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Festejos juninos em Maceió de outrora

Félix Lima Júnior

Quando terminava, no dia 31 de maio, os piedosos exercícios em louvor à Santíssima Virgem, Nossa Senhora, Mãe de Deus – o mês de maio – como se dizia e se diz ainda – os donos da casa, depois de servirem gentilmente aos convidados cálices de vinho, bolos e biscoitos com uma chávena de café quente, avisavam:

- Todos estejam aqui amanhã às 8 horas, para iniciarmos a trezena de Santo Antônio. Não faltem. Não aceitamos desculpas.

Iniciavam-se as festas, pela trezena de Santo Antônio, geralmente numa casa onde o dono tinha o mesmo nome do protetor de casamentos, tão querido das moças que não desejavam ficar no barricão.

Armava-se o altar na sala de visitas ou enfeitava-se mais ainda o oratório familiar com cravos, rosas, jasmim e o vento frio da noite balançava, suavemente, as finas cortinas bem cortadas e as folhas das palmeiras metidas em latas de querosene pintadas ou enfeitadas com papel de seda. Forrava-se a sala com o melhor tapete e acendiam-se as velas de todos os castiçais.

Convidavam-se os vizinhos, os parentes e os amigos com as respectivas famílias, que, por sua vez, convidavam outros parentes, outros amigos e outros vizinhos, pois, modificando o prolóquio, onde brinca um brincam cem...

Enchia-se a sala e na noite de 1º de junho, com os jarros cheios de flores, cadeiras tomadas por empréstimo à vizinha – que as de casa não eram suficientes – a sala bem iluminada, iniciava-se a trezena em homenagem ao santo, no altar, com o menino Jesus nos braços. Muita moça casadoira, pois ele é, como se sabe o protetor das que procuram um Cirineu para lhes ajudar a levar ao Calvário a pesada cruz, presenteado por Nosso Senhor; e rapazes muitos sem se lembrarem do santo, somente olhando as melindrosas, esquecidos de que corriam o risco de se transformarem, num passe de magia, em legítimos burros de carga para o resto da vida.

Vinde, Espirito Santo, enchei os corações
dos vossos fiéis e acendei neles o fogo
do vosso amor.

Depois cantava-se o Responso:

Quem milagres desejar
Contra os males do Demônio
Busque logo a Santo Antônio
Que nele há de encontrar.

Afinal, rezada a ladainha, terminavam as orações, quando todos, entoados e desentoados, cantavam fervorosamente:

Milagroso Antônio
Santo Padroeiro,
Enche de alegria
O Brasil inteiro!

As senhoras casadas e as pessoas mais idosas iam prosar na sala de jantar, enquanto a sala de visitas se enchia de melindrosas e almofadinhas. Ao piano uma das moças assassinava a Dalila, enquanto os rapazes com fumaças a poetas e literatos declamavam O palhaço do padre Antônio Tomaz, O teu lenço, de Guimarães Passos ou se tinham parentesco com o Salustiano cacete, recitavam O fiel, de Guerra Junqueiro, ou O estudante alsaciano.

Organizava-se, depois uma brincadeira qualquer: amigo ou amiga, minha mão direita está desocupada, caiu no poço, pisca-pisca, ditados populares, arara, casamento oculto, que uma vez por outra dava margem a aborrecimentos e ciumadas; ou então a berlinda, a velha berlinda, da qual saíam boas inconveniências gerando intrigas e inimizades...

De 10 para 11 horas já terminara a brincadeira.

No dia 13 a história era diferente. A festa não acabava às 11 horas. Arranjava-se uma dança e a folia se prolongava até às duas ou três da manhã, conforme a boa vontade dos donos da casa, principalmente se tinham filhas casadoiras... A fogueira queimava em frente à casa, com a bandeira ou o mamoeiro ao lado. Soltava-se uma dúzia de foguetões. E com eles uns balões de cores várias. A rapaziada acendia buscapés, chorões e limalhas, assustando muitos dos que estavam na calçada, que saíam a correr, receosos, pois se registrava, de vez em quando, desastres com inesperadas explosões e queimaduras graves.

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Às 11 horas surgiam bandejas com cálices de vinho de jenipapo, fabricado, nas Mangabeiras, pelo velho Cândido Romão Alves Nilo, funcionário municipal, ou do Porto, Xavier Leitão ou Lacrima Cristi, legítimo, comprado na casa Martins Ferreira, na rua do Comércio, a 2 e a 3$000 a garrafa, isso porque os colonos italianos do Rio Grande do Sul, não tinham ainda fundado a indústria vinícola de Caxias e de Garibaldi.

Ofereciam também cerveja, vermoute italiano ou gengibirra, além de munguzá, bolo de milho, canjica, pamonha, fatias de bolos de bacia, pão de ló, torradas com manteiga Bretel Fréres, ou Lepeletier e um cafezinho bem quente, coado na hora.

De repente, um barulho enorme na sala, uma confusão tremenda. Que foi, que não foi? Tinham roubado o Menino Jesus. Lá estava Santo Antônio sozinho, desconsolado, pois desaparecera, ninguém sabia como, o santo filho de Maria. Fora alguma moça, confiada na velha crença de que quem furtasse a imagem do Menino Santo casaria naquele ano... A imagem voltava, dias depois, aos donos da casa. O que nem sempre aparecia era o noivo desejado...

Santo Antônio, coitado! Já fora jogado em algum canto escuro, num ponto remoto, debaixo das camas, no fundo de um baú, dentro de vasilhas da cozinha, sem o menor respeito por quem conduzia, em seus santos braços, o menino Jesus, uma criança bonita, de feições finas e perfeitas com cabelos louros e crespos e fizera além disso tantos milagres...

– Que fizesse mais um dando-lhe um noivo com urgência se não queria ir sentir o frio d'água do fundo das cacimbas profundas, cheias de sapos e pequeninos peixes... – dizia a solteirona irritada.

Não respeitavam o santo católico, nem o bravo militar, capitão da Infantaria do Exército Português promovido, posteriormente, a tenente-coronel com direito a honras militares e ao soldo, recebido, pontualmente, pelo Guardião do Convento, no largo da Carioca, no Rio de Janeiro, até que, em 1912, o então Ministro da Guerra, General Emidio Dantas Barreto, de um penada sustou o pagamento.

Escondido o santo, antes de ir parar na cacimba, a moça que o furtara, ainda esperançada de achar um companheiro para ajudá-la a tornar a vida agradável, menos pesada e enfadonha, cantava, como advertência:

Meu Santo Antônio querido,
Santinho de carne e de osso.
Dá-me depressa, um marido
Senão te jogo no poço...


Para finalizar a festa dançava-se cotilon ou uma quadrilha bem marcada; ou então um coco, puxado, animado, de rebentar as mãos, até o dia amanhecer, dirigido e cantado pelo Manoel do Bazar, ajudado pelo Júlio de Castro e pelo Ramiro Caparica.

Estrugia o ganzá! As mãos estavam vermelhas de tanto bater palmas. De manhãzinha saíam todos, cansados mas satisfeitos, depois de terem cantado:

Bem-te-vi derrubou,
gameleiro no chão:
derrubou derrubou,
gameleiro no chão!

Tanta laranja madura,
Tanto limão, tanta amora,
Tanta mocinha bonita!
Minha mãe sem um nora...

A ladeira do Pilar
É tombadô
Toca fogo no sapé
Prá nasce fulô!

Festejavam-se Santo Antônio, São João e São Pedro na Fênix, no Aliado, na Caixeiral, na Terpsicore e em casas familiares, como a do saudoso coronel Antônio de Souza Almeida, na rua Augusta, esquina com a Cincinato Pinto, festas ainda hoje lembradas... Na estrada Nova, na casa do José Pereira Caldas, funcionário estadual, eram muito animadas. Em Bebedouro, na residência do coronel Olímpio Ether, na esquina da praça Santo Antônio, dançava-se até o dia amanhecer, depois de terem assistidos as cavalhadas, a procissão e os festejos na tarde e na noite do dia 13.

Na residência de pessoas animadas, que não possuíam pianos, contratava-se um bom tocador de harmônica e o arrasta-pé, animadíssimo, só terminava madrugada alta. Na falta da harmônica um choro ou um reco-reco prestavam bons serviços, e eram substituídos, às vezes, por um gramofone, comprado ao Inocêncio, na rua do Comércio, com discos de música "tocada pela banda do Corpo de Bombeiros, especialmente para a Casa Edson, Rio de Janeiro".

Na véspera e no dia consagrada a São Pedro, acendia-se outra fogueira, substituía-se a bananeira ou o mamoeiro. À noite a alegria era a mesma, com idênticas brincadeiras, danças, quadrilhas e adivinhações. E os mesmos pulos na fogueira – moças e rapazes de mão dadas, se não estivesse chovendo.

Chovia muito e sentia-se frio terrível, pelo menos em Maceió, onde a temperatura raramente baixa a 20 graus. Eu ia dobrando o beco de São José (Tibúrcio Valeriano), e na casa de esquina com a rua Boa Vista, onde hoje está instalada uma mercearia, casa de taipa e de biqueira, com uma porção de janelas pintadas de cinzeiro, algumas com rótulas, um grupo de moças, na sala de visitas, dançava o coco, o tradicional coco alagoano, batendo palmas, enquanto um rapazola, a um canto, agitava furiosamente um ganzá. O relógio batera nove horas de uma noite de junho de 1913 e cantava-se alegremente:

Pisei, pisei, na ponta da rama
Pisei, pisei, tornei a pisar!
Pisei, sem querer, o teu lindo pezinho
Pisei, de mansinho, no teu calcanhar!


Ou então:

Meu barco é veleiro,
Nas ondas do mar!
Meu barco é veleiro
Nas ondas do mar!


E depois de uma pausa, para descanso, principalmente dos braços do rapaz do ganzá:

Eu também vou,
Apanhar maracujá!
Eu também vou,
Apanhar maracujá!


Pisa na barata,
Machuca as baratinhas!
Tenho o meu dinheiro,
Pr’a gastar com as moreninhas!


Fecho os olhos e julgo estar vendo, ainda, as gentis patrícias muito animadas cantando e dançando:

Capelinha de melão,
É de São João!
É de cravo, é de rosa,
É de manjericão!

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Na véspera do São João, em 1908, mais ou menos, rapazes da melhor sociedade de Maceió, chefiados por um oficial do Exército que aqui servia, bem armados com buscapés de estouro assaltaram outro grupo bem entrincheirado no beco da Marabá, travando-se renhida luta.

Em frente a uma casa, na rua 16 de setembro, no mesmo ano, quando se dançava alegremente, véspera de São Pedro, um rapazola, filho de família vizinha, acendeu um gibu e, para fazer graça e se exibir ante a namorada, começou a girá-lo até que ele rebentou, ferindo a mão direita, da qual dois dedos foram amputados. Interrompida a dança nessa noite ninguém mais brincou. E nem dormiu a família da vítima, que morava perto, com os gemidos do pobre moço.

Nas calçadas das casas onde se dançava reunia-se o sereno, que as vezes, se tornava inconveniente, principalmente se o dono da casa era cordato... Os despeitados, que não conseguiam entrar, pintavam o diabo, falavam alto, criticando os que se divertiam, procurando ridicularizar os dançarinos e até, quando o ambiente permitia, jogavam pimenta malagueta ou do reino, impedindo as danças...

Aproveitando os festejos e a oportunidade, algumas moças muitos vigiadas pelos pais, saíam, sorrateiramente, e iam conversar, na esquina, com os namorados, aproveitando o jubilêo...

Garotos endiabrados aproximavam-se das moças e senhoras sentadas nas cadeiras postas na calçada e jogavam, sem que elas vissem, uma bomba, que explodia, dando margem a sustos e correrias; ou então um buscapé, que queimava o vestido de uma garota ou a meia da outra. Ficavam eles, de longe, a rir, assistindo o efeito de suas brincadeiras perversas...

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Que diferença imensa do São João dos tristes dias que correm! Balão ninguém solta porque a polícia proíbe, o que impediu um devoto do Precursor, na noite de 23 de junho de 1952, fizesse subir um, de papel de seda, grande e bonito. Fogueiras são encontradas no Farol, nas Mangabeiras, no Poço, em Bebedouro; na Ponta Grossa, no Prado, em Pajuçara, na Ponta de Terra, no Trapiche, e somente nas ruas não calçadas; pamonha, canjica, pés de moleque, bolo de milho, munguzá, numa casa ou noutra; coco, o legítimo coco alagoano, de que se falava no Brasil inteiro, ninguém mais sabe dançar; onde uma quadrilha, bem marcada, em francês que se possa ouvir, como fazia Valeriano Gomes? Os bailes da Fênix Alagoana não têm canjica, nem milho verde assado porque a Maria Rosa já morreu e está lá no céu servindo esses quitutes a São Pedro e aos demais auxiliares da Portaria do Reino de Deus. Não se bebe mais gengibirra e nem o maduro, depois que Nosso Senhor levou além do Pelágio, o preto Sabino, o velho Antônio França Morel e sua dedicada esposa e auxiliar, Dona Toinha...

Tudo tão diferente, tão triste, tão sem graça... Teria mudado o São João ou mudei eu? – pergunto, parodiando o grande Machado de Assis.

No interior do Estado, no pátio das velhas igrejas, no terreiro das habitações modestas, em frente às casas-grandes, nas vilas e nas aldeias, bem como nas cidades das margens do Jacuípe ao Moxotó, dança-se e brinca-se na sede da Filarmônica, do clube de futebol ou no prédio da prefeitura; ainda se registra certa alegria e despreocupação, ingenuidades e animação, talvez mesmo uma fé viva, o que não se nota, infelizmente nas capitais e nas grandes cidades, pois a civilização (pode se dizer civilização?...) vai descaracterizando ou matando sem piedade essas tradições populares, tão doces, tão suaves que, recordando-as, se enche de saudade e de amargura o coração de todos os que as assistiram nos bons tempos passados que não mais voltarão...

 

(LIMA JÚNIOR, Félix. In Boletim Alagoano de folclore, ano 2, nº 2, 1957)

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