Há certas fórmulas rituais que o povo emprega e que se repetem, como início ou como fecho obrigatório, em rezas e orações forçosas.
Uma delas é a que começa pelas palavras: "Quem esta oração rezar..."
Vamos aqui referir — do nosso arquivo — algumas dessas rezas fortes, confrontando-as com uma ou duas de Portugal, mas cingindo-nos por vezes apenas à transcrição do fecho reiterado.
Numa oração popular, colhida em Santa Leopoldina pela professora Ambrosina de Oliveira — no primeiro inquérito promovido pelo Centro Capixaba de Folclore (1946) — encaixa-se o fecho de que aqui vamos tratar. Veja-se: Meu doce Jesus da vida, meu Senhor da redenção, dai-me o caminho certo pelas escadas do do céu, onde mora o Cálice Bento e a Hóstia Consagrada.
Quem esta oração rezar,
um ano continuado,
tira minha alma da pena
e a sua do pecado.
E, a seguir, esta advertência:
Quem sabe, que não ensina,
quem ouve, que não aprende
lá no dia do Juízo
saberá o bem que perde.
Também em decorrência do citado inquérito, a professora Marfisa Gianórdoliliestas, então diretora do Grupo Escolar José Cupertino, de Afonso Cláudio, me enviou, junto a precioso material folclórico recolhido naquela região, a seguinte oração ou cantiga a Nossa Senhora do Carmo:
Nossa Senhora do Carmo
Tem o seu jardim em flor
Onde os anjos vão passear
No domingo do Senhor.
Encontrei com as três Marias>
No domingo do Senhor.
Procurando Jesus Cristo
Sem nunca poder achar.
Foram dar com ele em Roma.
Revestido no altar,
Jesus Cristo diz a missa
São Pedro muda o missal.
E o fecho:
Quem esta oração rezar,
Ora por si, ora pois não.
Tira as almas do purgatório
E toda a sua geração
Mais interessante do que as anteriores, — pelo seu conteúdo lírico — é o fecho desta cantiga ao Rosário de Maria, recolhida por Yamara Soneghete em São Paulo de Viana, lá pelo ano de 1950 ou 1951. Aqui vai só o final e a advertência:
Quem esta oração rezar
Um ano continuado
Terá tanto de perdão
Como flores tem no prado,
No mar — areia
No campo — flores.
No céu — estrelas.
Quem souber que ensine.
Quem ouvir que aprenda
Para o dia do Juízo
Teremos com quem nos defenda — Amém.
Este fecho é variante daquele reponso que se reza em Portugal, segundo se lê no interessante livro do padre Firmino A. Martins, Folklore do Concelho de Vinhas (Coimbra, 1928, p.40):
Quem disser esta oração
um ano continuado
ganhará tantas inteligências
como estrela tem o céu
e areias tem o mar.
Aliás, nesse mesmo livrinho informativo, há outras orações cujos fechos aqui nos interessam. Por exemplo, este que encerra uma oração à Virgem (p.42):
Quem esta oração disser
um ano continuamente,
saberá bem certamente
quando Deus o há de levar;
Três dias antes de morrer
a Virgem o há de avisar.
E esta outra, de uma oração "ao deitar" (p.49):
Quem esta oração disser
um ano continuamente
Nossa Senhora aparecerá
com seu Menino presente.
Também as fórmulas de advertência se rezam em Portugal. Aqui vão duas tiradas ao mesmo livro do padre Firmino Martins (p.34 e 41):
Quim a sabe non a diz
qui ma ouve non a aprende,
lá virá o dia do juízo,
verá o que lh'assucede.
Quem a sabe non a diz
quem na ouve non aprende,
verá o dia do juízo
o que lh´assucede.
Por aí se infere — mais uma vez — que o rimário religioso do folclore brasileiro quase todo nos veio do velho Portugal, trazido para cá na boca e no coração das mulheres portuguesas, tão ciosas dos seus santos, das suas rezas a seu Deus.