Há um fenômeno de periodismo
muito nitidamente caracterizado em vários aspectos folclóricos do Brasil, mormente no
nordeste.
Da mesma forma que as estações folguedos, danças, manjares, percorrem,
anualmente, o seu ciclo com surpreendente regularidade.
As crianças brincam os vários jogos de castanha entre dezembro e fevereiro, isto é, na
época em que os cajueiros frutificam e empinam, ou melhor,
soltam arraias, índios
e corujões quando sopra a monção de agosto. O pião aparece, juntamente com a carrapeta
pelo Santo Antônio e faz a sua temporada até fins de julho. Em março repontam as
academias;
tingem-se as calçadas de riscos simétricos de carvão enquanto a garotada, aos pulinhos
e num pé só, em poucos instantes realiza um alegre curso acadêmico.
Havia ainda, antigamente, o pitoresco jogo do eixo-badeixo que se brincava entre a
castanha e a arraia e que já caiu em desuso.
Isso quanto aos folguedos infantis.
Certas danças sofriam, igualmente, a ação do periodismo que vimos assinalando. As
quadrilhas por exemplo, eram e ainda hoje são dançadas, preferencialmente, pelo São
João, ao passo que os cocos só o eram durante as comemorações natalinas, pelo menos em
Maceió.
A nossa cozinha não podia escapar, como não escapa, à influência desse periodismo.
Temos acepipes e iguarias peculiares a cada época do ano, surgindo e desaparecendo
espontaneamente cada qual em seu tempo, com uma regularidade de relógio.
Ora vejamos.
As iguarias do Natal nada têm de particular; são até, na sua maioria, exóticas
os figos secos, as passas, as nozes, amêndoas e avelãs, as castanhas
mas são
natalinas. Ninguém que se preze se dá ao desplante de comê-las pelo carnaval, pelo São
João ou pela Semana Santa.
O carnaval também tinha aqui, antigamente, o seu prato típico eram os filhós que
o povo chamava de
filhoses. O filhó é um pequeno bolo semelhante aos chamados
sonhos
que se come embebido em mel. Não havia então carnaval sem filhoses nem filhoses fora do
carnaval, que ninguém era capaz de oferecê-los aos seus convidados em dia de bodas ou
aniversário.
Pela Semana Santa a nossa cozinha se abaiana um tanto. Os suculentos quitutes de peixes e
mariscos se douram de dendê e se espevitam com uma dose maior de pimenta. É a época dos
vatapás e dos carurus e nota singular do bredo. Essa insípida amarantácea
é em vão que a buscamos nos mercados durante todo o ano. Some-se completamente. É como
se nunca tivesse existido. Raia porém, o Domingo de Ramos e eis que, misteriosamente os
mercados, as feiras, os vendedores ambulantes transbordam de molhos verdes de bredo tenro
e viçoso até o Sábado da Aleluia quando novamente mergulha, por outro ano, no mais
insondável esquecimento.
O São João, como as demais festas populares não podia deixar portanto, de ter a sua
culinária própria. E tem-na, superiormente no milho.
É ele o grande cereal joanino.
Na noite festiva consomem-se toneladas de milho cozido, em espigas já maduras, ou verdes
espigas assadas na folia das fogueiras.
Mas o milho se alça em importância e prestígio raros quando entra na manipulação da
canjica e da pamonha.
A canjica nordestina acode em Minas Gerais e São Paulo pelo feio nome de
curau e
não passa em suma, de uma forma abastardada da verdadeira canjica nortista, porque o
curau não é mais do que uma espécie de papa de milho preparada com leite de vaca e
açúcar. Acepipe bem reles, como se vê. O que por lá se apelida de canjica é o nosso
gostoso
munguzá que a troça dos rapazes alcunha de
chá de burro.
A canjica, a legítima, a nossa, é papa fina, manjar de deuses, requerendo cuidados
especiais e requintada arte na manipulação. O
ponto, a espessura e a
consistência da massa, a dosagem do leite de coco, do sal e do açúcar são requisitos
essenciais que demandam arte e largo tirocínio.
Para se obter uma excelente canjica ralam-se umas tantas espigas de milho bem verdinho e
cuidadosamente escolhido. A massa obtida depois da raladura é passada várias vezes numa
peneira finíssima, derramando-se, durante essa operação, sobre a massa, um pouco de
leite de coco misturado em água. Tempera-se então a canjica com açúcar, uma pitadinha
de sal, algumas sementes de erva-doce e uma colherinha de água-de-flor-de-laranjeira,
conforme o gosto e leva-se ao fogo, mexendo sempre para não encaroçar, até ferver que
é quando se adiciona uma concha de leite puro e grosso de coco, deixando-se mais um pouco
no fogo até encorpar. Isso feito, despeja-se a canjica em pratos de travessa ou formas
especiais, bordadas em relevo. Logo que esfria e toma consistência, polvilha-se sobre ela
uma poeirinha de canela. Está pronta a canjica e deve ficar tremelicante como gelatina.
A pamonha é quase a mesma canjica passada porém em peneira mais grossa e sem os
condimentos dela. Faz-se até sem açúcar, conforme o paladar. O que principalmente a
caracteriza é o acondicionamento que é típico.
Ajeitam-se umas palhas de milho verde em forma de recipiente cilíndrico, apertando-se com
um fio de palha uma das extremidades para que o conteúdo não vaze. É a boneca da
pamonha. Enche-se ela depois com a massa e fecha-se a outra extremidade. Está feita a
pamonha.
Não é, como se vê, muito variada entre nós a culinária joanina. Não temos bebidas
tradicionais como o licor de jenipapo, na Bahia. Mas a canjica por si só, tal como é
feita aqui basta para satisfazer o mais requintado gosto e encher de encantos a noite
tradicional e festiva.
É um poema em milho.
A trova mais saborosa do São João.
Maceió, 4 de junho de 1957
(TRIGUEIROS, Edilberto. In Boletim Alagoano de Folclore. Maceió, junho de 1957)