Quando os filhos das capitais e grandes cidades viajam pelo rio São Francisco e pela primeira vez tomam conhecimento da fisionomia norte-mineira, com rara exceção emitem falsos conceitos acerca da personalidade do barranqueiro, julgando-o indolente.
Não, não é preguiçoso o barranqueiro!
Ao contrário do habitante da cidade, o morador daquelas plagas desconhece o termo concorrência e nem se preocupa com o porvir. Assim como foi criado, cria ele os filhos, conduzindo sua inteligência apenas num sentido, que é o de apanhar com mais facilidade o alimento que Deus lhe deu, pois é-lhe pródiga a natureza.
Quando por exemplo, se vendiam plumas de garça a peso de ouro, os sertanejos espalharam-se nas beiradas de rios e lagoas, de millie a tiracolo dando caça às imponentes pernaltas, agora mais esquivas do que nunca. Arriscavam tiros a longa distâncias, esvaziavam polvorinhos e, ao fim do dia, regressavam a suas casas, de mão abanando.
O caboclo, porém, não cede ao fracasso.
Um surge que resolve o problema com vantagens econômicas. Primeiro atira várias cabaças nas lagoas a fim de acostumar as garças à nova paisagem; depois de alguns dias, mune-se de uma daquelas cuculbitáceas, adredemente adaptada e introduzida na cabeça até a altura do pescoço; daí por diante, mergulhando-se nas águas até os ombros torna-se fácil aproximar-se cuidadosamente da ave, segurá-la pelos pés e submergi-la sem tumulto.
Assim, usando de artifícios vence o sertanejo a astúcia dos animais, ou a ligeireza das aves. A esses artifícios denominamos armadilhas, cujo estudo surpreende importante aspecto do folclore norte-mineiro. Não é descabido dividi-las em três ordens, de conformidade com as caças a que se destinam: animais de pele, animais de pena, e peixes.
1
Mundéu: Pesado tronco inclinado sobre uma vara que o escora e que o liberta quando a caça aproxima-se da isca (galinha ou carneiro), presa em pequeno curral feito ao lado do tronco. O mundéu ocasiona a morte por esmagamento do animal.
Laço: Corda presa por uma extremidade à ponta de uma árvore flexível, despida dos galhos secundários e, na outra, um nó corredio armado ao chão num buraco de dois diâmetros, com fundo e banqueta, nesta armando-se o nó corredio, naquela pondo-se a isca. O laço desarma-se ao menor toque da caça, que é inopinadamente erguida pelo pescoço e morta por estrangulamento.
Fojo: Cova funda, disfarçada com uma tábua em equilíbrio, coberta de terra e ramos, a qual veda inteiramente o buraco; uma das extremidades da tábua, por onde o animal tem acesso, apóia-se em terra firme, enquanto a outra, protegida por uma cerca (em cujo pé, quase no bordo da cova põe-se a isca), afunda-se ao peso da caça. As dimensões do fojo são feitas de acordo com o tamanho do animal que se quer apanhar. Quando se destina a pequenos roedores, a isca (pedaço de mandioca, ou batata) é presa na extremidade da própria tábua por um prego, ou fio de arame.
Lajem: Lâmina de pedra apoiada sobre uma verga que se enrola numa forquilha e vai se prender a uma tala mestra, a qual sustenta talas secundárias, em forma de espinhas de peixe. É uma espécie de mundéu, de grande proveito para apanhar preás, coelhos e mocós.
Arataca: Grande jaula feita de troncos fincados no chão e bem amarrados, cuja porta adaptada entre corrediças, é suspensa por cordas que terminam numa vara em equilíbrio. Do lado oposto à porta está o curral onde se põe a isca, que é uma cabra, geralmente. A arataca nada mais é que uma grande ratoeira e destina-se principalmente a apanhar onças e maracajás.
Espingarda: Arma de fogo armada nas passagens certas de pacas, caititus, antas e queixadas. À tecla do gatilho prende-se um cordão, que desviado de seu estado de repouso em qualquer ponto vai determinar o disparo e ferir seguramente a caça, uma vez que esse cordão é o prolongamento da linha de mira.
Facão: Lâmina de aço, afiada e presa de gume para cima sobre um toco fincado no caminho certo dos "cubus" (capivaras), à entrada das roças, ligeiramente inclinada contra o roedor, o qual é destripado e morto ao saltar a armadilha.
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Arapuca: Cesto de varas, piramidal de fabricação rápida e simples, iniciada por meio de dois pauzinhos maiores, os quais determinam o tamanho da boca, ligados um ao outro, diametralmente, por duas cordas, sobre aqueles são colocados novos pauzinhos cujo comprimento descresce progressivamente ate o último que trava a arapuca no ponto de interseção das cordas. É armada como se arma a lajem, no meio das caatingas e nas roças, num limpo adredemente preparado e que se denomina ceveiro, visando apanhar de preferência juritis, codornas e nambus.
Visgo: Matéria pegajosa feita de leite de gameleira com resina de angico ou cera de "chinhém" (arapuã), com a qual se besuntam galhos freqüentados por pequenos pássaros, que neles se grudam.
Alçapão: Caixa de fustes de buriti, armada entre as árvores ou nos lugares freqüentados por pássaros, a isca, geralmente um pedaço de mamão, de banana, ou de laranja é espetada na ponta de uma haste que falsamente mantém aberta a parte superior da caixa, ou tampa móvel em torno da pequena tala, também de buriti. O alçapão encarcera o pássaro que nele entrar para comer da isca.
3
Anzol: Gancho de aço, com ponta afiada e farpa para manter a isca e garantir o peixe fisgado. Há anzóis-de-espera, ligados a cabaças; anzóis presos a varas flexíveis para pescarias em rios estreitos e lagoas sujas; anzóis de fieira, isto é, grande número deles presos a uma linha mestra; e, finalmente, anzóis de linha, mais comumente empregados em grandes rios.
Chiqueiro: Esta armadilha nada mais é que uma arataca dentro d'água, com a diferença de não possuir tejo, pois basta meio metro de estacaria acima d'água para garantir a prisão dos peixes.
Jequi: Cesto em forma cônica com dois metros de comprimento, pouco mais ou menos, feito de varas flexíveis e deixando nas passagens estreitas dos rios, contra a correnteza. A boca do jequi, denominada "sangra", permite a entrada, nunca a saída dos peixes, que são retirados por uma portinhola no corpo da armadilha.
Tarrafa: Tecido de malha, com forma circular, guarnecida de chumbadas e de grosso barbante que favorece a sua retirada para fora d'água. É artifício de grande proveito para a pesca de curimbatás, piaus, matrinxãs e pocomãos, mas de pouca eficiência contras as piranhas.
Curral: Grande cercado de pau a pique feito principalmente nas partes profundas, ou remanseadas das lagoas; construído o curral, apreciável número de pescadores entram n'água e começam a canalizar os peixes para o cercado, depois do que tampam a porteira por onde entraram os peixes e os arrecabam com flechas e arpões.
Mancuba: Este é o nome com que o sertanejo designa pequena tarrafa, especialmente feita para apanhar iscas ou pequenos peixes.
Puçá: Grande coador de linhas resistentes colocado nas passagens estreitas dos sangradouros e riachos. Os peixes são levados a poder de gritos, chuços e ramos à boca da armadilha, que é retirada, imediatamente, para fora d'água.
Pari: Espécie de rede colocada em cachoeiras naturais, ou artificiais, para reter o peixe que desce.
Cofo: Variedade de jequi, feito de cipó de "bugi" e destinado a arrecadar piranhas.
Rede: Grandes extensões de tecido de malha ou tela de cordas, provida de chumbadas e blocos de pau de barriguda, para encurralar peixes nos rios e lagoas. Quando verificam os pescadores haver cercado surubins gritam "Passa romanga" e o companheiros sem se preocuparem com a fuga de pequenos peixes, vão soltando as redes, em forma de caracol, criando assim barreiras contra o gigante d'água doce.