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Ladainha de São João no Guaçuí

Renato Pacheco

Há anos, em prova parcial no Colégio Americano, minhas alunas, do 1º ginasial, elegeram o interior como o reino feliz das festas e folguedos juninos. A razão, quase todas o disseram, é a falta de luz. Luz no caso, é sinônimo de civilização.

Mas, o certo é que o interior inda é o repositório fiel das mais caras tradições do povo brasileiro, e, onde os velhos costumes guardam o mesmo sabor do tempo de nossos avós.

Sobre os santos de junho muito já se tem escrito; seu culto no Brasil é antigo. Vieira já falava que Santo Antônio era invocado por dá cá aquela palha... Depois de estudo de Amadeu Amaral sobre Antônio pouca coisa resta dizer sobre o taumaturgo português.

De Guaçuí, é sobre São João. Rodrigues Faria, que tantas e tão preciosas comunicações já me tem feito dá notícias das singulares ladainhas de São João. Sem padre, é verdade, no interior, de párocos para todas as freguesias.

As práticas religiosas são tiradas por uma pessoa "curiosa" a quem se dá o nome de rezador, o qual é homem ou mulher.

A primeira parte da ladainha é o levantamento do mastro de São João, o que se faz debaixo de gritos e ao estourar dos foguetes.

O mastro é, quase sempre, diz-nos nosso informante, "um toro de palmito, com todo o seu comprimento, levando à ponta um pequena bandeira de pano, com a figura de São João pintada, quando há no lugar gente com queda para desenho ou recortada".

Em seguida, conclui Miguel Faria, canta-se a ladainha em louvor a São João, as quais são encerradas com uma reza clássica, durante a qual todos os presentes, um a um, vão ao mastro reverenciar o santo.

Entre estas rezas, que, às vezes são em verso, anotamos, de acordo com a informação vinda da vila de Divisa, Guaçuí, Espírito Santo, as seguintes:

I
São João se bem soubesse,
Que hoje era seu belo dia;
Desceria dos céus à terra
Com prazer e alegria.

II
São João batizou Cristo;
Cristo batizou São João.
Oh! que belos batizados
Houveram no Rio Jordão".

III
São João adormeceu
No colo de sua tia,
Outro São João chegou
E São João ainda dormia.

E assim por diante. A segunda quadra refere-se, é claro, a São João Batista, e aquele houveram demonstrar a tendência da língua brasileira. Na terceira quadra há referência simbólica ao encontro entre os dois São João.

Já vai longe, no entanto o resumo que desejávamos fazer. Ao assunto, voltaremos oportunamente, para completar o estudo dos usos e tradições juninas.

 

(Pacheco, Renato. "Ladainha de São João no Guaçuí". A Gazeta. Vitória, 27 de junho de 1949)

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