Junho 2008 - Ano X - nº 113
Junho. Frio gostoso. Mês de fogueiras, cantorias, perguntas ansiosas aos santos: "Me caso? não me caso? com quem? quando?" E coisas assim! Gostosuras de junho brasileiro, privilégio nosso, tempo em que todo mundo quer ser gente da roça e o mais coscorudo pecador se permite intimidades com os santos mais credenciados do calendário caboclo.
Já no começo do mês, em dia que não seja sexta-feira, nem em minguante, capriche na feitura da bebida junina mais típica do Brasil. Esta receita é da zona velha do velho estado de São Paulo.
Rosassol
Ela carece de um descanso alongado, depois de feita, que é para assentar a consistência e descer sem afoguear. Vamos lá com a mistura: em um litro de cachaça, no abrir da manhã (com o sol já de fora mas ainda não aquentado — cuidado com isso que nessa hora a cachaça tem uma forca toda sua), você põe em infusão meia mão de erva-doce não muito seca, cinco paus de canela, cravo-da-índia. Não mexa nem deixe mexer na mistura que assenta durante uma semana. Agora, prepare uma calda grossa até o ponto de fio. Misture de mansinho a infusão e a calda ainda quente. Deixa esfriar e coe. Esconda até a hora da festa, porque se o pessoal descobrir... babau! Não fie na coisa que é mesmo merecedora!
Nisso, pelo adiantado do mês, estamos no Santo Antônio, que é o santo de duzentos e vinte e oito lugares do Brasil: nada mais querido, nada mais venerado.
Pois o bom é abrir bem no dia do santo. Pescando o peixe de Santo Antônio — aquela história antiga de um milagre com peixes que sabiam apreciar o sentido prestimoso da voz do frade.
Daí, que o pescador amalandrado se aproveita disso e vai para a beira d'água, jogando o anzol e cantando para o peixe ouvir:
No dia 13 de junho
É pô rede e tirá
Os peixes tão na fiúza
De Santo Antônio falá.
Peixe, dá em penca! E só tomar cuidado e respeitar o santo e o peixe, não fritando estes cujos em banha que esteja escura.
Bem, mas o pessoal já preparou a reza, encompridou os barbantes com bandeirinhas, preparou a mostra com a bandeira do santo e amarrou na ponta do mastro um saquinho de feijão, um saquinho de milho (que é para não faltar durante o ano), umas frutas do pomar da casa, regou tudo isso com água benta ou xixi de criança que ainda não caminha (que é para não faltar água durante o ano na roça e saúde dentro de casa). E ensine as convidadas, solteiras a solfejar com fé estes dizeres de sustância diante do santo:
Santo Antônio me case já
Enquanto sou moça e viva
porque mio plantado tarde
Não dá paia nem espiga!
Não se espante, nem faça escândalo se, no meio do vozear animado das moças, você escutar um resmungo reservado de algum sofredor dizendo assim:
Santantonio milagroso
Mansador de burro brabo,
Dê jeito de mansá minha sogra.
Muié braba com'os diabo.
Perdoe o homem e siga com a festa.
Vá ver na cozinha como estão fritando os bolinhos de mandioca quente.