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O bumba-meu-boi pelo São João

Luís R. de Almeida

Comunicação à Comissão Nacional de Folclore, por Luís R. de Almeida da Sub-Comissão Baiana de Folclore

Como sabem os caros confrades, o bumba-meu-boi é um bailado popular dramático organizado em cortejo e no qual as principais personagens variam de estado para estado. É um auto brasileiro, único em sua espécie, sem igualdade e semelhança em Portugal e África. Representação satírica onde conversam influências européias e negras, fundindo cantos de pastoris, toadas populares, louvações, loas dos presépios, aparece no ciclo do Natal até o dia de Reis.

Com essas considerações, o meu intento é registar um desses autos colhido por Eurico de Macedo, no seu livro O Maranhão e suas riquezas, talvez escapado à Comissão Nacional de Folclore.

Conta o mesmo autor que em Rosário, um hábil marceneiro modelador, em cada ano esculpia em cedro um animal da fauna do Maranhão, que era levado nos primeiros meses do ano, em animado festejo pelas ruas da cidade e pelas redondezas, ao som de cantos escritos e musicados por outros artistas da pequena cidade ribeirinha do rio Itapecuru-Mirim e muito agradavam aos assistentes. As músicas e os versos, assim como o animal variavam em cada ano. Tratava-se de uma paródia da brincadeira de bumba-meu-boi, e talvez mesmo estimulada para responder ao que fazia um outro rosariense, que também em cada ano com bastante antecedência, preparava um boi de belbotine ou de veludo negro, ornamentado em ouro e prata, organizando um festejo ruidoso e movimentado, com que trazia a cabeça virada às crianças, aos moços e até aos próprios velhos por onde era levada a caravana dos pândegos rapazes. Pois bem, esse inocente festejo culminava na noite de São João.

O autor da brincadeira gastava bom dinheiro do seu e dos entusiastas do bumba-meu-boi, porém, mais do que dinheiro, gastava ele o seu precioso tempo, em geral durante as noites, organizando os modelos do vestuário dos comparsas, sempre novo em cada caso, e bem representativo do que deviam exprimir na animada comédia.

Construindo em segredo, fora das vistas de todo o mundo para surpreender no primeiro dia da festa, o boi, as vestes, a célebre burrinha, as roupas especiais da mãe Catarina e do pai Francisco, passava o autor a recitar para um "escriba" os versos que deveriam ser cantados em cada cena e por ele mesmo imaginados e metrificados. Seguia-se a música, que deveria presidir, ensaiada sempre com a presença do mestre da banda local e, depois de organizada a opereta, até à perfeição desejada, sairia para visitar os maiores da cidade, entre os quais o negociante Heráclito Nina, o boníssimo Bostoque, como o chamavam comumente, que recebia o boi e a caravana festiva sob o fogo de centenas de buscapés, que levavam tempo invadindo os ares em todas as direções até espoucar estrondosamente.

Ninguém recuava diante daquele fogo infernal e o boi teria que ser defendido custasse mesmo, às vezes, e não raras, queimaduras aos acompanhantes de folguedo.

Atravessando o beco estreito, onde culminava a ofensiva do Bostoque sobre os corajosos rapazes, então passava o boi a dançar em frente à casa desse importante homem durante mais de uma hora, reproduzindo-se anualmente a mesma comédia.

Começados em maio, iam os folguedos até os fins das festas de São João, quando eram repartidos os benefícios recolhidos dos assistentes, toda vez que a língua do boi era extraída por pai Francisco.

Essa comédia tinha a seguinte explicação: Havia nos sertões da Bahia um fazendeiro chamado João, que festejava esse santo ruidosamente, concedendo nesse dia aos seus vaqueiros e agregados da fazenda todos os regalos e benefícios, em meio a fogueiras numerosas, nas quais as guloseimas eram distrubuídas sem medida.

Entre os regalos oferecidos aos seus agregados e vaqueiros, contava-se uma matalotagem especial, à custa de um erado, escolhido em cada ano para ser morto no ano seguinte, já bastante gordo. Ora, os vaqueiros tinham para esse animal cuidados especiais, a fim de poupá-lo às pestes e até ao mínimo carrapato ou berne, e daí resultava que ao ser laçado nas vésperas de São João, estava roliço de gordo e a sua carne seria com certeza a melhor.

De uma feita, foi procurado o nédio animal, e por mais que o vaqueiro batesse os campos, não o encontrou, embora estivesse certo de o ter visto poucos dias antes. Os demais vaqueiros da fazenda e, bem assim todos os vizinhos puseram-se à batida, interessados em descobrir tão desejado boi, porém em vão o fizeram durante dois dias e voltaram à casa grande para, com a maior mágoa, confessarem ao fazendeiro o fracasso de sua missão. Estavam nas vésperas dos festejos de São João e, ao mesmo tempo, do aniversário do patrão e não se teve outro jeito que o de lançar mão de qualquer outra para a matalotagem desejada.

Um caboclo, porém, que havia visto o preto Francisco às voltas com o boi poucos dias antes, relatou esse fato aos companheiros, de que resultou um inquérito, a prisão de Francisco, sua confissão de autor da morte do precioso boi, apenas atenuando a sua grave falta com a alegação de o ter feito para satisfazer o desejo da companheira a qual achando-se grávida, quisera comer a língua do animal... Ele, pois, cometera tão feio crime porque tinha muito amor à companheira e, não menos ao filho que deveria vir ao mundo dentro em pouco.

O castigo foi severo, não faltando a pai Francisco boas surras de relho, segundo o costume daqueles tempos.

No ano seguinte lembraram-se os vaqueiros do ocorrido e organizaram uma brincadeira, tendo por fim ridicularizar pai Francisco.

Fabricando um boi de pano comum, em forma de carapaça e cágado, com uma cabeça de boi reconstruída sobre uma caveira real, reproduziram todas as cenas, desde a caçada ao animal nos campos em auxílio dos caboclos até a prisão de pai Francisco, representado na comédia por um preto com um cavanhaque feito de pêlos de rabo de boi, e de mãe Catarina com uma enorme barriga em vésperas de dar à luz.

Tão bem representaram a farsa que o patrão achou muita graça e recompensou aos criadores do inocente divertimento e crítica.

Quem não gostou foi o pai Francisco...

Nessa fazenda, todos os anos, sob os auspícios do fazendeiro, a brincadeira era renovada cada vez com maior entusiasmo e daí se foi propagando a todo o sertão do Brasil com o bumba-meu-boi de hoje, tão conhecido de todos.

[1950]

 

(ALMEIDA, Luís R. de. O bumba-meu-boi pelo São João)

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