As tormentas, fenômeno que impressionou todas as culturas mais ou menos atrasadas, não poderia ficar sem um canto seu no galpão folclórico do Rio Grande do Sul. Com efeito, em nossas pesquisas coletamos algumas rezas usadas nas variadas regiões do estado para prevenir os efeitos das tormentas, quando não para conjurá-las.
Um fato incomum une entre si estas rezas: o tamanho. Normalmente as rezas de benzeduras são de poucas palavras, pouco extensas, mas as de benzer tormenta ultrapassam as medidas comuns, fato que acontece com todas as colhidas por nós.
A primeira conhecemos através do companheiro de redação, Elói Terra, aqui de A Hora, egresso das campanhas de Triunfo. Em companhia de seu avô, andou entre os campeiros da região e da boca dos velhos ouviu muitas vezes a oração que damos a seguir.
A benzedeira (sempre o sexo feminino nessas coisas) fazia uma cruz de sal (que aparece na Fronteira) e outra de erva. Queimava palmas de oratório (palmas bentas) e rezava: "Santo Antônio pequenino, se vestiu e se calçou. Para o céu se encaminhou. O santinho, no caminho, o bom São Pedro encontrou. E assim que viu o santinho, São Pedro lhe perguntou: 'Aonde vai, Santo Antoninho, se agora só chove e venta?' "Vou ao céu, meu bom São Pedro, acalmar essa tormenta!'"
Num bonito poema publicado por nós em Regionalismo – Tradição, o jornalista Elói Terra relata uma página cheia de nativismo crioulo, onde o motivo central é a reza aqui transcrita.
Curiosa coincidência: enquanto Elói Terra entregava os originais de seu poema ao nosso arquivo, o poeta e pesquisador Horácio Paz, das invernadas do 35 CTG, fazia o mesmo por outro lado, com um poema também com o mesmo motivo e com uma reza semelhante! Publicado o poema em Regionalismo – Tradição, de 22 de junho de 1955, dele extraímos a reza que transcrevemos.
Com um galho de arruda qualquer, a china velha benzia fazendo uma cruz para o lado onde a tormenta "se armava". E rezava: "Santo Antônio levantou-se, se vestiu e se calçou. Nossa Senhora indagou: 'Aonde vai, Santo Antônio?' 'Eu vou para o mar salgado, onde não tem pau nem grau, nem Vera Cruz. Amém. Jesus'".
Bastante identificadas as duas rezas, os leitores podem ver. E mais, se sabemos que as duas foram inseridas em dois belos poemas, com o mesmo motivo. Curiosamente, porém, Santa Bárbara e São Jerônimo, que são os protetores dos homens do campo contra a fúria da natureza, não aparecem nestas rezas, o que só vai acontecer mais adiante.
Numa viagem aos pagos do Alegrete, nossa mãe contou uma velha benzedura a fim. Podia-se ou não queimar palmas, como em Triunfo. Aí, ia-se fazendo uma cruz e rezando: "Santa Bárbara bendita, que no céu está escrita! Livra-me da má sentença e do fogo na moração (casa, lar). São Pedro e São Simeão têm a chave do trovão; assim como eles são santo, serão esses trovão manso. Para sempre, amém!" E ao terminar a oração, faz-se outra cruz. Duas, apenas: uma, no começo, outra no fim. Esta reza a mãe aprendeu a fazer com sua avó, bisavó da atual geração da Silva Fagundes.
Dona Conceição Duarte Goulart, Ceção entre os conhecidos, é amiga da família de longa data. Nascida e criada na campanha, conhece os segredos de muitas benzeduras e em mais de uma ocasião tem sido útil entre o vizindário com seus conhecimentos. Estava de visita ao povo (cidade) do Alegrete, quando nos deu também uma reza para benzer "tormenta, ciclán, essas coisas..." Ciclán será, talvez, corruptela de ciclone, que é todavia, desconhecido no Rio Grande do Sul. De um canto de sala, se reza e se benze concomitante, os três outros cantos, um de cada vez, fazendo cruz com a mão direita em cada um. O canto onde está a benzedeira fica sem reza e sem cruz. E diz-se o seguinte: "Nossa Senhora da Conceição nos (ou "me") valha! Minha Virgem Sagrada, me valha seu bento filho, anjo da minha guarda! Anjo da minha guarda que no céu foste nascido para um anjo guardador, assim eu peço por vossa graça e poder que de todos os perigos vós nos (ou "me") queiras defender!" Dona Ceção aprendeu esta benzedura de seu pai, gaúcho dos tempos antigos, quando um fio de barba era documento.
Em nossa casa, a primeira providência que se tomava quando tormenta estava "se armando", era tapar os espelhos, e logo a mãe fazia uma pequena cruz de sal em cima de qualquer mesa. Note-se que os gaúchos não tomavam qualquer providência em invocação de auxílio divino depois que a tormenta começava, mas sim antes; as rezas e benzeduras eram como uma proteção.
Tradicionalmente, em todo o estado, os santos protetores contra tormentas, conforme já foi dito, são Santa Bárbara (para quem registramos uma reza) e São Jerônimo, que não aparece no folclore da prevenção colhido por nós. Santa Bárbara aparece ainda no ditado irônico: Só se lembra de Santa Bárbara quando chove!, significando que alguém só se lembra de outrem na hora das percisões. Conta-se, mas não documentamos isso, que é uso exclamar-se durante as tormentas: "Santa Bárbara e São Jerônimo!"
O que temos sobre tormentas, no Rio Grande do Sul, em nosso atual conhecimento, é o que está aí. Mas certamente haverá muita coisa desconhecida sobre o assunto, por esses rincões ignorados dos estudiosos, e que, certamente, um dia aparecerão como ricos depositários do vasto folclore gaúcho.
Jangada Brasil © 1998-2007 | Termos e condições de uso