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São João baiano

Herman Lima

Das coisas doces da Bahia, a mais doce é talvez a lembrança das suas festas de junho, os festejos de São João, para quem foi estudante por lá, nos tempos em que os estudantes ainda eram os donos da cidade.

É que em nenhuma outra ocasião como nessa o coração da Bahia se revelava com uma generosidade tão larga e tão tocante, no propósito de fazer com que os rapazes de todo o Brasil que a ela acorriam, em especial para o curso da sua velha Faculdade de Medicina, tivessem, por um dia que fosse, a presença do lar distante, envolto àquela hora nas alegrias da ruidosa festividade.

Minha primeira "república" desse tempo ficava diante do convento do Desterro, donde saem, pelas mãos das freirinhas que ninguém vê, os mais belos trabalhos de agulha para as prendas das moças grã-finas da cidade, os licores de fruta do mais esquisito sabor.

Desde uma semana antes fazíamos larga distribuição do peditório de praxe, o "pedido de canjica", em versos ingênuos, que ainda hoje conservo, na sua folha amarelecida dum tempo apenas de sonhos e de esperanças:

Aproximam-se fagueiros
Os festejos de São João
Um dia a mais nas folganças
Se nos oferece à mão

Justo nos é recorrer
A vossa delicadeza
Pedindo que nos dispense
Benevolência e fineza

Queremos nós nesse dia
Fazer um lauto jantar…

E aí vinha a costumeira relação de gulodices desejadas, a galinha e o peru, o presunto e o leitão, a laranja e a "uva deliciosa de que a gente tanto gosta como fruta de primeira", doces e vinhos, pastéis e pudins, cigarros bons, canjica e charutos e até a "champanhe que sempre se usa, quando nos mandam em presente a que se não faz recusa!"

Ao cair da tarde, começava a ansiosa expectativa dos presentes. Volta e meia, apontava na esquina um portador, que era logo assediado com perguntas dos colegas, de alcatéia, não fosse haver extravio, pois outras tantas "repúblicas" como a nossa se assestavam traiçoeiramente pelas cercanias. Muita vez, era claríssimo o destino da comesaina, imposssível a dúvida, mas era preciso esclarecer o assunto no curso dum interrogatório por demais tendencioso, de que não raro surgia uma gostosa retificação para o nosso lado – e quantas bandejas fartas, quanto tabuleiro de doces, deixava de seguir assim o endereço primitivo, para alvoroço da turma de casa!

O certo é que ninguém faltava ao apelo dos estudantes. Vinham os pratarrazes de canjica tão fina, a canjica de milho verde, "que treme com medo da gente como mulher que anda com tudo solto", como nota gulosamente Afrânio Peixoto, no capítulo das comidas do seu admirável Breviário da Bahia. Um dos presentes era infalível: parava à porta um carro oficial, saltava de dentro um chofer agaloado do palácio do governo, e lá nos vinha a iguaria preparada pelas próprias mãos das filhas do governador, como sinhazinhas de outrora, e que a gente saboreava com deleites especiais pensando nelas. E vinha também uma torta de mando do senhor arcebispo, torta que se diria preparada pelos anjos, quando era pelas freiras dignas de beatificação, às virtudes daquela prenda.

Os balaios de laranjas da Bahia, as nunca igualadas laranjas da Bahia. Compoteiras de doces finos, bolos de todos os paladares, frutas caras e cigarros em profusão, licores de todas as marcas, as celebradas gasosas de Frateli Vita, coloridas como o líquido daqueles garrafões ornamentais das boticas do passado, e, de permeio, a oferta humilde do vizinho pobre, um boião de ambrosia, um pratinho de modestos doces caseiros.

A cozinheira tinha folga nessa tarde, pois o jantar era de sobra, à vista de tanta fartura opípara. Improvisavam-se os brindes aos desconhecidos doadores, em redor da mesa do banquete, sucediam-se as "saúdes" aos ausentes, e, lá pelas tantas da noite, quando começavam a encher-se de milhares de balões os céus da cidade, a turma, em plena euforia levemente tocada do famoso licor de jenipapo, rumava para os arrabaldes distantes, Brotas, a Lapinha, o Rio Vermelho, a Barra, onde havia a certeza dos bailes familiares, de que o primeiro recém-chegado se tornava conviva obrigatório, para o resto da noite, na roda vida das moças e dos outros rapazes que ele jamais vira, festejado como um da casa, de onde não raro saía, ao raiar da madrugada, venturosamente preso para sempre ao derriço de certos olhos.

Enquanto isso, por toda a cidade vetusta, irrompia uma fabulosa fuzilaria de morteiros, varavam a noite catadupas de rojões, coruscavam em tremendas espirais milhões de buscapés, pipocavam bichas em série, assobiavam foguetes de lágrimas, chispavam de todas as janelas e sacadas, para a rua, jorros de pistolas detonantes como metralhadoras, rabeios de rodinhas e chuvas de prata, cinguladas as ruas numa instransponível barricada de fogueiras, como se houvesse o intuito coletivo de semear incêndios por todos os quadrantes urbanos.

A Bahia inteira ardia, na cintura de fogaréus, na imagem real de uma sagunto imolada, como se a percorresse de ponta a ponta uma estarrecente salamandra de mil caudas, estralejando ribombos e desovando rajadas ígneas. Não era em vão, considerava-se, que a protegiam com os seus sagrados poderes todos os santos das suas oitenta igrejas e que o glorioso Senhor do Bonfim velava do alto de sua colina, para que se evitasse nessa noite a cremação total do burgo de Antônio Vieira e Rui Barbosa, em tamanha orgia flamívona.

De vez em quando, o transeunte incauto, que se afoitava por aqueles meandros vulcânicos, dava de frente com uma muralha de tochas uivantes com que o saudavam do alto das casas, e, se retrocedia, rugia-lhe no encalço, como as vozes de mil demônios, a surriada das bombas e dos buscapés, no clímax daquela outra noite de Walpurgis.

Só madrugada alta arrefecia a fúria incandescente. A esmaecência das últimas estrelas abrandava a pandorga luminosa, e, do braseiro mal extinto, que fumegava por toda a cidade, apenas subia uma que outra fortuita chamarada. Dentro da hora morta, no entanto, rompiam, agora, os gritos ensurdecedores de todos os anos: "Acorda, João! Acorda, João!" – com que os festeiros pretendiam estender até os paramos a fragorosa celebração de pouco antes, para ciência do bom santo.

Noites de São João, que transformavam a Bahia numa casa aberta, para a acolhida de todos os estranhos, na mais comovida expressão de solidariedade cristã daquela gente que bem prova ter bebido à farta o leite da ternura humana nos peitos da mãe preta. Noites de São João, que se prolongavam em cantorias pelo sertão afora, ao calor das fogueiras de murta estralejante, com o milho verde assado na brasa e o saborear da canjica da ceia, que só não era mais doce do que a memória que havia de ficar de certo beijo há momentos roubado, na passagem furtiva dum corredor deserto do casarão antigo.

 

(LIMA, Herman. Roteiro da Bahia)

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