Jangada Brasil a cara e a alma brasileiras
Nesta seção, textos sobre a casa em diferentes regiões; utensílios; materiais; móveis, indumentárias; usos e costumes; tipos populares...

Onde nasceu o "ranzinza"

Por volta de 1913, começou a aparecer a gíria carioca, na acepção de indivíduo impertinente, importuno ou implicante, o termo "ranzinza", vocábulo que, como observaria, mais tarde, Humberto de Campos (ao analisar a utilização pelo poeta amazonense Raimundo Monteiro, do tempo de verbo cirgem como rima para virgem) tinha preenchido, também, "uma das grandes falhas do rimário da língua".

Consultado sobre o novo termo, Cândido Figueiredo, na sua seção "A língua portuguesa", no Jornal do Commercio, de 13 de novembro de 1913, deu-o como derivado do vocábulo grazina que, como se sabe, significa "pessoa que fala muito, que resmunga, que grita".

Com o modo de ver do filólogo português, não concordou, contudo, um erudito colaborador de A Noite, Agenor Francisco de Macedo. Em minucioso artigo aparecido em 8 de janeiro de 1914, esse estudioso brasileiro mostrou que, na nossa língua, dois vocábulos havia que poderiam ser considerados no estudo da etimologia do novo termo da moda: ou o graniza ou o serrazina, ambos com a significação de indivíduo impertinente, importuno, maçador. Ao articulista parecia improvável derivar o ranzinza de grazina — como queria Cândido de Figueiredo — "Por ser sem exemplo a passagem de gr inicial a r", preferia, assim derivá-lo de serrazina ou sarrazina.

Decerto, não se encerrou, com o artigo de A Noite a discussão, pela imprensa, sobre a etimologia do ranzinza, mas, evidentemente, não está no espírito destas notas rastrear o assunto, semanas e semanas sucessivas, através das colunas dos jornais. Vale a pena, entretanto, deixar anotada uma breve carta dirigida à Noite (e publicada a 10 de janeiro de 1914) por um leitor de Campinho, a propósito do artigo de Agenor F. de Macedo. Dizia o correspondente suburbano falando do vocábulo serrazina ou sarrazina: "É genuinamente árabe, creio mesmo que argot usado na Síria: quanto à significação e grafia, peço-vos licença para abster-me, porquanto a primeira é indecorosa (sic) e a segunda ignoro..."

 

("Onde nasceu o ranzinza". Correio da Manhã. Rio de Janeiro, 23 de fevereiro de 1964)
Índice | Pesquisa | Central do Leitor | Expediente | Contato | Mapa do site | Termos e condições de uso

Jangada Brasil © 1998-2005