Inga decidiu então fazer um estudo sobre as redes de São Paulo, por serem elas "poucos conhecidas e, no entanto, mais importantes que as famosas de Mato Grosso". Leu e pouca literatura existe a respeito, visitou os lugares nos quais ainda há redeiros e observou seus trabalhos. Para ela, que era uma bibliotecária em Munique, a viagem que realizou aos Estados Unidos para estudar artes têxteis e o interesse despertado pelo folclore no Brasil fizeram que mudasse definitivamente de profissão.
"No princípio, conta Inga, sentia-me como uma detetive. Ao chegar a um lugar onde supunha haver redeiros, perguntava aos lojistas, motoristas ou a qualquer pessoa que visse na rua onde poderia encontrá-los. E freqüentemente as indicações me conduziam a lugares errados. Entretanto, ao achá-los, tudo se tornava muito fácil. Eles pareciam felizes em receber-me e contavam e mostravam o que sabiam".
A história
Antes, porém, de falar da sua pesquisa, Inga dá um histórico da rede. Foi o índio que a inventou e as populações brancas até hoje utilizam os teares indígenas, que são verticais. No século XIX, o uso da rede diminui por um fator socio-econômico: a pessoa era julgada mais importante se dormisse numa cama, em vez de na rede. E a sua utilização como transporte, para viajar ou carregar defuntos, foi evidentemente abolida. Assim como o costume da rede se tornou incomum, existem atualmente poucos redeiros.
Inga começou então a falar do que conseguiu apurar no seu estudo. Ela conta que Sorocaba é a cidade que possui o maior número de redeiros: três. A rede de lá, entretanto, tem uma tradição. Na época das bandeiras, tecer uma rede era um hábito social, tanto das senhoras ricas quanto das pobres. E os tropeiros que por lá passavam as levavam para o seu uso e também para revendê-las, o que possibilitou a sua propagação.
A rede de Sorocaba é geralmente feita de algodão e duas das redeiras, Benedita e Francisca, são irmãs. Elas até deram denominações para os desenhos de suas redes, como cravo-martelo, orelha de lebre ou onda quebrada. Elas aceitam encomendas e o freguês pode escolher o que deseja pelas amostras. E Zanotte Rocha, o outro redeiro, as tece desde os 12 anos. Ele disse à Inga que aprendeu "com uma moça conhecida para ganhar dinheiro".
De cipó
Em Iguape, cidade litorânea, a rede de cipó é a mais difundida. Geralmente é fabricada por homens, assim como a chamada "rede de criança". Esta, entretanto, é um cesto alongado, pendurado no teto por meio de cordéis.
A rede de taboa, planta aquática, é feita em Ubatuba. "É muito trabalhosa, diz Inga, pois, depois de colhida, a taboa precisa ser secada durante uma semana. O material é então trançado em planos horizontais e verticais e o tear quadrilátero é o empregado".
Há redeiras ainda em Apiaí, quase fronteira com o Paraná, e em Tietê. A rede de Apiaí é tecida com uma corda muito grossa e torcida chamada linha e o Tatuzinho, principal redeiro da região, também tece redes de palha de milho e de pano. Em Tietê as redes são de poliéster e é a única cidade de São Paulo em que a redeira possui uma "verdadeira industriazinha".
Inga diz que o principal motivo de sua pesquisa foi "ajudar aqueles redeiros fabulosos, pois geralmente as redes do Ceará é que são vendidas em São Paulo.