Jangada Brasil a cara e a alma brasileiras
Nesta seção, textos sobre plantas medicinais; rezas; benzeduras; simpatias; crenças; superstições; amuletos; orações; devoções; magia e feitiçaria...

Contadeira de estórias

— Pimpim, tu já estas melhor, acho que nem precisa a benzedeira vir fazer benzeção em ti.

— Dindinha, mas se for quebranto ele não vai ficar bom sem a benzeção, vai, dindinha Maçu? — atalhou Zuca.

— É, mas parece que não é quebranto, em todo caso a benzedeira ficou de vir hoje e se vier não faz mal que ela benza o Pimpim.

— Vou apanhar uns raminhos de vassourinha e um pouco de azeite de carrapato que vai ser necessário.

— Dindinha Maçu, até parece que a senhora sabe benzer?

— Quer dizer que a senhora é que é a benzedeira, dindinha?

— Sou eu mesma.

— Dindinha! É a senhora que vai benzer Pimpim? — acudiu Titoca com espanto.

— Por que estão assustados? Pois prestem atenção e fiquem em silêncio.

Aproximando-se de Pimpim, depois de ter passado os raminhos de vassourinha no óleo de carrapato, fez cruz várias vezes sobre o corpinho da criança e rezou:

Pai nosso que estais no céu
ajudai-me a curar o meu Pimpim
Dai-me forças oh! Pai
para tirar o mau-olhado
que foi posto no Pimpim,
e se preciso for
alguém receber a sua moléstia
que o seu tenro corpinho encerra
que este alguém seja eu
Pai Todo Poderoso
Criador do Céu e da Terra.

Com a vassourinha
Corto em cruz
em nome de Jesus,
como se fosse a espada de São Jorge
os malefícios deitados
no corpo deste inocente,
do mau-olhado posto
que fez esta criança
cair prostrada doente.

Dindinha Maçu fez uma pausa em silêncio, de olhos semi-cerrados benzendo-se e fazendo em seguida o sinal da cruz.

Enquanto isto as crianças em absoluto silêncio prestavam a máxima atenção crentes no efeito que aquela reza iria fazer no seu irmãozinho.

Ato contínuo, dindinha Maçu passou no pires, onde tinha deitado anteriormente azeite de carrapato, os raminhos de vassourinha e continuou:

Oh! meu Deus todo poderoso
eu vos agradeço
de todo o coração
os benefícios que vós destes
a esta criança
através desta oração,
em Nome do Pai
do Filho,
do Espírito Santo,
Amém.

 

("Contadeira de estórias". Folha do Norte. Belém, 22 de maio de 1966)
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