Quando Nosso Senhor andava no mundo chegou por uma noite na casa de um sertanejo
pobre mas bom. O homem agasalhou os "pelingrinos" muito bem. Mas só tinha para
cear um pedaço de queijo. Nosso Senhor combinou que o queijo seria de quem tivesse o
sonho mais bonito.
Lá para as tantas, São Pedro levantou-se e comeu-o. Pela manhã Nosso Senhor disse ter
sonhado com o Céu, os anjos cantando e os santos rezando. São João tinha sonhado com o
Inferno e disse como era aquele canto cheio de fogo e miséria.
E você, Pedro?
- Eu, - disse o apóstolo a bem da verdade não sonhei. Vi o Mestre no Céu e João
no Inferno e pensei que não precisavam de mais nada deste mundo. Fui-me ao queijo e
passei-o no dente!
(CASCUDO, Luís da Câmara. Literatura oral no Brasil)
São Pedro e o diabo
São Pedro morava perto da casa do diabo. Quando chegou o tempo da colheita de
batatas doces na chácara de São Pedro, este chamou o diabo e perguntou-lhe:
- Quer você ajudar-me a colher as batatas? Eu lhe darei metade da produção.
O diabo achou que era bom negócio e respondeu logo:
- Está certo. Vamos até lá.
Ao chegarem ao terreno onde estavam plantadas as batatas doces, São Pedro perguntou ao
diabo:
- Agora, você escolha: quer ficar com a metade de cima ou com a metade de baixo da terra?
O diabo respondeu:
- Ora essa! Quero ficar com a metade de cima da terra!
São Pedro mostrou-se de acordo:
- Está bem; pode colher sua parte que, logo, virei colher a minha!
E lá foi. Depois que o diabo cortou todas as ramas de batata doce e as levou para sua
casa, São Pedro voltou ao terreno e arrancou as batatas, levando-as consigo. Satisfeito,
deu um grande almoço e até convidou o diabo para comer à sua mesa. O diabo, que não
pode comer as ramas colhidas, ficou com muita inveja do santo, prometendo a si mesmo que
se vingaria.
Passados alguns dias, São Pedro encontrou-se novamente com o diabo e perguntou-lhe se
queria ajudá-lo a colher repolhos de sua horta. O diabo aceitou imediatamente, mas foi
logo dizendo que dessa vez seria ele a ficar com a parte de baixo da terra. O santo
concordou, ajuntando que, diante disso, iria colher sua parte e deixaria a do diabo no
terreno.
São Pedro foi e colheu todas as bonitas cabeças de repolho, deixando para o diabo
somente as raízes que sobraram.
O diabo, logrado outra vez, sentiu redobrada vontade de vingar-se do santo e aceitava
todos os convites que este lhe fazia para colher os produtos de sua chácara, mas nunca
acertava na escolha: quando a planta dava em cima da terra, ele preferia a parte de baixo;
quando dava em baixo, ele preferia a parte de cima. Foi assim que fizeram as colheitas de
aipim, de alface, de amendoim, de tomates e de uma porção de coisas.
Até hoje o diabo está pelejando para ver se engana São Pedro, mas não consegue.
Dizem que com o diabo ninguém pode, mas dessa vez ele foi logrado por São Pedro.
(Informante: Angélica Loes, professora rural municipal, de Santa Teresa, Espírito Santo)
Como São Pedro aprendeu a pescar
Um dia estava São Pedro na praia com outros pescadores e lastimava-se da falta de
peixes, quando deles se aproximou um desconhecido, que era Jesus, e disse:
- Vocês não pescam coisa alguma porque redam errado, espantando o peixe. Não é da
terra para o mar que se deita a rede, e sim do mar para a terra.
Ouvindo tais palavras, Pedro e os companheiros fizeram como o desconhecido lhes havia
ensinado: redaram do mar para a praia e fizeram abundante pescaria.
Depois de recolherem a rede, Pedro perguntou aos outros pescadores:
- Que devemos dar a esse homem que nos ensinou a pescar?
Jesus falou-lhes:
- Dos peixes que vocês pescaram eu peço a décima parte, o dízimo.
Foi assim que se aprendeu a pescar com rede de arrasto, e a dividir o pescado entre os
pescadores. Só mais tarde é que o dízimo foi substituído pelo quinto, isto é, a
quinta parte da pescaria para cada pescador, como se faz na praia de Manguinhos.
Tendo Jesus pedido o dízimo, Pedro começou a separar o produto do lanço, mas só lhe
destinava os peixinhos miúdos; os maiores eram para ele e os companheiros. Na manhosa
partilha, separada a porção que cabia ao Senhor, este fez juntar lenha seca e ateou
fogo, queimando a miuçalha que lhe coubera. Tudo se transformou em fumaça e subiu para o
céu.
No fim, Jesus, olhando Pedro, repetiu o brocado:
- Nobre lavrador, vil pescador!
Por isso muita gente acredita ainda que todo pescador é matreiro.
(Colhida por Guilherme Santos Neves. Informante: Antônio Lúcio, pescador da praia de
Manguinhos, Espírito Santo)
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