Junho 2008 - Ano X - nº 113
É por
ocasião das festas juninas que, entre outras funções sociais, se reforçam os laços de
solidariedade através dessa instituição que está se tornando folclórica o
compadrio. No nordeste brasileiro, muito mais que noutras partes, uma das formas pela qual
os moradores das comunidades rurais, dos "bairros", das aglomerações
urbanóides, demonstram a cordialidade é a escolha do compadre. Verdadeira instituição,
paralela à da família, chegando às vezes a entrelaçar um número bem maior de membros
através do "parentesco pelo coração" do que pelo do sangue. Há provas
evidentes nas comunidades rurais nordestinas de que os liames afetivos que prendem um
compadre ao outro, são por vezes, em certos aspectos, tão fortes como aqueles que unem a
irmãos. Acontece muitas vezes que estes são rotos por interferência de ordem
econômica, como é o caso de partilha de herança, quase sempre fatal para o bom
andamento das relações amistosas interfraternais. Há também casos em que os irmãos
são entrelaçados pelos liames do compadrio. É tão importante este tipo de relações
que o próprio tratamento entre eles se modifica. Deixam ambos de se tratar pelo nome, mas
antepõe sempre o compadrio. Tratamento respeitoso que não sofre solução de
continuidade, caso venha a falecer o afilhado.
Estabelecem-se entre os compadres certo liames que chegamos a acreditar sejam às vezes
mais fortes do que entre parentes, tais como entre tios e sobrinhos. É comum o uso de
luto durante três meses, por causa do falecimento de um compadre, cujo compadrio date de
vários anos.
Há no Nordeste (Alagoas, por exemplo) dois tipos de compadre: o da igreja e o da fogueira,
O da igreja é aquele que leva a criança, o afilhado para receber o sinal de iniciação
o batismo na igreja católica romana. O de fogueira é o caso em que não
há criança a ser batizada, são apenas compadres, que passam a tratar-se respeitosamente
por tal. Não há apenas os compadres de fogueira, há tios, sobrinhos, pais e filhos de
fogueira. Basta que um afeto forte os aproxime para que no dia de São João, ao saltar da
fogueira, façam antes um juramento e a seguir saltem em cruz três vezes a fogueira.
Desse momento em diante passam a tratar-se de acordo com o que adrede ficou combinado. Ao saltar a
fogueira revivem, sem o saber, um ritual de origem celta.
O juramento que precede ao salto da fogueira é o seguinte:
"Eu juro por São João, São Pedro e São Paulo e todos os santos da corte do
céu". A seguir saltam a fogueira dizendo:
"São João dormiu
São Pedro acordô,
vamo sê cumpadre
que São João mandô".
Repetindo três vezes de cada lado passam a tratar-se por compadres ou tios e sobrinho,
pai e filho, etc.
Quando tal não se dá por ocasião de São João o fazem então na fogueira do dia de
São Pedro, último santo junino a ser festejado. No juramento, o primeiro a ser invocado
então é Pedro e a quadrinha repetida é:
"São Pedro dormiu
São João acordô,
Vamo sê cumpadre
que São Pedro mandô".
Quando é um menino que convidou uma pessoa adulta para ser seu padrinho, o juramento é o
seguinte: "Eu juro por São João, por São Pedro e São Paulo e todos os santos
da corte do céu que o sinhô vai sê meu padrim e eu vô sê seu afilhado que São João
mandou".
Saltam a fogueira, repetem a quadrinha, o afilhado repete três vezes: "vai sê
meu padrim", e o padrinho: "vai sê meu afilhado".
Muitas vezes, um menino não tem mais padrinho porque este faleceu, arranjam-no na
fogueira e as relações passam a ser respeitosas.