Nenhuma festa mais popular entre os
brasileiros do que a de São João, especialmente nas cidades e povoados do interior, onde
se mantém melhor o culto das velhas tradições religiosas da raça.
Entretanto, nas capitais como o Rio de Janeiro, apesar do cosmopolitismo, das posturas
proibitivas da Municipalidade e de outros entraves, a data famosa não é de todo
desprezada. E quem andar pelos subúrbios e pelas ruas afastadas do centro, na segunda
quinzena de junho, ouvirá de todos os lados o estrondar dos fogos, verá em todas as
esquinas as lanternas vermelhas das pequenas lojas de madeira em que os garotos vendem
bichas e busca-pés, bombas e rojões, chuveiros e rodinhas, estrelinhas e pistolas; e, se
erguer os olhos para o céu, avistará os globos luminosos dos balões, perdendo-se no
espaço.
Mas, no nosso interior, essa comemoração assume aspectos maiores e muito mais
interessantes. Ela recorda todo o nosso passado de costumes singelos e profundamente
nacionais. Nela vibram todas as almas rudes dos nossos matutos. É o tempo das fogueiras e
dos fogos, das danças e dos balões. O céu cobre-se com um número infinito desses. Em
cada porta de casa, ou em cada terreiro de fazenda, clareia o negror da noite urna grande
fogueira, em torno da qual todos os habitantes, patrões e servos, meninos e velhos,
homens e mulheres, andam e pulam, acendendo os seus fogos lendo as sortes, assando as
castanhas de caju da última safra, saltando de pés juntos por sobre as brasas,
realizando a simplíssima cerimônia pela qual se declaram compadres de São João,
ligando-se por amizade para sempre. Uns saltam, a fogueira, para obter felicidade, se não
tocarem nas labaredas, se não forem chamuscados. Alguns rodeiarn o fogo três vezes,
cantando. Outros a fim de mostrar a sua fé no poder do santo, atravessam o braseiro,
quando a fogueira agoniza, de pés nus, sem se queimarem. É ainda nesse tempo que as
moças vêem num copo de água a figura do homem com quem se casarão, ou que, dando, pela
manhã do dia do santo, a um pobre um vintém, que esteve mergulhado nas cinzas da
fogueira da véspera, lhe perguntam o seu nome de batismo. E esse será o mesmo nome do
seu futuro marido. Depois da fogueira, vêm as danças, as comedorias saborosas, os
copázios de aluá, de mocororó, de gingibirra, os grogues de parati
. Noite de
cantos e de alegrias, dos desafios ao pé
das violas e das sortes em verso,
entrecortados de ironias e de sátiras.
Tal festa não é brasileira e muito menos católica. Ela é tudo o que há de mais
profundamente humano e de mais visceralmente pagão. Velha conto o mundo, se tem
transformado ao sabor de cada meio e ao gosto de cada povo. E a religião católica, com a
sua extraordinária habilidade, não a esqueceu, quando organizou, no correr dos séculos,
as suas festas, adaptando-a ao seu espírito e dando-lhe como patrono um santo cujo dia
fica justamente na época do ano em que o paganismo morto a celebrava. Todos os
santos
do cristianismo são mais ou menos, filhos dos antigos deuses.
O espirito pagão da festa de São João é reconhecido por uma das maiores colunas morais
e espirituais da igreja, Bossuet, o qual diz no seu
Catechisme de Meaux o seguinte:
"LEglise sest resignée á y prendre part pour en bannir les
superstitions auxquelles aprés tant de siécles les populations ne peuvent se resigner á
renoncer".
O bispo de Meaux, descrevendo as cerimônias dessa festa, diz que elas constavam de
danças em redor da fogueira
, de festins, da colheita de certas ervas mágicas que
se deviam guardar sobre si para obter felicidade, da conservação, durante o ano, com o
mesmo fim, dos carvões da fogueira. São, mais ou menos, as mesmas cerimônias que
Ovídio descreve nos
Fastos, no livro quinto, renovadas a cada aniversário da
fundação de Roma.
Sobre a grande antigüidade da festa de São João não pode haver a menor dúvida. A esse
respeito o senhor Alexandre Bertrand se expressa deste modo (
Réligion des Gaulois,
p. 98) : "ces pratiques remontent á la plus haute antiquité, elles font partie de
lheritage de croyances et de rites que les tribus pastorales de civitisation aryenne
ont importé avec elles en Occident. Elles nont cessé, avec des legéres
modifications, de jouer chez nous um rôle traditionnel quaprés la
Révolution..."
A festa de São João é a festa de Agni, do fogo, a festa que comemora o solstício do
verão. E Santo Elói, no século VII, quando ainda a igreja a não adotara, trovejava
contra ela: "Não vos reunais, - dizia ele, numa encíclica aos seus diocesanos, na
época dos solstícios. Nenhum de vós deve dançar, ou pular em torno do fogo, nenhum de
vós deve cantar no dia de São João. Por que essas canções são diabólicas!"
Em Roma, segundo Ovídio, que nela participou, a festa do solstício se chamava Palilia.
Era a festa do deus, ou da deusa Palés: "sive deus, sive dea". Então, narra o
autor dos
Fastos, se acendiam fogueiras, em cuja cinza se cozinhavam favas,
ornavam-se as casas e estábulos de ramos verdes, recitavam-se três vezes certas
orações, atravessava-se pelo meio das chamas, sorrindo e cantando, porque o fogo tudo
purificava, homens e rebanhos:
"Per flammas saluisse pecus, saluisse colonos"
Essa sobrevivência do velho culto ariano de Agni, o benéfico e o protetor, passou de
Roma para as nações bárbaras que se formaram sobre as ruínas colossais do Império,
conquistadas pouco a pouco pela cultura latina. Nós a vemos assim, no início da Idade
Média, condenada por Santo Elói; depois, na festa da roda inflamada, que se fazia correr
pelo meio do povo, em pleno século XII, segundo o insuspeito testemunho de Jean de
Beleth, na sua
Summa de divinis officiis: "feruntur quoque in festo Johannis
Baptistae brandae seu faces ardentes et fiunt ignes rota in quibusdam locis
volvitur".
A reminiscência dessa roda de chamas é o uso atual de jogar fogo de rodinhas de papelão
orladas de estopim, em cujo centro há pinturas curiosas e, às vezes, a face do Batista.
Essas rodinhas, presas por um prego à ponta de uma vara, queimam, rodopiando, e recordam
a antiga grande roda inflamada das superstições medievais, como a passagem purificadora
pelo fogo, que Ovídio aconselha, é a mesma que nós realizamos nas nossas fogueiras de
São João, com intuitos de ser felizes durante o ano, ou para obter o compadresco
singelo. Obedecemos nisso à força insuperável da tradição milenária, indestrutível,
que celebra no dia de São João o solstício do verão, como no dia de Natal o solstício
de inverno. A igreja adaptou essas celebrações à sua maneira e os Manicheus lhe
reprochanam o ato: "solemnes gentium dies cum ipsis celebratis". Só o grande
Santo Agostinho replicou, com a sua formidável habilidade: "habemus solemnem istum
diem non sicut infideles propter hunc solem, sed propter eum qui fecit hunc solem". E
foi otimamente respondido.
[1923]
(BARROSO, Gustavo. O sertão e o mundo)