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Nesta seção, textos sobre a casa em diferentes regiões; utensílios; materiais; móveis, indumentárias; usos e costumes; tipos populares...

Gente e bichos no Flamengo

Daniel Parish Kidder e James Cooley Fletcher

Durante cinco meses no ano, a praia do Flamengo é o ponto escolhido por ambos os sexos para banhos de mar. Na estação dos banhos (de novembro a março), assiste-se todas as manhãs a cenas cheias de vida. Antes que o sol desponte acima dos morros, uma fila de homens, mulheres e crianças desce as ruas para tomar banho nas claras águas salgadas da baía. As senhoras que vêm de lugares mais distantes, se fazem acompanhar de escravos, que carregam as barracas, armando-as na praia; as senhoras vestem então as suas roupas de banho e soltam suas longas tranças pretas. Homens e mulheres, de mãos dadas, entram no espumoso elemento, e, assim, os que não são bem adestrados em natação podem resistir ao embate das ondas mais fortes que caem sobre eles. As senhoras se mostram elegantemente vestidas, com roupas feitas de um tecido escuro; mas não exibem o coquetismo das praias de banho francesas, em que as damas estudam a vestimenta que devem pôr no mar com o mesmo apuro com que o fazem para um salão de baile. Os cavalheiros são obrigados pelo regulamento da polícia a se vestirem decentemente, o que até agora não tem impedido de nadar os que preferem esse exercício às "duchas" das ondas.

É divertido verem-se as moças e os rapazes brasileiros entregando-se, pelo menos uma vez, a alguma atividade – correndo pela praia, soltando gritos de prazer toda vez que uma onda mais pesada rola por cima de um grupo e os atira cambaleando por sobre a areia. Os banhistas derrubados fincam os pés nervosamente na areia, para não serem arrastados pelo recuo das ondas. De vez em quando, algum gaiato grita: "Tubarão, tubarão!", molhando as senhoras, para provocar o riso dos garotos que o grito despertou. Costuma-se contar certos feitos desses canibais de pele áspera, mas nunca ouvi falar de caso autêntico de banhista da praia do Flamengo que tenha servido de repasto aos temíveis "lobos do mar".

Às sete horas, já o sol está alto, e toda a movimentada multidão foi-se embora. Vêem-se, ainda, porém, algumas cabeças crespas balançando-se aqui e ali no seio das ondas, seus cabelos lanosos desafiando o medo do coup de soleil. As pretas que acompanham as senhoras geralmente entram na água ao mesmo tempo que as suas amas. Nas noites de luar, o mar se anima com vários pontos pretos, que são as cabeças dos escravos da redondeza, que se espanejam na água, rindo e gritando à vontade. Todos eles nadam notavelmente bem, e dá satisfação ouvir as suas vozes satisfeitas, soltas alegremente como se não conhecessem tristezas.

Os habitantes do Rio de Janeiro têm paixão pelos banhos de mar, e são por isso chamados "cariocas", que alguns traduzem por "patos". Muitas pessoas andam milhas para tomá-los. Há um flutuante para banhos no interior do porto, não longe do Hotel Pharoux, para aqueles que têm a coragem necessária para afrontar o elemento que aí chamam de água salgada, mas que, para um narrador fiel, devido ao sistema improvisado de esgotos, deve ser estigmatizado por um nome bem diverso.

Não são os bípedes os únicos animais que gozam dos benefícios das abluções na praia do Flamengo. Os cavalos e as mulas têm, reservados para eles, certos trechos da praia, onde nas primeiras horas da madrugada são lavados e escovados. É reconfortante saber que as pobres criaturas têm essa oportunidade de lavar-se, pois do contrário muito sofreriam com a preguiça dos seus tratadores. Os senhores que têm cuidado com os seus cavalos esforçam-se por encontrar empregados de cavalariça ingleses, por serem os pretos proverbialmente maus tratadores de animais. Os belos cavalos importados do cabo da Boa Esperança ficam logo avariados nas mãos de um preto. Julga-se que o clima do Brasil lhes é desfavorável e custa-se a acreditar que semelhantes animais, gordos e frágeis, sejam da mesma raça, meio sangue inglês, meio árabe, que no cabo da Boa Esperança agüentam uma viagem de 60 ou 70 milhas por dia sem outro alimento senão uma ração de aveia, seguida de um giro sobre terreno arenoso. Para uso comum, os cavalos do país são melhores, mas não são tão ágeis e elegantes como os importados.

[1851]

 

(Kidder; Daniel Parish; Fletcher, James Cooley. Em Bandeira, Manuel; Andrade, Carlos Drummond de. Rio de Janeiro em prosa e verso. Rio de Janeiro, Livraria José Olympio Editora, 1965 (Rio Quatro Séculos, 5), p.290-291)
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