Mas Santo Antônio nem sempre
representa um papel tão admirável, e não raro o venerado padroeiro se torna vítima de
seus adoradores decepcionados; isso acontece mais de uma vez, quando a proteção do santo
é invocada a título exclusivo. Todo brasileiro, um pouco supersticioso, conserva em sua
casa uma pequena imagem de madeira colorida representando um Santo Antônio carregando um
Menino Jesus nos braços. No dia do santo, arranja-se um pequeno altar sobre o qual se
coloca a imagem, ridiculamente enfeitada com fitas de várias cores. Cercam-na de uma
multidão de velas acesas, ao pé das quais se distribuem as flores trazidas pelos
convivas. A iluminação do altar começa entre os mais devotos na véspera da festa, às
oito horas da noite, e continua sem interrupção durante vinte e quatro horas. Mas,
acontecendo uma desgraça na casa, o primeiro castigo que se inflige ao santo é a
privação do Menino Jesus, o qual lhe é imediatamente retirado dos braços. Se a
desgraça se repete ou se torna mais grave, retiram-se todas as fitas e amarra-se a
imagem, que é assim mergulhada num poço, de maneira a ficar com os pés molhados. A
pequena imagem fica nesse estado até a primeira prova de melhoria manifestada, e que é
atribuída à influência das preces que o santo dirige a Deus para se libertar da
situação incômoda em que o colocaram. Se, ao contrário, a infelicidade persiste,
mergulham a pequena imagem mais profundamente na água até o queixo. E, em continuando
ainda as calamidades, retira-se o santo do poço, abandonando-o com desprezo num recanto
qualquer, até que uma nova desgraça reanime a superstição do dono da casa, que,
dominado pelo hábito, implora espontaneamente a milagrosa proteção do santo, a quem se
restituem todas as honras devidas a seu culto.
(Viagem pitoresca e histórica ao Brasil)