivo instrumento dos brâmanes, destinado a produzir fogo e chamado pramatha, isto é, o que encanta por meio da fricção. Essas coisas, dizem-nas Michaud d’Humiae – Les Grandes Légendes de l’Humanité – e M. Griveau – Les Feux et les Eaux.

Do terror que cria o culto à curiosidade que promove a investigação; da curiosidade ao uso na defesa e no aquecimento, na culinária e na forjadura de armas e utensílios: daí, com a consciência do domínio, ao ludo e à fantasia pirotécnica, - através dos milênios, Ignis encantou e atraiu o homem. Misterioso e sagrado, destruidor e amigo, criador e adversário, instrumento de vingança ou de júbilo, suave e brando nas mãos impolutas das vestais, terrível e assassino na posse homicida dos sacerdotes de Baal; raio que fulmina ou chama bruxuleante de candeia votiva, será sempre o fogo o supremo elemento da Natureza, o eterno e prestimoso associado da Humanidade e da Civilização.

Humo fecundo em que vivem e de que se nutrem as religiões, a lenda é uma invenção coletiva do Demos, que, apenas conformada, caminha para o futuro através de uma ininterrupta cadeia de boca e ouvido. Irmã do sonho e do milagre, desconhece distâncias, afasta obstáculos, anacroniza fatos, ignora raciocínios, despreza a lógica e a experiência. Mas impõe-se como força criadora, e quando se dilui no cepticismo ou se despoetiza na impiedade, já deixou na alma do povo um pólen dourado de esperança consoladora, se não de fé inextingüível. E ainda hoje, contrariando a sucessão cronológica da própria narrativa bíblica e suprimindo o afastamento entre as cidades da Galiléia, nos é grato cismar de vez em quando, incrédulos mas sorridentes e quase felizes, que, há dois mil anos, Maria de Nazaré e Isabel da Judéia apostaram quem antes anunciaria à outra o nascimento do fruto do seu ventre, por meio de um mastro ou de uma fogueira, segundo ocorresse de dia ou de noite. Eis que Isabel, adiantada de seis meses, ganhou folgadamente o ajuste e, como fosse na hora dúbia do ocaso, levantou precavidamente um madeiro engalanado e acendeu uma almenara. João trazia à Cristandade nascitura o primeiro elemento do seu culto exterior. Dir-se-ia, querendo interpretar o que é simples fabulação, que no mastro fincado está simbolizada a firmeza da fé e nas labaredas do fogaréu a sua força de expansão e de conquista. Por isso mesmo, enquanto aquele se manteve estático e praticamente imutável, o fogo tomou formas variadas e veio até nossos dias, multiplicado em fantasias e arabescos, como acessório essencial da festa genetlíaca do Batista. O engenho humano fez do terrível Moloque um brinquedo, cuja periculosidade, quase nula quando destinado à infância desprecatada e insciente, cresce em agressividade e violência se reservado à juventude ansiosa de emoções e justas espetaculares. Com efeito, que víamos há algumas décadas passadas?… Entre as mãos delicadas das crianças, o inócuo traque-de-chumbo, chamado estalo noutras partes. Feito de uma porção mínima de massa explosiva, não era preciso encendê-lo, pois continha em si mesmo a força que o fazia rebentar por simples percussão, quando atirado no solo ou na parede. Dos pequeninos e comuns, enroupados em papel de seda colorido, alguns, para maior graça, imitando borboletas, cresciam até o traque-bomba, de mais forte estampido. Vinham atrás os traques-de-chio, de origem chinesa, em dois tamanhos, ligados entre si pelos estopins e arrumados em pacotinhos chamados cartas. Comprar uma carta de traques era uma alegria; incendiá-la de uma vez para ouvir dezenas de estampidos seguidos, uma glória reservada aos que tinham dinheiro próprio e podiam desperdiçá-lo. O diabinho ou mosquito, canudinho de papel de cerca de 5 centímetros de comprimento por 3 a 4 milímetros de diâmetro, cheio de pólvora socada, era o jogral da família. Corria doidamente nos passeios, trepava nas paredes ou arrancava do solo e se extingüia no ar; mas também muitas vezes, indiscreto e malicioso, metia-se debaixo das saias das matronas, provocando sapateados, gritos e carreiras. Guri desavergonhado, tinha um irmão taludote, o busca-pé chorão, assim chamado porque apenas corria e chiava, inapto a explodir. Esse já era feito de um pequeno gomo de taquara, reforçado exteriormente por um carbonato enrolado em espiral, e fechado com barro de maçapê em ambas as extremidades. Numa delas, o fogueteiro abria com a broca o orifício do mesmo nome e, enchendo-o com pólvora umedecida para melhor aglutinação, preparava a escorva do artefato, protegendo-a, afinal, com um taco de papel enrolado e fechado à guisa de tampa. Em tamanho maior, chamava-se besouro, porque já roncava seu bocado; cometia maiores desatinos e podia vulnerar seriamente a quem topasse descuidado. Aí, chegava a vez do busca-pé de estouro, engenho preparado com especial atenção. Dentro do tubo e próximo de uma das pontas, o artífice arrumava o material detonante, e quando enrolava o fio, cuidava de marcar o local, dando aí mais largo passo à espiral. Devia-se pois, como medida de precaução, segurar a peça abaixo dessa marca, para menor risco no caso de um jibu, isto é, de um estouro prematuro. O busca-pé de limalha ou, abreviadamente, o limalha, era o membro maior da espécie, fabricado com os requintes da arte do busca-pé de estouro, mas recebendo no seu conteúdo inflamável certa porção de pó de aço ou de vidro. Resultava daí que o poderoso jato de fogo que escapava pela broca era uma chama branca e deslumbrante, em vez de avermelhada e fumarenta produzida pela combustão da pólvora homogênea. Esse era a arma legítima dos antigos combatentes, tão belos quanto perigosos. Nos tempos dessas justas formavam-se grupos capitaneados por um cidadão mais influente ou de mais largas posses, e dirigiam-se ao encontro uns dos outros, às vezes para ajuste de rivalidades que vinham de anos anteriores. Conduzindo os buscas-pés prudentemente presos ao cinturão, com a broca para baixo, o que nem sempre evitava acidentes, ou resguardados em bornais de couro, os novos falangitas usavam muitas vezes luvas e casaco desse material, molhados de vez em quando, por precaução. Defrontavam-se os grupos ao acaso ou em lugares previamente marcados – uma rua mais larga, uma praça de igreja. E então, colocando-se estrategicamente, cada legionário empunhava seu buscapé, rasgava o papel da escorva e encostava-lhe o cigarro ou o charuto, quando não o acendia na fogueira que ia ser defendida do ataque inimigo. Em alguns, nada disso era preciso: bastava batê-lo de fronte numa superfície dura, e uma pequena porção de massa detonante produzia a fagulha inicial. A princípio hesitante, enquanto queimava a pólvora exterior, logo de dentro do tubo surgia a espada, uma chama resplandecente, sibilante, poderosa, capaz de arrancá-lo da mão que o prendia e levá-lo para longe, para o ar, doidamente, perigosamente. Mas ainda não era tempo de atirá-lo. Agora, o piróbolo humano erguia o engenho à altura da cabeça, como se mostrasse o poder de sua arma ao adversário; baixava-o, passava-o entre as pernas, riscava o ar com figuras fantásticas de fogo, e só o arremessava contra o inimigo no momento extremo, antes que explodisse na sua mão. Avançavam os grupos, um contra o outro; recuavam, rechaçados ou cautelosos, até que um deles debandasse vencido, por fraqueza ou esgotamento da munição.

Ruas trancavam-se; casas de comércio defendiam seus batentes com areia; vidraças estilhaçavam-se; palhoças ardiam. Realizavam-se as danças a portas fechadas; mas, de vez em quando, entre o ressôo de um coco, ouvia-se bater nervosamente do lado de fora. Abria-se e um rapaz entrava, empunhando um busca-pé aceso, em cuja escorva queimava um pequeno fogo-de-bengala, linda chama azul ou vermelha, de que se desprendia uma fumaça sufocante. Sem perda de tempo, o jovem coroava uma rapariga, colocando a luminária sobre sua cabeça. Era um rápido instante emocional de gritos e de risos, porque a flama colorida começava a agonizar e em breve acenderia o perigoso combustível em que assentava. O herói retirava-se e, outra vez na rua, floreteava orgulhoso a lâmina ignescente e sôfrega.

Fogos-do-ar chamados, os foguetes, foguetinhos e foguetões exigiam um trabalho meticuloso como os busca-pés e uma broca muito bem medida, em relação matemática com o diâmetro da taboca. A parte de cima aberta e sobre ela um pouco de pólvora calcada, aí repousava a cabeça em que se continham as bombas ou as lágrimas de cor, enroladas em papel forte, de preferência branco marca veado. Nos primeiros, com três petardos, esses deviam detonar sucessivamente e não de uma só vez. Para isso, um não levava chio, outro o tinha curto e o terceiro, mais longo. Presa ao tubo, uma flecha de maraiá, que, pelo nome parece ser a nervura central da folha de um palmeira do mesmo nome,   equilibrava o artificio na sua ascensão. Dos foguetinhos, uns conduziam um assobio, outros uma pequena bomba e outros ainda algumas bolinhas de uma composição que se inflamava, riscando o ar de lágrimas coloridas. Por serem mais leves, sua cauda era uma haste da gramínea barba-de-bode ou um talo do coqueiro comum, nervura principal dos seus folíolos. Os foguetões, peças de alto poder de elevação, ora se guarneciam de uma única bomba de grande força, ora de múltiplas, pequenas, que espocavam por grupos, seriadamente, a segundos de intervalo, o que revelava a perícia ou a inabilidade do fogueteiro.

E enquanto lá no alto, adornado de luminárias vagabundas ao léu do vento, o espaço se enchia de chispas e clarões, de estampidos e sibilos, cá em baixo, derredor da fogueira e do mastro, estralejavam beijos-de-moça e sete-estouros, choravam chuvinhas, cintilavam estrelas de fogo-chinês, girogiravam rodinhas, fosforeavam relâmpagos. Das janelas, pistolões fidalgos e craveiros aristocráticos, empunhados por mãos femininas, despejavam na rua suas balas multicores e de estalo ou seu facho de luz prateada e faiscante. Ao longe, o tiro soturno das ronqueiras enchia a noite profunda e friorenta de uma sensação de mistério, de inquietação e de esperança, porque no longínquo Oriente nascera Johann, o precursor.

"E chegou o tempo em que Isabel havia de dar à luz; e dela nasceu um filho"(São Lucas, I, 57)

 

(SANTIAGO, Paulino. In Boletim Alagoano de Folclore,junho de 1957)

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