Jangada Brasil, a cara e a alma brasileiras
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Sumário

Santos de junho: suas histórias, lendas e festas

Ciclo Junino
Festejos juninos em Maceió de outrora
Os três santos de junho

Santo Antônio

Santo Antonio
Xácara de Santo Antônio
Pequena imagem de Santo Antônio conservada para proteger a casa
Santo Antônio no folclore brasileiro
Santo Antônio casamenteiro
Pão dos pobres e lírios de Santo Antônio

São João

A festa de São João
A noite de São João
O bumba-meu-boi pelo São João
O São João no bairro de Bate-Pau
O despertar do santo na festa da véspera
São João e suas lendas
São João nordestino
A véspera de São João em Sergipe
A véspera de São João na Bahia
Assim surgiu a festa de São João
São João baiano
O São João da minha terra
Ladainha de São João no Guaçuí
São João no velho São Paulo
Noite de São João
Festas do povo
São João

São Pedro

São Pedro no folclore fluminense
Festa de São Pedro
São Pedro na voz do povo
Festa de São Pedro
Três histórias populares de Jesus e São Pedro pelo mundo
O cunhado de São Pedro
Uma véspera de São Pedro e os relatos da passagem por Campinas
A imagem de São Pedro no Rio Grande
Jesus Cristo, São Pedro e o ladrão
Três histórias de São Pedro: O preço do sonho, São Pedro e o diabo e Como São Pedro aprendeu a pescar.
São Pedro no Boqueirão

São Marçal

30 de junho, dia de São Marçal. A história do bem-aventurado São Marçal, bispo

A fogueira, os fogos e os mastros

A fogueira de São João
Fogueiras juninas
Fogueira de São João
Fogos de São João
Fogueteiros, artesãos de efêmeros
Junho, festivo mês dos balões
Mastros de São João
Tradicionalismo folclórico da fogueira: o bumba-meu-boi junino

Comidas

Culinária joanina
Culinária junina
Culinária joanina em Alagoas
A deliciosa cozinha baiana do São João
Cuscuz, canjica, pamonha, cocada, quentão, e muitas outras receitas para a festa junina
Lenda sobre a origem do milho
Alguns quitutes e bebidas das festas juninas
Quitutes e costumes folclóricos do mês de junho
Pedidos de canjica

Sortes, adivinhas, crendices e superstições

Amor e sonho no São João
Compadre e comadre
O compadrio
Sortes de São João
Algumas sortes de São João
Quinze adivinhações de São João
Efeito salutar da oração dirigida a São João
Noites de São João, banho de felicidade, cheiro de papel
Algumas sortes de São João
Adivinhas e tradições das festas juninas

Brincadeiras, danças e músicas

Rodas de São João
São João feito por estudantes das repúblicas
Brincadeiras para festas juninas
Quadrilha
A quadrilha de Santa Rita do Passa-Quatro
Rodinha de São João
Músicas juninas
Brinquedo de São João para ser representado
Pau de sebo
Cantiga de Roda: Capelinha de melão
Pau de sebo
Brincadeiras para festas juninas
Como fazer bandeirinha e lanternas
Festa de São João

 

 

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Junho 2008 - Ano X - nº 113

Edição Especial: Festas Juninas

Compadre e comadre

Luís da Câmara Cascudo

Fora da família nenhum liame era mais forte e poderosamente decisivo quando o compadrio. Se os padrinhos tinham canonicamente, todos os deveres e direitos para seus afilhados, canônica e juridicamente nenhum vínculo reunia compadres e comadres na indissolubidade sagrada de uma comunhão espiritual que durou séculos.

Foi uma criação católica e seu alcance era aproximar humanamente os ricos e poderosos dos pobres e fracos. Estabelecia uma comunicação obrigatória de serviços mútuos explicadora de muita "paz social" em regiões ásperas de desequilíbrio econômico. O senhor Manuel Rodrigues de Melo foi o primeiro a expôr as linhas essenciais do complexo sociológico que encheu de força cooperante e de confiança tranqüila as terras do interior brasileiro. Empurrou muito nome para o Senado do Império e ainda, desfalecida e teimosa potência, resite fiel aos seus compadres deputados federais.

Recebemos de Portugal a instituição em sua grandeza serena. Lá, outrora, os fidalgos se tratavam por "primos" e os aldeões por "compadres". O nome, por si mesmo, valia evocação emocional, com padre, cum pater, com madre, cum mater. Com igual e menor valor viveu pela Europa cristã. Na França o compére, le bom compère, como gostava de chamar o rei Henrique IV aos seus capitães, era nome aliciador de intimidade alegre, de convívio folgazão. O mesmo na Itália e na Espanha. Mas entre si os compadres não tiveram a profundeza mística de um pacto como se verificou em Portugal e floresceu, frondosa e longamente, no Brasil quase até nossos tristes dias...

O instituto se derrama por toda a América espanhola, ombreando valentes e humildes e dando a todos um direito imprevisto de participação direta e soberba nos momentos supremos. Era realmente um cognatio espiritualis jamais previsto pela casuística. Punha o compadre-pobre na eterna e jubilosa vassalagem senhorial, trabalhador dedicado com o soldo do pague-se-quiser. Situava o compadre-rico na obrigação de arrolamento místico do seu "homem", obrigando-se a defendê-lo ante tudo e ante todos, arriscando vida e bens porque nele se refletia, integral e completa, a figura oniponente da parte rica, influente e sensível. Qualquer ofensa ao compadre-pobre caía sobre a personalidade do compadre-rico. Quem tivera empurrão do delegado, chanfrada de facão, opróbrio de cadeia, fora o coronel, o fazendeiro, o senhor de engenho, o chefe enfim. Por causa de um compadre-pobre famílias abastadas empobreceram, armaram bandos para arrancá-lo da prisão, fizeram eleições espaventosas, idas de advogados ilustres, júris ruidosos, absolvição saudade com mil dúzias de foguetões trovejantes.

No outro lado da balança o compadre-pobre estava voando na ponta da faca do primeiro agressor ao seu compadre-rico, custóda, égide, bandeira, paradigma. Fazendeiros e senhores de engenho tinham milhares de compadres. Francisco Cascudo, coronel da Guarda Nacional, meu pai, deixou, vivos, 1.005 afilhados, mais de dois mil compadres espalhados pelo Rio Grande do Norte, Ceará e Paraíba. Uma vez o vigário-geral monsenhor Alfredo Pegado batizou, em roda, trinta crianças. Meu pai foi padrinho de vinte e cinco. Era esta a média por nordeste. Não fixava apoio financeiro mas essencialmente o fundamento moral, a proteção para os casos difíceis, imprevistos, angustiados. O pedido ao padrinho surgia na convocação do serviço militar, no rapto da filha, na invasão do roçado, na obstinação do credor, na violência do sargento comandante do destacamento policial ou do cabo delegado de polícia, poderoso como Ramsés II. Era tempo incrível em que o ciclo das secas permitia as lavouras de nossa produção. Os rapazes terminado o ano de quartel, regressavam, em maior percentagem, ao cabo da enxada. Incrível e verídico.

Desde que o compadrio passou à função financeira e a intuito político, ter emprego e acima de tudo vir morar na cidade, o instituto foi desaparecendo, diluído, desmoralizado pela malícia das partes contratantes, os compadres que traficam com o velho título sagrado de outrora. Agora é tão inútil quanto outra qualquer inutilidade histórica que fora valiosa e boa.

No tempo da escravidão a técnica das negras era conseguir que sinhá-moça ou sinhá-velha levasse o negrinho ao batismo. Havia sempre a idéia de "libertar na pia", tão usual e comum e que estudei na História do Rio Grande do Norte em face de escrituras de manumissão. O compadre escravo possuía da parte do senhor a indispensável tolerância para a infalível crise de preguiça e cachaça. Meu avô materno, o capitão Manuel Fernandes Pimenta, quando um escravo lhe pedia para ser compadre, dava, quando podia, uma desculpa: - "Não posso não. Tome dois mil réis e continue a ser sério e trabalhador. Todo escravo meu compadre dá para beber e dançar!..." E dava mesmo.

O padre Cícero do Juazeiro, Cícero Romão Batista, deixou possivelmente uns dez mil afilhados pelo nordeste e norte do Brasil. Um dia farão justiça ao velho sacerdote, dizendo-o poder moderador de sua atribulada e calcinada zona. Seus afilhados, nalguma porção mais tendenciosa ao sabor local e temporal, podiam ter sido ainda piores sem a benção do padim que era para eles uma pessoa da Santíssima Trindade.

Toda vez que um direito consuetudinário, firmado logicamente na tradição que o tornou costume aceito e natural, é transformado em obrigação jurídica, regulado em decreto e funcionado em audiência legal, perde sua força espontânea que é a liberdade de execução como hábito. Muitas das nossas leis de assistência rural eram regras seculares do compadrio. Seriam de menor eficácia e de efeito em área mais reduzida. Mas existiam e se não existissem não havia explicação para o equilíbrio entre população e produção (equilíbrio relativo). Tornadas leis, o compadrio abandonou, como o touro reprodutor que se nomeou funcionário público, o campo de ação tradicional que a jurisdição coerciva.

O compadre. Leude du Chef, antrustion du Roi, sob o mundiun do compadre rico, daria péssimo soldado vulgar na mesnada, rebaixado de fidel a mercenário. Somente em situações que se tornam psicologicamente raras é que o compadrio, real e velho, mantém sua soberba fisionomia na servidão jubilosa de que falava Ruskin.

O elemento influenciador era o liame sagrado, instituindo uma espécie de adoção do pobre pelo rico. O compadre figurava na família sem lugar certo mas com a legitimidade funcional que o título lhe dava. Era bem um cognato que participasse de ambos os lados, masculino e feminino, sem que lhes possuísse o sangue e o estado social.

Esse compadrio, compadrazgo, foi realmente instituto social por todo continente americano. Juan B. Ambrosetti, falando sobre Brasil, Argentina e Uruguai, informa: - El compadrazgo, entre aquella gente, tiene una gran importancia: es uno de los vinculos más sagrados que pueden unir a dos personas, y en mucho casos de la vida, alli en medio del desierto, este lazo moral es lo único que puede oponerse al egoísmo innato tan desarrolado en las sociedade semiprimitivas.

Chegavam a requintes de evitar palavra feia. Entre compadres no es permitido, y se reputa grave falta, el pronunciar palabras obscenas, y si alguno lo hace inconscientemente debe pedir desculpa al outro, so pena de un disgusto serio a causa de hacer poco caso del sacramento sagrado que los une.

Muitas vezes assisti no sertão o valimento deste título sagrado de compadre posto à prova na intervenção pacificadora entre animos exaltados pelo álcool ou política. A fórmula era quase sempre a mesma: - Compadre! Meu compadre! Me atenda! Não me falte, compadre! Podia desarmar o compadre turbulento e levá-lo para fora do local da discussão.

Ambrosetti semelhantemente registra: - Un compadre puede exigir del outro lo que no se puede conseguir por otros medios, como, por ejemplo, el hacerle abandonar una pulperia entando borracho, o que cese una riña que puede concluir en puñaladas, etc., sin mengua de su honor, puesto que el sacramento está sobre todo.

Era o intermediário clássico em questões sérias, avisos delicados, envolvendo pontos de honra. Os próprios irmãos podiam excusar-se da missão mas recorria-se ao compadre. Você, como é compadre dele... Estava credenciado o embaixador e plenipotenciário.

A distância não enfraquecia a reciprocidade obrigacional do vínculo. Com dezenas ou centenas de léguas separando-os, os compadres estavam no mesmo ambiente de mútua defesa, de solidariedade, no mínimo, no dever irrecorrível de defender o ausente acusado em sua presença. Não me fale de um compadre meu na minha frente! Tem defeitos mas é meu compadre e tenho que punir por ele. Punir, no sertão, é pungar e não castigar. Puna por mim, tenho que me puna, são frases usuais.

A ligação do casal com o filho na pia batismal sagra para sempre o solidarismo popular. A criança estende sobre todos seu prestígio dívino. Henry Koster anotou nos sertões do Rio Grande do Norte e Ceará em 1810 que o sertanejo chamava comadre à cabra que dava leite para o filho. Quanto mais que o fizera cristão. Outrora, voltando-se do batizado, a madrinha entregava o afilhado à mãe, que não devia assistir à cerimônia dizendo, num cerimonial: -Comadre, aqui lhe entrego esta criança que levei pagão e lhe trago cristão! E, já reposto no colo maternal, a criança recebia a primeira benção dos padrinhos.

A minha madrinha-de-vela, dona Alexandrina Barreto Ferreira Chaves, naquele longínquo maio de 1899, disse a fórmula tradicional ao passar-me para os braços da minha mãe.

Nenhuma outra religião pensara em criar o compadre e a comadre em ação desta afinidade prodigiosa. Não havia, em Grécia e Roma, batismo e sim a mera imposição do nome diante dos deuses lares pela voz do pai-de-família. Seguia-se a integração do párvulo na família pela cerimônia da Anfidrômia, fazendo-o rodear o fogo do lar. Os padrinhos são católicos e o compadrio uma natural projeção sagrada e lógica embora sem fundamento canônico. Criou-se o vínculo porque era impossível não haver parentescos entre os dois casais ligados pela criança, centro de interesse comum.

Gregos e romanos tinha o paranymphus (pará, junto, nymphe, noiva) em cousa alguma lembrando o padrinho, mesmo nos casamentos. Eram três rapazes que tivessem pais vivos, encarregados de acompanhar a noiva até à casa do esposo. Na Grécia tinham a administração da economia do banquete e guardavam o leito da nova desposada. Nenhum título, nenhum direito, nenhuma conseqüência posterior. Era mais uma homenagem da família aos amigos. Correspondia o paraninfo ao garçon d’honneur contemporâneo. Na imposição do nome oficiava apenas o pai. Nada mais.

O compadre pode independer economicamente um do outro e subexistir o direito moral. Não é o cliens romano. Pode residir em terras próprias e ser igual financeiramente ao seu compadre. Há sempre, em razão ideal, a igualdade de condições psicológicas para pô-los à vontade no momento da intervenção ou do pedido de auxílio.

Todos os descendentes das velhas famílias do interior do Brasil, em qualquer ponto do território, sabem da velha importância capital para um fazendeiro, senhor de engenho, chefe político, representada pela massa dos compadres. Era a amplificação da família e muito do poderio eleitoral repousou na base do compadrio feliz em servir o chefe.

Não é de menor curiosidade o fator econômico ser ou não presente. Mesmo para os pobres, vivendo nas terras ou fora das propriedades, o típico era ter o compadre como uma garantia, uma custódia, um reforço decisivo e não um elemento presente de auxílio financeiro. Naturalmente milhares de compadres eram ajudados pelos seus compadres ricos mas esta condição não caracterizava tipicamente o instituto do compadrio.

Para os maus-compadres, egoístas, injustos, invejosos, a literatura oral possui contos e anedotas abundantes no castigo fatal inevitável.

As relações entre o compadre rico e a comadre pobre mereceram a precaução de um tabu proibitivo. As relações sexuais eram danadas e constituíam crime horrível.

Há o fogo do compadre e da comadre, espécie de boitatá, dois fachos luminosos e azulados que correm, dividindo-se e juntando-se consecutivamente, até o alvorecer. Juan B. Ambrosetti informa na região misionera do Brasil e Uruguai: - Si los compadres, olvidando el sacramento sagrado que los une, no hicieran caso de el, faltando la comadre a sus deberes conyugales com su compadre, de noche se transformarán los dos culpados en Boi-tatá, es decir, en grandes serpientes o pájaros que tienen en vez de cabeza una llama de fuego. Estos se pelearán toda la noche, echándose chispa y quemándose mutuamente hasta lá madrugada, para volver a comenzar la noche siguiente, y asi Per Secula Seculorum, aun después de muerto (Supersticiones y leyendas, Buenos Aires, s.d.).

Um conto moral adianta o assombroso castigo. Um compadre namorava a comadre e sonhou que o diabo o levara ao inferno e ia mostrando as instalações destinadas aos diversos tipos de pecados. Para os assassinos, para os incestuosos, para os padres de má-vida, para os ricos sem coração, e o compadre ia ouvindo. Súbito o demônio indicou-lhe um instrumento de tortura tão repugnante e horrível que o nosso homem estremeceu, apavorado. – Para quem é esta punição tremenda? Para o compadre que namora a comadre! O herói acordou suando gelado e deixou a pretensão comadresca.

Há, com maior ou menor importância social, decorrente do ciclo de São João, um compadrio criado durante estas festas. Não sei de sua existência em Portugal ou Espanha. Até prova em contrário será copyright by Brazil. Pertence ao quadro das Joking relationships.

Os candidatos, rapaz e moça ou ambos do mesmo sexo, ficam cada um de um lado da fogueira acesa de São João. E declamam, alterna e por três vezes, a fórmula:

a) São João disse...

b) São Pedro confirmou...

a) Que nós fossemos compadres...

b) Que Jesus Cristo mandou!...


Cada vez que falam trocam os lugares. Na terceira vez abraçam-se gritando: - "Viva São João e vivamos nós, compadres!". A fórmula compreende igualmente a constituição de primos, noivos, padrinhos, madrinhas, etc. É uma legítima e tradicional criação de parentés à plaisanterie, como classificava Marcel Mauss.

Nesta classe existe em Portugal uma série de compadrio que não teve repercussão no Brasil.

Jaime Lopes Dias, Etnografia da Beira, VII, informa que no Dia dos Santos, (Todos-os-Santos, 1º de Novembro) consagrado aos "magustos" que é a refeição campestre de castanhas assadas e vinho, "Rapaz ou rapariga que encontre uma castanha afilhada (pegada a outra mais pequena), oferece-a com um copo com vinho, se é rapaz, a uma rapariga, e, se é rapariga, a um rapaz e pergunta-lhe: - Como te chamas?: - Raminho de bem querer. Abraçam-se em seguida e dizem: - "Seremos compadres firmes, até morrer". E depois dividem a castanha e bebem o vinho pelo mesmo copo".

Em carta, 03/08/1953, Jaime Lopes Dias falava-me ainda das "Quinta-feira de compadre" e "Quinta-feira de comadres" nas duas semana anteriores ao Carnaval. Explica-me, em carta de 10/08/1953, que o processo deste compadrio é o seguinte: - "Escrevem num pequeno papel o nome de cada um do grupo. Os dos homens são metidos num chapéu, num cesto, em qualquer recipiente, e das mulheres noutro. Extraem um bilhete com o nome de um homem e em seguida outro com o nome de uma mulher. As pessoas, que os bilhetes dizem respeito, ficam compadres. O compadre fica obrigado a dar as amêndoas pela Páscoa da Ressurreição à comadre, e esta a retribuir com um pão de ló no Domingo de Páscoa!"

Gastão de Bettencourt, por sua vez consultado, diz-me em carta de 19/08/1953: - "Sobre compadres. Temos os compadres de "mão posta", aqueles a quem se pede a benção ("sua benção padrinho" – "Deus te faça um santinho" ou "Deus te abençoe meu afilhado"), que são os de batismo ou da crisma. Os compadres do vime (no Alentejo e não sei se noutras partes mais), que são um João e uma Maria, que na noite de São João passam por uma vara de vime aberta, uma criança herniada dizendo: - Maria, em louvor de Santa Maria e do Senhor São João, tome este menino quebrado e dê-me para cá um são". E ela: - "João, em louvor, etc...(os mesmos dizeres). Há também no Alentejo, os compadres do Carnaval, escolhidos nas duas quintas-feiras que antecedem Domingo de Carnaval. No 1º, dos compadres, no 2º das comadres. Nesses dias que são chamados de compadres e de comadres, reunem-se os moços de 23 anos para a escolha dos futuros compadres os quais saltarão as fogueiras de São João juntos". São os dois depoimentos portugueses.

Na Argentina (Orestes di Lullo, El folklore de Santiago del Estero, 60) há El encuentro de las comadres na quinta-feira antes do Carnaval, festa exclusivamente feminina. Dois grupos, com acompanhantes, encontram-se sob arcos floridos. Bebem, comem, cantam, bailam e jogam a "pandorga" (jogo de baralho) tudo entre mujeres nomás.

No Chile do compadre de ahijado há o compadre de mamo o de boca. Diz um para outro camponês:

- Quiere usted ser compadre conmigo?

- Si.

Pues compadres seremos en esta vida y en la otra, y en el valle de Josafat nos encontraremos y saludaremos.

Podem arrepender-se dentro das primeiras vinte e quatro horas. Decorrido este tempo o vínculo está formado e tão sólido quanto el compadrazgo de ahijado. Há as mesma proibições sexuais e a mesma crítica feroz popular contra os insubmissos à regra consuetudinária.

A curiosidade maior é o casamento do compadre com a comadre (morto o afilhado). Só se pode realizar com os nubentes em trajes menores, com freno y mascando pasto e ambos de quatro pés no solo. Assim um casal em Salamanca sujeitou-se ao matrimônio, com freios na boca, o homem de ceroulas e a mulher de anágua e de gatinhas na hora do cerimonial. Dirá do conceito de animalidade que é tido o casamento, mesmo permitido, de comadre e compadre.

Só o simples fato de constituir-se alguém compadre é bastante para afastar a possibilidade do pecado. No Chile, escreve Vicuña Cifuentes, ocorre identicamente. "Este compadrazgo "de mano" sirve muchas veces para alejar sospechas de malas relaciones entre personas de distinto sexo. Al autor le tocó presenciar uno de estos casos".

Esta tradição, de fiel e exigente cuidado em Espanha e Portugal, trouxe para a terra americana a repulsa formal ao ajuntamento carnal dos compadres. Numa denunciação de 17 de agosto de 1591, Pauloa d’Almeida acusa o senhor de engenho Fernão Cabral de haver tentado amorosamente a uma irmã da denunciante e duas vezes comadre do denunciado. Mais claro é o texto daquele final do século XVI:

"e denunciando disse que averá três anos pouco mais ou menos que sua irmã Luisa d’Almeida molher de Joam d’Almeida disse a ela denunciante que Fernão Cabral de Taíde dentro na sua igreja de Jaguaripe a cometera para ter com ela ajuntamento carnal desonesto e que ela lhe respondera que atentasse que era ele seu compadre duas vezes e que lhe levara a pia um seu filho a batizar dela e o dito Fernão Cabral lhe respondeu que tanto montava ser comadre como não no ser, e que dizerem ter cópula com comadre é maior pecado que com quem não é comadre isto erão carantonhas que Qua de fora lhe queriam por, e que isto lhe contou a dita sua irmã mostrando se muito queixosa dele..." Primeira visitação do Santo Ofício às Partes do Brasil, Denunciações da Bahia, 1591-1593, (São Paulo, 1925, p. 352).

Esse "horror ao incesto" explica a sugestiva figura do canereno no "Batuque de São Paulo", Alceu Maynard Araújo (Documentário folclórico paulista, 11) registra: - Há mesmo uma figuração coreográfica chamada pelos batuqueiros "granchê", "grancheno" ou "canereno", na qual o pai não dança com filha, porque é falta de respeito dar umbigada, então executam movimentos que nos fazem lembrar a coreografia da "grande chaine" (grande corrente) do bailado clássico. (Granchê é mesmo deturpação dos vocábulos franceses, muito usados na dança da Quadrilha). Evitam o "incesto" executando o "cumprimento" ou "granché", "pois é pecado (sic) dançar, (e a dança só consiste em umbigadas), nos seguintes casos: pai com filha, padrinho com afilhada, compadre com comadre, madrinha com afilhado, avó com neto ou batuqueiro jovem". Se porventura, por um descuido, um batuqueiro bate uma umbigada na afilhada, esta lhe diz: "a benção padrinho". O padrinho mais que depressa vem-lhe dando as mãos alternadamente até perto da fileira onde estão os batuqueiros, sem batucar. Esta atitude tomada na dança do batuque, para os "folcloristas" sem preparação sociológica é traduzida apenas como "dança de respeito". Mas o "cumprimento" examinado à luz da antropologia cultural mostrará que os batuqueiros fazem o "granché" porque este evitará o incesto, o que temem praticar".

O que se verificou entre padrinho e afilhada ocorre com as demais pessoas ligadas pelo cognatio espiritualis.

Pesavam na memória popular as tradições da proibição do amor entre compadre e comadre. Ainda no século XV escrevia Fernão Lopes, Crônica de D. João I, reproduzindo o discurso do jurisconsulto João das Regras nas Cortes de Coimbra (3 de março de 1385) lembrando o direito consuetudinário vivo no século XIV. Sobre os impedimentos do infante dom Pedro de Portugal de desposar Inês de Castro havia o compadrio inarredável. "Mas há outro impedimento, além dos outros, que o papa não dispensa em nenhuma circusntâcia e por virtude do qual Da. Inês nunca podeira ser mulher de dom Pedro. E a razão é esta: Sendo el-rei dom Pedro infante casado com dona. Constança, houveram ambos um filho que chamaram dom Luís, e quando ordenaram de o batizar foi dona Inês madrinha deste moço, e comadre de el-rei dom Pedro, salvando-a depois dona Constança por comadre, e humilhando-se a ela, como é de costume. Ora vede como podia el-rei ser lídimo marido de sua comadre, madrinha de seu filho? Certamente não podia ser".

Cidade do Natal, RN, Brasil.

(CASCUDO, Luís da Câmara. Em Estudos e ensaios folclóricos em homenagem a Renato de Almeida)

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