Jangada Brasil a cara e a alma brasileiras
Nesta seção, textos sobre profissões; ferramentas; técnicas; agricultura, pecuária; artesanato; vendedores ambulantes; pregões...

Redes de São Paulo, uma arte

Como a maioria dos europeus a alemã Inga Wiedemann logo que chegou ao Brasil se apaixonou pelo folclore nacional. Apesar de morar em São José dos Campos, onde seu marido trabalha no Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, fez um curso em São Paulo no Museu de Artes e Técnicas Populares do Ibirapuera. E foi observando a coleção de artesanato do museu, que reparou nas redes de dormir, de diversas técnicas e materiais.

Inga decidiu então fazer um estudo sobre as redes de São Paulo, por serem elas "poucos conhecidas e, no entanto, mais importantes que as famosas de Mato Grosso". Leu e pouca literatura existe a respeito, visitou os lugares nos quais ainda há redeiros e observou seus trabalhos. Para ela, que era uma bibliotecária em Munique, a viagem que realizou aos Estados Unidos para estudar artes têxteis e o interesse despertado pelo folclore no Brasil fizeram que mudasse definitivamente de profissão.

"No princípio, conta Inga, sentia-me como uma detetive. Ao chegar a um lugar onde supunha haver redeiros, perguntava aos lojistas, motoristas ou a qualquer pessoa que visse na rua onde poderia encontrá-los. E freqüentemente as indicações me conduziam a lugares errados. Entretanto, ao achá-los, tudo se tornava muito fácil. Eles pareciam felizes em receber-me e contavam e mostravam o que sabiam".

A história

Antes, porém, de falar da sua pesquisa, Inga dá um histórico da rede. Foi o índio que a inventou e as populações brancas até hoje utilizam os teares indígenas, que são verticais. No século XIX, o uso da rede diminui por um fator socio-econômico: a pessoa era julgada mais importante se dormisse numa cama, em vez de na rede. E a sua utilização como transporte, para viajar ou carregar defuntos, foi evidentemente abolida. Assim como o costume da rede se tornou incomum, existem atualmente poucos redeiros.

Inga começou então a falar do que conseguiu apurar no seu estudo. Ela conta que Sorocaba é a cidade que possui o maior número de redeiros: três. A rede de lá, entretanto, tem uma tradição. Na época das bandeiras, tecer uma rede era um hábito social, tanto das senhoras ricas quanto das pobres. E os tropeiros que por lá passavam as levavam para o seu uso e também para revendê-las, o que possibilitou a sua propagação.

A rede de Sorocaba é geralmente feita de algodão e duas das redeiras, Benedita e Francisca, são irmãs. Elas até deram denominações para os desenhos de suas redes, como cravo-martelo, orelha de lebre ou onda quebrada. Elas aceitam encomendas e o freguês pode escolher o que deseja pelas amostras. E Zanotte Rocha, o outro redeiro, as tece desde os 12 anos. Ele disse à Inga que aprendeu "com uma moça conhecida para ganhar dinheiro".

De cipó

Em Iguape, cidade litorânea, a rede de cipó é a mais difundida. Geralmente é fabricada por homens, assim como a chamada "rede de criança". Esta, entretanto, é um cesto alongado, pendurado no teto por meio de cordéis.

A rede de taboa, planta aquática, é feita em Ubatuba. "É muito trabalhosa, diz Inga, pois, depois de colhida, a taboa precisa ser secada durante uma semana. O material é então trançado em planos horizontais e verticais e o tear quadrilátero é o empregado".

Há redeiras ainda em Apiaí, quase fronteira com o Paraná, e em Tietê. A rede de Apiaí é tecida com uma corda muito grossa e torcida chamada linha e o Tatuzinho, principal redeiro da região, também tece redes de palha de milho e de pano. Em Tietê as redes são de poliéster e é a única cidade de São Paulo em que a redeira possui uma "verdadeira industriazinha".

Inga diz que o principal motivo de sua pesquisa foi "ajudar aqueles redeiros fabulosos, pois geralmente as redes do Ceará é que são vendidas em São Paulo.

 

("Redes de São Paulo, uma arte". O Estado de São Paulo. São Paulo, 05 de novembro de 1972)
Índice | Pesquisa | Central do Leitor | Expediente | Contato | Mapa do site | Termos e condições de uso

Jangada Brasil © 1998-2005