Jangada Brasil, a cara e a alma brasileiras
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Junho 2007 - Ano X - nº 101

Sumário

Festança
Moçambique
Rossini Tavares de Lima

Cancioneiro
Versos de toadas de moçambique

Imaginário
A princesa de Bambuluá
Luís da Câmara Cascudo

Colher de Pau
A pupunha no folclore
Valmir A. da Silva

Oficina
Lojistas e caixeiros antigos
Ernesto Sena

Palhoça
Gente e bichos no Flamengo
Daniel Parish Kidder e James Cooley Fletcher

Panacéia
Rezas de benzer tormenta
Antônio Augusto

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Colher de Pau
Textos sobre receitas tradicionais; bebidas típicas; alimentos brasileiros; costumes à mesa; horta, pomar e criação; crenças, costumes e tabus relacionados à alimentação e alimentos...

A pupunha no folclore

Valmir A. da Silva

Pupunheira

Guilielma Speciosa, na classificação de Von Martius, a pupunheira é uma palmeira de altura soberba, com o tronco todo coberto de espinhos. É conhecida, em algumas regiões da Amazônia, como pupunha verde-amarela, porque o fruto, a pupunha, costuma ser, no mesmo cacho, de dois tipos: verde e amarelo, com formatos diferentes.

Há, de fato, várias espécies, nem sempre distinguidas pelos nativos:

Pupunha marajá: árvore de pouca altura, cujos frutos são bastante oleosos; Pupunha piranga: com frutos menores que os comuns; Pupunharana: encontrada na região do Parintins, chegando a 30 metros de altura, com boa madeira; Pupunha tapiré: outra variedade, que produz frutos de bom gosto.

Pupunha

Dada em cachos, a pupunha, em geral, costuma ser de três qualidades: verde, sempre menor e sem caroço, é macia, de sabor característico, e o povo costuma chamá-la de filhote, visto não atingir o estado adulto das demais; amarela, grande, tendo dentro um coquinho também de gosto sui generis; e, finalmente, a vermelha, com aspecto idêntico da anterior, só se distinguindo na cor.

Crendice

O povo acredita que é perigoso comer o coquinho da pupunha: faz a pessoa ficar rude. Em outras palavras: faz ficar burro! Verdade ou não, o certo é que, em regra, ninguém se arrisca a comer o coco. "O seguro morreu de velho"... E as mães zelosas advertem os filhos teimosos, quando nos lanches da tarde eles começam a namorar o caroço proibido: "Não comam o coquinho, que ele faz ficar rude!" A proibição desperta mais o desejo e as crianças, às escondidas, violam a proibição. Surpreendidas em "flagrante delito", recebem um bom corretivo, a fim de respeitarem o tabu.

Preparo

Colocam-se as pupunhas numa panela ao fogo, com água e sal, e deixa-se ferver. Depois, a certa altura da fervura, começa-se a espetar com o garfo, até que suas pontas penetrem com facilidade no interior das mesmas; Neste ponto, a "carne" já está macia (amolecida). Tira-se a panela do fogo, deixando a água esfriar um pouco, mas não totalmente, para serem servidas.

Alimento

A pupunha contém propriedades alimentícias e é usada pelo paraense como sobremesa, lanche durante a tarde, ou ainda de manhã, na hora do café. Ela costuma ser oleosa, de acordo com a qualidade, e, segundo alguns especialistas, é rica em aminoláceos. Há várias maneiras de comê-la: misturada com mel-de-cana, ou seja, lambuzada, como se diz no Pará, com manteiga – em ambos os casos, sempre quentinha e com café.

Pregão

Antigamente, era comum venderem pupunha cozida em tabuleiros – meninos ou adultos – pelas ruas. Iam cantando um refrão assim:

Iê pupunha cozinha
Iê pupunha cozida

Esse refrão obedecia a duas variações melódicas, em que a segunda diferia ligeiramente da primeira. Sempre foi assim. A tradição se conservou, de forma que cada vendedor ia aprendendo e, desse modo, garantindo, sem o saber, a sua perpetuidade. Entretanto, as palavras sofriam corrupção, por comodidade própria do linguajar do povo. Então, alguns vendedores – os pupunheiros – especialmente os menores, distorciam-nas e cantavam da seguinte maneira:

Iê punhê cozidê
Iê punhê cozidê

Em geral, as vozes obedeciam ao mesmo tom, entoando o pregão estereotipadamente, parecendo já estar gravada nas cordas vocais de vez daquela tonalidade. E, ao longe, sem que distinguíssemos as palavras, só pela melodia sabíamos que o "pupunheiro" vendia o seu produto. Das casas corriam para s portas e janelas os fregueses com o dinheiro à mão, aguardando a sua chegada. E ele era chamado aqui, ali, acolá, ziguezagueando, de um lado para outro da rua, entrando numa casa, ora noutra, retardando-se, quase sem chegar aos fregueses mais distantes. Estes, impacientes com medo de que a pupunha não chegasse para todos...

Reminiscências

No meu tempo de adolescente, em Belém do Pará, certa tarde, passou nas proximidades de minha casa um desses meninos cantando o refrão distorcido, com uma vozinha de sopranino, muito afinada, de timbre quase angelical. Devia ter lá seus 11 anos. Impressionado com aquela voz, corri à janela e gritei:

– Ei, pupunheiro!

Ele logo veio:

– Pupunha, patrãozinho?

– A como é a pupunha? – Indaguei.

– Cinco dez t'ão! – É uma corruptela freqüente naquela região. Ele queria dizer: cinco por dez tostões.

Eu secamente lhe disse:

– Então, cante cinco vezes: Iê punhê cozidê.

O menino, admirado, estranhou o meu gesto, mas cantou o refrão cinco vezes. E eu lhe paguei os dez tostões. Ou melhor: os dez t'ão – e mandei-o embora...

Eu só queria ouvir um pouco mais aquela vozinha delicada, maravilhosa, pagando-a na razão de dois tostões cada refrão, o preço de cada pupunha.

(Silva, Valmir A. da. "A pupunha no folclore". O Fluminense. Niterói, 17 de maio de 1970)

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