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"Chega, negro": É hora de puxar a rede que o xaréu tem que chegar

Maria Emília F. Saldanha

Pesca do xaréu

De outubro a abril, pode-se assistir a um espetáculo junto à praia que é, ao mesmo tempo, importante fase de trabalho e talvez um dos mais preciosos capítulos do nosso folclore — a pesca do xaréu. Este peixe faz, anualmente sua migração para regiões mais quentes, na época da desova. É nesta oportunidade que os pescadores dos subúrbios de Salvador iniciam a fase mais dura e árdua de sua atividade profissional, que é ponteada, no entanto, de arraigados rituais herdados de seus antepassados desde o período da escravidão.

Tal como as outras redes, a do xaréu é feita na colônia, com o auxílio das mulheres. É excessivamente cara devido ao tamanho e material empregado. Poucos são os que têm condição de possuí-la.

É hora do trabalho. As jangadas deslizam mansamente para o mar levando a rede e os blocos de cimento que servirão para firmá-la através de dispositivos especiais de segurança. Tudo feito pelos pescadores.

Tudo montado agora. É tempo de espera. Mestres de terra e do mar, chefe e puxadores, aguardam horas a fio ou mesmo dias. Olhares atentos, mas cheios de esperança.

De repente, um assobio! É o mestre de mar que pressentiu a entrada do xaréu na rede. Está prestes a hora da puxada. Acabou-se a contagem. Atenção os de terra! Atenção os de mar, pois a rede pode romper-se. Força! Respiração e movimentos ao som dos atabaques. Bailado e coro perfeitamente sincronizados. Espetáculo único em todo o Brasil.

E o tirador de toadas inicia o seu cantar de alento, lembrando todas as fases do trabalho, desde o momento em que se tece a rede:

Moça bonita não pode coser
Ogum le lê

Iemanjá, também, precisa ser agradada, pois ela é a rainha das águas e assim dará licença para penetrar em seus domínios:

Iemanjá, Iemanjá
Sou pescador, moro nas ondas do mar
Também sou fio de Iemanjá.

— "Chega, negro", lembra os senhores dos escravos chamando para a puxada da rede do xaréu:

Chorô, chorô
de fazer dó
quando a jangada
volta só

Eu bem disse ao meu bem
que não fosse ao mar
Ele foi e não voltô
Hum Ah! Hum Ah! (cadência)

Foi as ondas do mar que levou
foi as ondas do mar que veio buscar
pra levar pra Iemanjá

Pescador dá presente pra ela
Iemanjá dele enamorou
A jangada volta sem ele
e os olhos da morena marejô.

Os movimentos vão-se acelerando cada vez mais. O ritmo é mais intenso e mais rápido. Começa a aparecer a rede na praia e o tirador de toada:

Ismael veio?
Não veio, não!
Por que não veio?
Não veio, não!
Miguel veio?
Não veio, não!
Por que não veio?
Não veio, não!

E as horas passam. E o suor escorre. O cansaço agora, não. Afinal, rede chegou! Sucesso? Decepção? Não importa. Amanhã tudo será melhor.

 

(Saldanha, Maria Emília F. "'Chega, negro': É hora de puxar a rede que o xaréu tem que chegar". O Globo. Rio de Janeiro, 17 de outubro de 1968)
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