No meu bairro à falta de um "largo da Matriz", a "rua da procissão" é a avenida principal.
Nos dias de festa religiosa a procissão sai da igreja, entra na avenida principal e percorre-a de alto a baixo, em ambas as direções: ao sair, da esquerda para a direita; ao regressar, da direita para a esquerda. Já várias tentativas foram feitas à procura de outro itinerários. Debalde. A região, excessivamente montanhosa, não contou, no dia em que o bairro nasceu, com urbanistas à altura. Estes se limitaram a semear ladeiras, algumas bastantes íngremes, tão íngremes que as casas, vistas de longe, dão a impressão de estar dependuradas.
No meu tempo de criança ouvi dizer que o itinerário das procissões dependia habitualmente do calor das contribuições em dinheiro para as festas da igreja. Ruas cujos moradores não tivessem contribuído com qualquer coisa para a festa não viam a procissão passar. Esqueci-me de tanta coisa na vida e no entanto ainda me lembro do seguinte: certas ruas principais da minha cidade natal eram percorridas pela procissão apenas num ou noutro trecho. O vigário abria exceções e estas acabavam assumindo ares de privilégio. Morar em "rua de procissão", isto é, em rua por onde a procissão passava, constituía quase um título de nobreza.
O senhor Ernani Silva Bruno, autor de História e tradições da cidade de São Paulo (Livraria José Olimpio Editora, 1954), refere-se no segundo volume, através de uma citação de Antônio Egídio Martins, a tal privilégio. Escreve: "Era um privilégio morar nessas ruas por onde as procissões passavam. As casas até se valorizavam por isso, mostrando Antônio Egídio Martins que elas eram alugadas por quantias muito maiores pela razão de ficarem situadas em "ruas de procissão". As janelas das casas eram nessas ocasiões enfeitadas com toalhas ricas e com colchas de damasco, rendadas que adornavam as janelas em dia de procissão não serviam para mais nada em casa. Nas famílias tradicionais (a reminiscência agora é minha) constituíam elas, uma espécie de "enxoval da igreja".
Cita o senhor Ernani Silva Bruno um requerimento registrado em Ata da Câmara Municipal de São Paulo, no ano de 1854, moradores da freguesia do Brás pedem melhoramentos para as ruas "por onde possam algum dia passar procissões". No mesmo ano tomou a Câmara a iniciativa de mandar tapar buracos existentes na rua do Carmo, em frente à igreja de Santa Teresa, por ser "uma das ruas de trânsito das procissões".
Freqüentei muito as festas religiosas da antiga praça João Mendes, na igreja dos Remédios. As " ruas de procissão", no meu tempo, eram a da Liberdade, até à Barão de Iguape, e a da Glória. De volta à igreja a procissão passava pela rua Onze de Agosto e entrava na praça pela desaparecida rua de Santa Tereza. O trecho da rua da Liberdade "por onde as procissões passavam" está hoje irreconhecível. Havia muito sobrado e muita casa de porta e janela. As janelas dos sobrados ficavam enfeitadas com velhos tapetes ou velhas colchas, durante as procissões da Semana Santa. A riqueza do enxoval de igreja dependia da situação de maior ou menor prosperidade do dono da casa.
De onde veio esse costume?
Taunay, Egídio Martins, Nuto Santana, Silva Bruno, registram o fato mas não o explicam. De onde nos veio — repito — o costume de ter sempre à mão toalhas de renda e colchas de damasco, para os domingos de procissão religiosa? nas "ruas de procissão" os moradores despetalavam rosas e espalhavam folhas de árvores pelo chão, sobre a terra socada como sobre o calçamento e paralelepípedos. Uma e outra coisa significavam, a meu ver, devoção e respeito. Uma procissão é um desfile de imagens. É também uma "representação". Os santos são os personagens. Ora, um santo não pode manchar os pés na poeira ou na lama das nossas ruas...
Se os senhores vereadores tivessem tempo de ler as Atas da Câmara regularmente publicadas em livro pelo Departamento de Cultura, teriam bastante assunto para as suas resoluções em favor do povo e da cidade. "Rua de procissão" é na minha opinião, uma trouvaille. Podem ser consideradas "ruas de procissão" as atuais da cidade, quer no centro, quer nos arrabaldes?
Meu bairro, situado nas montanhas da Cantareira, é, sob esse ponto de vista, paupérrimo. Nenhuma rua daqui é "rua de procissão". Não é só ao sentido verdadeiro de rua por onde passam as procissões de igreja que uso a expressão. Uso-a principalmente no sentido figurado. Não temos nada de nada. Ultimamente puseram mau-olhado até na água. Estamos desde fins de agosto com um fio de água à noite. Espera-se a água cochilando pelos cantos. Já se pensou em sugerir à igreja uma procissão pedindo chuvas abundantes e ininterruptas. Todavia, a falta de "ruas de procissões" não nos permite nem o recurso das preces coletivas em favor do precioso líquido.